sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Uma medida difícil, mas necessária...

O Ministério da Educação apresentou hoje aos sindicatos de professores uma proposta que prevê que as colocações dos docentes dos quadros de escola e de zona pedagógica devem ter uma periodicidade plurianual de 3 e 4 anos segundo o nível de ensino abrangido.
Esta é uma medida que, a ser concretizada, deixará muitos docentes satisfeitos, enquanto que outros ficarão resignados e contrariados na sua função docente, com prejuízos elevados nas suas vidas aos níveis familiar, emocional e financeiro.
No entanto, em termos gerais, podemos afirmar que os alunos serão os grandes beneficiados com esta medida, visto que é provável que haja um reforço da estabilidade do corpo docente de muitas escolas, com óbvias vantagens em termos do desenvolvimento de projectos educativos mais coerentes e de maior alcance, ao mesmo tempo que o processo de ensino-aprendizagem poderá efectivar-se de forma mais estável e com melhores resultados pedagógicos.
Muitos professores sairão com as suas expectativas defraudadas por terem de leccionar durante 3 ou 4 anos longe das suas casas e famílias, enquanto que outros que agora estão contra esta proposta até poderão ficar satisfeitos com os resultados das colocações plurianuais e, assim, até mudarem a sua opinião sobre a referida medida. Eu próprio que, este ano lectivo, estou a 70 Kms de casa, tendo que fazer 140 Kms todos os dias, poderei ter de ficar durante os próximos 3 anos numa escola a mais de 120 Kms de casa. Mas, é impossível agradar a todos... Assim, visto que são os alunos quem mais beneficiam com esta proposta, não posso deixar de concordar com o conteúdo principal desta medida. No entanto, esta proposta deveria ter sido acompanhada de outras medidas que pudessem beneficiar os professores que estão longe das suas casas e que necessitam que as suas escolas tenham condições, no mínimo, razoáveis para que a motivação de professores e o sucesso escolar andem juntos nas nossas escolas. Pena é que os docentes que ficam longe das suas famílias de 2ª a 6ª feira (outros há que estão várias semanas fora de casa!) tenham que se desenrascar por escolas que não lhes oferecem as melhores condições para exercerem condignamente a sua profissão...

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Parabéns pelos 125 anos...

Não é todos os dias que uma escola do nosso País se pode orgulhar de comemorar o seu 125º aniversário. Efectivamente, só há pouco mais de 30 anos é que Portugal assistiu ao "boom" do ensino secundário, pelo que não posso deixar de destacar o facto de ter quase o "privilégio" de poder leccionar numa escola com 125 anos de história e por onde já passaram milhares de homens e mulheres de um concelho ainda desfavorecido do Interior do nosso Portugal.
Votos de muitos e bons anos na difícil missão de instruir, formar e educar as gerações futuras do concelho de Lamego...

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Só trabalhar na escola? Isso é que era bom...

Este ano lectivo, devido às novas regras de cumprimento de horas não lectivas, alguns colegas meus lá da escola decidiram que levariam o mínimo de trabalho escolar para as suas casas, com destaque para o serviço de correcção das fichas de avaliação dos alunos...
Visto que este ano fiquei a cargo de oito turmas de quatro níveis diferentes e sabendo que me seria impossível apenas corrigir as fichas de avaliação na escola, resolvi contabilizar o tempo gasto a corrigir mais de duzentos testes...
Pois bem, comecei a correcção das referidas provas de avaliação, muitas das quais com mais de quatro páginas de folha de teste escritas, há cerca de dez dias atrás. Acabei hoje de corrigir o último teste e pelas minhas contas levei uma média de dez minutos para cada prova (mais para os testes do secundário e menos para os do 3º ciclo). Assim sendo, só na correcção de fichas de avaliação gastei cerca de 35 horas de trabalho, quase exclusivamente, caseiro... Ou seja, dado que tenho 22 horas de componente lectiva na escola, se tivesse que fazer este trabalho na escola, assumindo que não teria que preparar aulas e que o número de horas semanais é de 35 horas, levaria, no mínimo, três semanas a corrigir os testes. E claro, sem as condições de conforto, sossego e silêncio lá de casa...
Este apontamento serve apenas de alerta para todos aqueles (professores ou não) que julgam que os docentes não levam trabalham para casa. Pois bem, desde a preparação de aulas, até à concepção das provas de avaliação e sua correcção, entre muito outro trabalho burocrático, há quem tenha que levar muito trabalho da escola para casa. Pelo menos, para quem lecciona ao 3º ciclo e ensino secundário assim é obrigado. É a "tal" excepção que (não) temos...

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Educação sexual nas escolas: nada de novo...

O grupo de trabalho para a Educação Sexual em meio escolar, coordenado por Daniel Sampaio, necessitou de meio ano para concluir que não deve ser criada uma nova disciplina para esta área, aconselhando o Governo para que se revitalizem os currículos sobre Educação para a Saúde. Ou seja, nada de grandes novidades...

Convém lembrar que, actualmente, a Educação para a Sexualidade já é uma realidade nas escolas portugueses, sendo leccionada em diversas disciplinas, tais como a Biologia ou a Geografia, e na área curricular não disciplinar de Formação Cívica. Vir agora afirmar, com toda a pompa e circunstância, que as escolas e agrupamentos escolares devem aproveitar as áreas não disciplinares de Formação Cívica e de Área de Projecto, para também abordarem a questão da educação para a saúde, é não perceber que em muitas escolas isso já se faz.

Provavelmente, Daniel Sampaio e a sua equipa, não sabem muita da realidade escolar portuguesa... Aliás, já há umas semanas atrás, o irmão de Jorge Sampaio escreveu na revista Xis um artigo sobre as aulas de substituição num teor que só evidencia que ainda há quem pense que leccionar no ensino superior é algo de muito parecido com o que acontece no ensino básico. Puro engano, caro Daniel Sampaio...

Sempre defendi que a Educação para a Sexualidade não deve ser incorporada numa disciplina específica. O que deve ser potenciado é aquilo que já se faz em muitas escolas: leccionar conteúdos desta área nas disciplinas que se relacionem com este tema, nomeadamente na Biologia, aproveitar a Formação Cívica para desenvolver competências nos alunos a este nível e dinamizar colóquios e acções de formação onde professores, pais e alunos tenham uma intervenção activa e capaz.

Assim, penso que Daniel Sampaio não chegou a nenhuma conclusão especial. Só é pena que, mais uma vez, seja necessário que venha alguém do ensino superior dizer o que se deve fazer com a Educação para a Sexualidade para que o que já se faz passe a formato de lei... Quanto a professores, será que alguém os ouviu? Se sim, não parece...

sábado, 29 de outubro de 2005

Trabalho da escola em casa...

Isto de ser professor de Geografia de oito turmas que pertencem a quatro níveis diferentes (do 3º ciclo e ensino secundário) obriga a muito trabalho da escola a ter de ser realizado em casa. Tenho em cima da minha secretária mais de duzentos testes por corrigir, muitos dos quais com cinco e seis páginas de respostas dos alunos...
Com tempo de chuva e na impossibilidade de na escola ter um lugar sossegado para trabalhar nos tempos de componente não lectiva lá vou aproveitando este fim-de-semana para corrigir testes. E ainda há quem diga que os professores não levam muito trabalho para casa. Acredito que alguns não...

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

A greve não é solução

Pela primeira vez, nos últimos anos, os principais sindicatos portugueses da educação resolveram marcar, de forma unânime, uma greve geral de professores e educadores para o próximo dia 18 de Novembro, uma sexta-feira, como não poderia deixar de ser...
Ora, a questão que coloco é a seguinte: será que a melhor resposta para se demonstrar descontentamento pelo trabalho desenvolvido pela actual equipa ministerial é, precisamente, não trabalhar durante um dia? Definitivamente, não sou apologista deste tipo de acções contestatárias...
Tenho a plena convicção de que este Governo responsabiliza os professores pelo enorme insucesso escolar que predomina em Portugal. Vai daí, "acusando" a classe docente de laxismo, irresponsabilidade e inércia, o actual Ministério da Educação, tem vindo a apostar na aplicação de uma série de medidas que visam aumentar o número de horas de trabalho dos professores e educadores nas escolas, ao mesmo tempo que limita um conjunto de direitos até aqui considerados como invioláveis pela classe docente. Quanto às medidas que, efectivamente, poderiam combater o insucesso escolar pouco ou nada se tem visto. Os programas curriculares continuam os mesmos, as cargas horárias dos alunos em vez de diminuírem parecem aumentar, o número de alunos por turma continua elevado... Isto já para não falar da desmotivação que grassa pela classe docente.
Mas, poder-me-ão perguntar: qual a solução? Pois bem, tenho para mim a ideia muito clara que a convocação de uma greve geral da educação apenas terá como consequência imediata a descredibilização da classe docente, com a maioria da opinião pública a contestar esta greve ao trabalho. Por outro lado, este parece-me ser um Governo que não se deixa "afectar" por greves. Veja-se o que se passou com as greves na Justiça (desde juízes a funcionários judiciais), alvo de contestação pela opinião pública em geral...
Continuo a pensar que a existência de uma Ordem dos Professores, impulsionadora da elevação da exigência e da credibilidade na nossa classe profissional, poderia ser um ponto de partida importante para que a sociedade civil tivesse uma opinião mais favorável relativamente à classe docente. Por outro lado, uma Ordem dos Professores credível seria vista de uma outra forma pelo Governo, ao invés do que acontece agora, em que os sindicatos, afectos a partidos políticos, deixam de ser levados a sério...
Em suma, greves ao trabalho para reivindicar melhores condições de trabalho não me parece ser o caminho a desbravar. Credibilidade e exigência são factores-chave que ainda faltam a uma parte significativa da nossa classe profissional...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Por uma Ordem dos Professores credível e eficaz

Escrevi há uns tempos atrás que sou totalmente a favor da constituição de uma Ordem dos Professores, por forma a unir os docentes e servir de estímulo ao regresso da credibilidade à nossa classe profissional.
Agora que vivemos um período em que os sindicatos dos professores resolveram unir-se de forma a protestarem contra algumas das medidas que este Governo tem vindo a implementar, penso ser o momento ideal para aqui apresentar o meu pensamento acerca do estado actual em que se encontra a classe docente.
Ora, um dos principais problemas que afecta a classe dos professores é a sua divisão e segmentação ao nível dos diferentes níveis de ensino existentes. Todos sabemos (embora custe a aceitar a muita gente) que ser educador de infância ou professor do 1º ciclo não é o mesmo que ser professor do 3º ciclo ou do ensino secundário, mas isso não é razão para que uns se queiram reformar antes que outros... Não importa aqui reflectir sobre qual o grau de importância social de cada um destes níveis de ensino, mas tendo âmbitos de intervenção e exigência diferentes, a verdade é que aglutinar docentes com diferentes formas de "ver" o ensino num mesmo sindicato só leva a que as divisões se agudizem. Por isso, mais do que termos diversos sindicatos (uns controlados por docentes do 1º ciclo, como a FENPROF e a FNE, e outros mais afectos aos professores do ensino secundário, como o SNPL), seria mais equilibrado termos apenas uma Ordem de Professores que, de forma democrática, fosse a voz de todos os professores, independentemente, do nível de ensino leccionado.
Finalmente, a terceira razão prende-se com a legitimidade e capacidade de influência junto das entidades governamentais. Uma Ordem dos Professores que fosse exigente para com os seus associados, como acontece nas outras Ordens profissionais, faria com que a generalidade da opinião pública portuguesa tivesse um maior respeito pelos professores, visto que, a própria Ordem teria a incumbência de avaliar a prestação dos docentes, para além de orientar a sua formação contínua. Ao contrário do que se passa actualmente onde para se ser professor basta ter uma licenciatura em ensino com média suficiente e onde a formação contínua apenas serve para que sindicatos ganhem dinheiro com cursos que de científico nada têm, uma Ordem dos Professores elevaria o nível de exigência dentro da própria classe docente, trazendo de novo a credibilidade necessária e a real capacidade de intervenção junto do Governo.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

O problema das substituições...

Ontem estava na sala dos professores na ocupação dos meus noventa minutos de "componente não lectiva", enquanto esperava que me pudessem chamar para ir substituir algum colega que tivesse que faltar, quando um colega (daqueles já em fim de carreira) entrou na referida sala "esbaforido" e nervoso, insurgindo-se com o que lhe tinha acontecido...
Como não fui chamado durante aqueles noventa minutos para fazer qualquer substituição, fiquei na sala dos professores a elaborar no meu computador portátil (sim, porque não existe nenhum computador na dita sala!) um teste para o 10º G, pelo que não pude evitar de tomar conhecimento da revolta que tomava conta do colega.
Então não é que o professor, já dos seus cinquenta ou sessenta e tal anos de idade, e portanto, com várias horas de redução e uma componente não lectiva alargada, foi chamado no primeiro bloco de aulas e substituir um colega de Educação Física, não lhe tendo sido facultada nenhuma sala de aula, a não ser o Ginásio da escola? Pois é, o colega queixava-se de que teve de estar durante noventa minutos a tomar conta de uma turma no Ginásio, enquanto outras turmas iam tendo, no mesmo recinto, as suas aulas de Educação Física. Acredito que não deve ter sido fácil... Sem espaço conveniente para trabalhar com os miúdos, sem recursos ou actividades disponíveis e com um professor já em final de carreira, não teria sido melhor que, em vez da dita substituição, tivesse havido lugar ao chamado "feriado"?
Já o aqui referi que concordo com o regime de substituição de aulas, mas os Conselhos Executivos devem precaver situações anómalas, de forma a evitar episódios como o que aqui retratei. Com uma planificação adequada, salas de aula apropriadas e disponibilidade de recursos e material diversos é possível fazer das aulas de substituição verdadeiros tempos de utilidade e não apenas de "entretenimento"...

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Se todas as aulas pudessem ser assim...

Ontem decidi utilizar o projector data-show na aula do 10º G, por forma a mostrar à turma alguns diapositivos, por mim elaborados em PowerPoint, relacionados com algumas das conclusões dos Censos da População de 2001.
Assim, os alunos puderam perceber de que forma é que os recenseamentos do INE são realizados e qual a sua utilidade para Governo, autarquias e outros organismos. Falámos sobre a evolução da população portuguesa e a sua desigual distribuição no território nacional, debatendo sobre os problemas que o actual estado da demografia portuguesa poderão acarretar num futuro próximo. A análise de alguns mapas e gráficos através do projector data-show revelou-se essencial para captar o interesse dos alunos e para uma melhor compreensão da matéria leccionada.
Pena é que muitas escolas não proporcionem a dinamização de aulas deste tipo. Aliás, já leccionei em escolas onde não é possível utilizar o projector data-show, por falta de condições das salas de aula ou até mesmo pelo facto de a escola não possuir o aparelho.
No entanto, muito mais poderia ser feito pelas entidades responsáveis na matéria para que as aulas pudessem ser de um melhor aproveitamento: por exemplo, a existência de Internet sem fios em cada sala de aula, mesmo que a escola não possuísse um número suficiente de computadores, poderia ser um auxílio precioso para os docentes que têm computador portátil. Na escola onde lecciono penso que existem três projectores data-show (já não é mau!), mas o facto de não haver Internet sem fios nas salas de aula inviabiliza outras potencialidades que poderiam ser melhor aproveitadas em benefício dos alunos.
Bem sei que nos últimos anos a situação a este nível tem vindo a melhorar, mas será que custa assim tanto, em termos monetários, munir as escolas (pelo menos as secundárias) com Internet sem fios?

domingo, 9 de outubro de 2005

Aulas diferentes...

No início do ano lectivo fiz uma proposta aos alunos do 10º G. Como teríamos 3 blocos de 90 minutos ao longo de cada semana de aulas, seria interessante que uma parte de um desses blocos (fez-se uma previsão inicial de 30 minutos) fosse dinamizada pelos próprios alunos, com a apresentação à turma das principais notícias da semana relacionadas com a disciplina de Geografia, à qual se seguiria o debate e confronto de opiniões no seio da própria turma. Os alunos acharam a ideia interessante, pelo que ficou combinado que em cada semana um grupo de dois alunos (respeitando a ordem alfabética da turma) teria a seu cargo a dinamização da aula, apresentando, à sua escolha, algumas das notícias que estão na ordem do dia.
Na passada sexta-feira teve lugar a segunda sessão deste tipo de aulas em que os alunos têm um papel mais interventivo do que habitualmente acontece. Ora, a verdade é que os 30 minutos previstos foram insuficientes para o debate de ideias que se seguiu à apresentação das notícias pelos alunos, pelo que esta actividade teve que ser alargada a quase todo o bloco de 90 minutos. Discutiram-se dois assuntos principais: o alargamento da idade da reforma para os funcionários públicos e a proposta de referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Foi deveras interessante e estimulante assistir à forma séria e descomprometida como os alunos colocaram dúvidas, deram a sua opinião e discutiram diferentes pontos de vista, evidenciando um empenho e respeito tais que no final da aula todos estávamos satisfeitos. Foi, sobretudo, gratificante perceber que, quando os alunos se sentem motivados, eles próprios se esforçam por estar a par da actualidade e do mundo que os rodeia, por forma a darem a conhecer a sua perspectiva sobre os assuntos que estão na ordem do dia...
Seria bom que em todas as aulas pudesse haver uma maior participação por parte dos alunos, mas, como sempre, há turmas e turmas! Com este 10ºG tem vindo a ser possível levar a cabo aulas diferentes, onde todos saem a ganhar...