segunda-feira, 29 de maio de 2006

A proposta do novo estatuto da carreira docente

Aí está a proposta do Ministério da Educação (ME) para a reformulação do Estatuto da Carreira Docente (ECD). Este e os próximos artigos que aqui deixarei servirão para apresentar a minha opinião sobre as principais alterações que a proposta do ME enuncia. Como não pertenço a nenhum sindicato de professores e, portanto, não me subjugo às considerações que estes possam vir a defender, penso ser meu dever de professor deixar aqui expressa a minha opinião sobre a presente proposta.
O artigo 22º da proposta enuncia os requisitos gerais e específicos para a docência, de entre os quais aparece como grande novidade a obrigação do candidato, depois de frequentar a instituição de ensino superior que lhe concede a qualificação profissional, realizar uma prova nacional de avaliação de conhecimentos e competências, assente numa prova escrita e numa entrevista, a determinar em futura portaria.
Ora, não tendo nada contra a realização pelo candidato a docente da referida prova nacional, uma vez que a mesma irá determinar, porventura, uma elevação do nível de exigência dos futuros professores, não é menos verdade que a mesma determina um acto de desresponsabilização ou, pelo menos, de desconfiança perante o papel das instituições de ensino superior na formação de docentes. De facto, se se quer que os futuros professores façam uma prova extra-licenciatura, então há que assumir que o problema poderá estar, sobretudo, na falta de confiança que o ME demonstra pelo desempenho e capacidade das universidades e das ESE`s em formar docentes. Assim, não seria melhor, para além da referida prova, assumir uma política séria e rigorosa de avaliação do desempenho das universidades e das ESE`s na formação dos seus alunos? É que, com o financiamento destas instituições a ser determinado pelo número de alunos que têm, o normal será que as mesmas queiram "fabricar" licenciados a todo e qualquer custo...

quinta-feira, 25 de maio de 2006

As reformas "passo a passo" de Sócrates

José Sócrates foi ao Debate Nacional sobre Educação (que de nacional teve muito pouco) afirmar que é contra a ideia de se avançar com uma nova reforma global da Educação, dizendo-se adepto daquilo a que ele próprio apelida de reformas "passo a passo". Ora, se tivermos em conta que Sócrates considera como "globalmente positivos" os resultados alcançados pelo sector da Educação nos últimos 20 anos, então não nos poderemos admirar com tal postura...
Como tenho uma ideia negativa sobre o rumo que a nossa Educação tem vindo a dar nas últimas duas décadas, sou obrigado a pensar de forma distinta do nosso Primeiro-Ministro. Por um lado, considero que a Escola tem sido cada vez mais um lugar de crescente facilitismo, com perda de responsabilidade e de firmeza por parte dos seus intervenientes. Por outro lado, continua-se a insistir na teoria de que a Escola tem de tratar de todos os males da sociedade, para além de continuarmos a termos um currículo nacional descontextualizado das realidades locais e demasiado extenso. Já em relação à forma como a classe docente tem vindo a ser desprestigiada e ignorada na forma de fazer a Educação nem vale a pena dizer nada...
Doutra forma, continuaremos a seguir pela estratégia do facilitismo e da redução do nível de exigência dos nossos alunos, formando futuros adultos com um elevado grau de iliteracia e pouco dados à cidadania e civismo...

sábado, 20 de maio de 2006

Geração "copy paste"...

Só faltava esta para evidenciar a falta de capacidade auto-crítica e de esforço que a actual geração de adolescentes apresenta. Pelos vistos, já não chegava a demonstração de exagero consumista de telemóveis e outros adereços ou a táctica de "copy paste" na execução de trabalhos que caracteriza os jovens estudantes do básico e secundário para provar até que ponto é que, em termos gerais, os adolescentes portugueses rumam no sentido da falta de ambições... Digo isto porque esta geração, que muitos apelidam de "geração morangos", é tão fortemente influenciável que chegámos ao ponto de se ter inventado, a nível quase nacional, uma epidemia de comichões...
Ontem, sexta-feira, na escola onde lecciono não se falou noutra coisa: desde manhã que muitos alunos se queixavam de pseudo-comichões, tendo alguns sido encaminhados para fora das aulas, com a clara evidência de que tudo não passava de invenção, proveniente da série de culto destes jovens...
Ora, é por estas e por outras que, cada vez mais me convenço que, sem rigor e exigência na Escola, já que dos pais não se pode esperar muito mais do que aquilo que já temos (proteccionismo exacerbado e satisfação das vontades dos meninas e meninos), continuaremos a produzir jovens que são seguidores na "arte" de plagiar, uma miséria na capacidade escrita, um desastre nas contas de cabeça e uns autênticos esbanjadores dos (muitas vezes reduzidos) recursos financeiros dos pais...
E depois ainda temos que aturar as teorias de pensadores utópicos como Daniel Sampaio!!!

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Aproxima-se mais uma época "quente" de exames

Parece que já se torna uma rotina: os sindicatos da educação já vieram avisar quem de direito que a ameaça de greve aos exames deverá ser para levar a sério. Desta vez, a justificação para tal atitude prende-se com o teor da proposta do Ministério da Educação relativamente ao novo Estatuto da Carreira Docente (ECD), que os sindicatos supõem estar recheado de más notícias: maior carga lectiva, maior exigência na progressão na carreira, mudança do regime de faltas, etc.
Penso que a estratégia da greve, a ser efectivada pelos sindicatos, apenas terá uma consequência: a continuação do desgaste da imagem que a classe docente tem junto da opinião pública. Aliás, a Ministra da Educação sabe muito bem que terá do seu lado a generalidade das famílias portuguesas caso se avance para uma greve aos exames dos estudantes que pretendem entrar para o ensino superior. Por isso, não é de admirar se a proposta do novo ECD chegar para discussão pouco tempo antes de se iniciarem os exames.
Enquanto as dezenas de milhares de professores não tiverem uma organização que os represente de forma séria e credível continuaremos a assistir à situação que temos: o Ministério da Educação decide a seu belo prazer, sem ligar ao que os sindicatos dizem defender, sendo que muitas das mudanças levadas a cabo nos últimos anos na área da Educação não têm conseguido alterar a situação de insucesso escolar que continuamos a ter no nosso país.

sábado, 6 de maio de 2006

Leccionar ou fazer passar o tempo???

Depois de há uns meses atrás a Ministra da Educação ter vindo à praça pública afirmar que as aulas de substituição deveriam ser utilizadas para os professores distraírem os alunos, por forma a evitar que estes fossem para o recreio ou para fora da escola fazer o que lhes bem apetecesse, eis que a Ministra parece ter evoluído na matéria e vem falar agora em leccionar durante as ditas aulas de substituição.
Assim, parece que a equipa ministerial da Educação já se começou a aperceber que quem escolhe ser professor não é com a intenção de adquirir competências que visem tomar conta de jovens como se de uma ama-seca se tratasse... A função do professor é leccionar e não fazer jogos que visem ocupar os tempos livres dos alunos!
Deste modo, não me repugnam nada as instruções dadas pelo Ministério da Educação de que, sempre que possível e se saiba com antecedência de que vai faltar, o professor deve deixar no Conselho Executivo o plano da aula que iria desenvolver. A questão é saber se o referido plano será concretizado. Ora, quem é docente sabe muito bem da incapacidade das escolas em terem, a todos os blocos lectivos, um professor da mesma área disciplinar pronto a substituir um seu colega, resultando daí a impossibilidade de concretizar as intenções do Ministério.
Então, em que ficamos? Deixo três pistas:
1. Quando um professor sabe que vai faltar deveria avisar a escola com antecedência e esta deveria ver da possibilidade de ser um colega da mesma disciplina a leccionar à turma penalizada;
2. No caso de tal ser impossível deveria ser dada prioridade a um colega doutra disciplina que fosse professor da turma em questão, havendo a possibilidade do docente desenvolver a aula com actividades formativas e/ou avaliativas da sua disciplina;
3. Finalmente, se as situações atrás descritas fossem impossíveis de concretizar a escola deveria ter um espaço próprio com educadores e profissionais especialistas no desenvolvimento de actividades de entretenimento para ocupar os tempos livres dos alunos, aliás, como acontece noutros países europeus (caso da França).

sábado, 29 de abril de 2006

Professor, o senhor devia era ser político!

O episódio ocorreu na turma do 8ºA. Actualmente estamos a dar a matéria das políticas demográficas, tema que costuma suscitar nos alunos um interesse redobrado, por abordar um assunto que lhes é muito curioso: a educação para a sexualidade. Ontem debatemos as políticas que (não) têm sido levadas a efeito pelos sucessivos governos de Portugal em termos de incentivo à natalidade. Com um índice de renovação de gerações de apenas 1,4 (quando o mínimo espectável deveria ser de 2,1 filhos por mulher), resolvi levar para a aula diversas notícias da comunicação social escrita, com o intuito de levar os alunos a darem a sua opinião sobre os problemas sociais e económicos que podem advir para o nosso país pelo facto da natalidade ser reduzida e o número de idosos já superar em muito o de jovens. Debatemos um conjunto de assuntos análogos a este tema: a importância do planeamento familiar, a questão dos métodos contraceptivos, os incentivos que devem existir à natalidade, o problema da segurança social, a política vigente em relação à interrupção voluntária da gravidez, enfim, uma série de temas que tiveram por parte dos alunos bastante receptividade. E, atenção que estou a falar de uma turma cujo rendimento escolar não é dos melhores. Mas, ontem revelaram-se...
Quase no final da aula que, diga-se passou num "instante", uma aluna vira-se para mim e pergunta-me porque razão é que eu não fui para a política, já que tinha tanto jeito para falar destes temas. E esta hem??? Respondi-lhe que a melhor forma de fazermos política é assumirmos as nossas posições individuais, não termos medo de as partilhar e exercer o nosso dever de cidadania, ou seja, não nos calarmos quando se debatem assuntos do interesse do nosso país.
Foi a melhor aula de Geografia deste ano do 8ºA. Claro que a matéria ajuda, pelo que não há dúvida de que quando os assuntos abordados nas aulas são do interesse dos alunos o seu empenho é bem maior.
Continuação de boas aulas!

sábado, 22 de abril de 2006

Visita de estudo a Lisboa...

A primeira semana de aulas do terceiro período começou da forma como é habitual: cerca de 10 minutos iniciais da aula com cada turma para explicar aos alunos mais desatentos que muito da nota final de ano já está decidida. Então este ano que apresenta um terceiro período de aulas tão curto não vale a pena fugir às evidências: alunos com nível negativo nos dois períodos anteriores dificilmente poderão recuperar, pelo que as preocupações serão redobradas para os alunos que num dos períodos anteriores tiveram negativa e que, assim, têm ainda possibilidade de passar a Geografia.
No entanto, esta primeira semana de aulas reservou-me também uma agradável visita de estudo de dois dias a Lisboa com duas turmas do 10º ano de escolaridade. Já há alguns anos que não participava numa visita de estudo de dois dias e as recordações não eram as melhores. Aliás, este foi o primeiro ano em que não dinamizei qualquer actividade deste género, não porque não tivesse vontade de o fazer, mas sobretudo porque o facto de ter oito turmas a meu cargo e estar em fase de elaboração da tese de mestrado serem actividades que me ocupam imenso tempo. Isto já para não falar do cansaço das viagens diárias entre Viseu e Lamego. Mas, a verdade é que a participação nesta visita de estudo deu para ver o trabalho enorme que dá dinamizar este tipo de actividade...
O facto de ser uma viagem a realizar com alunos do 10º ano deixou-me algo descansado, dado que, geralmente, os alunos desta faixa etária não perturbam tanto como os do básico. Como de facto... Em termos gerais, a visita de estudo decorreu de forma positiva, não tendo ocorrido problemas de maior. Na pousada da juventude onde passámos a noite (que por acaso fica a 100 metros da residência universitária onde estive durante 4 anos) nada de anormal ocorreu e durante as visitas que fizemos à zona de Belém, para além das paragens a Tomar e a Conímbriga, o interesse foi ponto de ordem. Enfim, tudo correu pelo melhor.
Apenas uma chamada de atenção. Pela nova lei, caso a visita de estudo se realizasse a partir de 17 de Maio todos os alunos teriam que ir com o cinto de segurança colocado. Ora, depois de assistir, mais uma vez, à forma como os alunos se dispõem inquietos no autocarro, concordo inteiramente com o teor desta nova lei; apenas tenho dúvidas de que a mesma venha a ser posta em prática, sobretudo no transporte escolar diário de crianças... É que as empresas de transporte rodoviário não parecem estar (ainda) preparadas, nem sensibilizadas para todos os pormenores desta nova legislação.
Já agora, desejo a todos os visitantes deste blogue um terceiro período de aulas cheio de sucesso...

sexta-feira, 31 de março de 2006

Avaliações do 2º período...

Chegou a hora da verdade! Depois de um longo segundo período de aulas, é tempo de pensar nas avaliações de mais de duzentos alunos. Há que ponderar as notas das quatro fichas de avaliação realizadas até hoje, mais os trabalhos realizados durante as aulas (sim, porque sou contra os ditos TPC`s), para além das atitudes demonstradas pelos alunos desde Setembro...
Ora, sabendo que a componente do saber e saber-fazer vale 70% e que a do saber-ser tem um peso de 30% na avaliação final, a verdade é que tenho casos de alunos que, tendo tido média positiva nas fichas de avaliação terão um nível negativo no final deste período por manifesto desinteresse e desleixo demonstrado noutras vertentes avaliativas: realização de trabalhos práticos, participação, assiduidade e postura na sala de aula, entre outros aspectos. Também tenho situações inversas, nas quais o empenho revelado proporcionará a subida das notas negativas (mas perto da positiva) das fichas de avaliação...
Enfim, hoje em dia não conta só aquilo que se faz nos testes, mas tudo aquilo que o aluno revela em termos de interesse, empenho, participação e postura. Há que ser equilibrado, pois o tempo de avaliar apenas conhecimentos já lá vai. Para o bem e para o mal...
Ora, fico satisfeito por, em termos gerais, conseguir que a média das avaliações nas minhas turmas de Geografia seja maioritariamente positiva, numa proporção de quatro positivas por cada negativa...

sábado, 25 de março de 2006

Mais uma razão para que os sindicatos de professores se entendam...

A recente medida tomada pelo Ministério de Educação de elevar a exigência em termos de recrutamento de professores para as delegações dos sindicatos da educação provocou o natural descontentamento por parte destes... Ora, tal reacção não é de admirar vindo de quem, com uma postura algo despiciente e laxista, levou a que a opinião pública, em geral, tenha vindo ao longo dos tempos a construir uma imagem negativa relativamente aos sindicatos de professores.
Afinal de contas, qual é a situação actual em termos de sindicalismo na área da educação? Temos uma proliferação de associações e organizações sindicalistas que se dizem representantes da classe docente, espalhados um pouco por todo o país e que têm à sua frente, pelo menos em muitos deles, gente que já não lecciona há dezenas de anos e que parece estar desfasada da realidade escolar. Há quantos anos é que Paulo Sucena, o líder da Fenprof, não dá aulas? E João Dias da Silva, secretário-geral da FNE, leccionou nos últimos dez anos? Mas, poderia dar muitos mais exemplos, também a nível de dirigentes regionais e até locais.
Depois, não nos podemos esquecer (e quem é professor sabe do que falo!) de como funcionam muitos sindicatos, quer em termos de recrutamento de delegados, como na confrangedora qualidade de muitas das acções de formação ministradas...

segunda-feira, 20 de março de 2006

Ainda a avaliação dos professores...

O último artigo que aqui escrevi na Sala de Aula foi um dos que suscitou mais reacções, tanto a favor como contra, por parte dos leitores deste blogue. Apesar de alguns comentários menos sérios, penso que é importante que haja alguma lucidez e serenidade quando se opina sobre este ou qualquer outro assunto relacionado com a Educação. Por isso, volto à mesma temática...
Ora, o Público da última sexta-feira noticiou que a ANP, uma das muitas associações que se dizem representativas da classe docente, irá apresentar ao Ministério da Educação uma proposta com dez alterações ao estatuto da carreira docentes. Uma dessas alterações diz respeito precisamente à avaliação dos professores. A referida Associação propõe que seja desenvolvido um modelo de avaliação do desempenho profissional dos professores "orientado para a promoção do rigor e da qualidade educativa em meio escolar". Ora, não será esta a típica expressão demasiado abrangente e pouco concreta, onde pouco se diz e nada se efectiva???
Apesar de elogiar o facto desta Associação não se ficar pela reclamação de melhores salários e manutenção/alargamento de direitos como fazem outros sindicatos, debatendo também os deveres dos docentes, penso que seria importante definirem-se critérios concretos de avaliação do desempenho dos professores.
Deixo apenas alguns exemplos dos pontos em que a dita avaliação deveria incidir: avaliação de materiais desenvolvidos e postos em prática pelos docentes, tendo em conta o meio em que se insere a escola; análise das fichas de trabalho e de avaliação e sua contextualização à realidade local; avaliação das actividades desenvolvidas pelos docentes junto da comunidade escolar (visitas de estudo, debates, exposições, etc); evolução dos resultados atingidos pelos próprios alunos em termos de sucesso escolar; avaliação da relação professor-alunos, etc...
É que não basta falar em avaliação do desempenho individual, sem que sejam definidos critérios concretos de avaliação. E todos sabemos que não é com relatórios escritos do desempenho individual, como tem vindo a ser feito há muitos anos, que se avalia correctamente a capacidade científica e pedagógica dos professores. O sistema de avaliação do desempenho precisa, efectivamente, de uma reforma. Esperemos é que esta sirva para melhorar o sistema educativo nacional...