sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Relato de uma experiência gratificante

No domingo passado comemoraram-se os 58 anos da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A escola onde lecciono foi contactada pelo estabelecimento prisional da cidade para que envidasse os esforços necessários no sentido de promover junto da população prisional uma palestra que focasse a importância do cumprimento dos direitos humanos . Eu, na qualidade de professor de Geografia, e um outro colega que lecciona a disciplina de História, fomos informados pelo Conselho Executivo da nossa escola do pedido feito pela Directora do estabelecimento prisional e, logo de seguida, colocámo-nos à inteira disposição para dinamizar a tal palestra.
Hoje lá fomos à prisão da cidade e a experiência revelou-se bastante interessante. Diante de um público de quase trinta reclusos, a maioria deles já na casa dos cinquenta e tal anos, realizámos uma pequena palestra, através da apresentação de diapositivos em Power Point, sobre a evolução histórica dos direitos humanos e a forma como em muitos países do mundo ainda não são aceites e, muito menos, cumpridos. Muito se falou sobre uma situação que cada vez é mais comum na sociedade actual: só quando nos vemos privados de um direito é que lhe damos valor!!!
A Escola tem de se abrir cada vez mais à comunidade em que está inserida, pelo que é importante que este tipo de actividades se realizem. Neste particular, destaco as que dizem respeito às famílias dos alunos que frequentam a escola. É necessário que as famílias se envolvam na vida escolar dos filhos e uma forma de concretizar tal anseio talvez passe pela realização de palestras especialmente dirigidas aos pais e avós... Urge fomentar uma "escola de pais".

sábado, 9 de dezembro de 2006

Um sistema de ensino que agrava as desigualdades sociais...

Segundo um estudo realizado pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, o sistema de ensino em Portugal discrimina os alunos por escolas, por turmas e por vias de ensino, agravando os processos de desigualdade social. Nada que aqueles que estão mesmo por dentro do sistema educacional português não saibam. Refiro-me sobretudo aos professores que todos os dias têm de lidar com dezenas de alunos diferentes, em turmas díspares, e que facilmente se apercebem de como as desigualdades entre turmas da mesma escola podem condicionar o desempenho e sucesso dos alunos...
Mas, os problemas da Educação em Portugal não se resumem ao agravamento das desigualdades sociais... Muitos daqueles que, em Lisboa, estão nos seus gabinetes ministeriais à frente de um computador a tomar decisões sobre o nosso sistema de ensino não fazem a mínima ideia do que é ser, ao longo de um ano lectivo, professor de 200 ou mais alunos, nem sonham da capacidade que um bom docente tem de ter para, ao longo dos noventa minutos de cada aula (e são várias por dia), conseguir suscitar o interesse de quase trinta jovens com personalidades completamente diferentes umas das outras! Aqueles que são professores por gosto sabem do que falo!!!
Tenho a certeza de que, quando tivermos um(a) Ministro(a) da Educação que tenha passado alguns anos da sua vida a ensinar alguns milhares de alunos do nosso país (serão suficientes uns dez anos de serviço!), certamente que aí, desaparecerão muitos dos vícios em que o nosso sistema de ensino está envolto, a começar pela excessiva descredibilização e relativização do papel de professor!

terça-feira, 28 de novembro de 2006

As vantagens das aulas de substituição...

A verdade é que, enquanto que as actividades de substituição continuam, na generalidade das escolas, a estarem longe de atingir os seus objectivos, pois, muitas vezes, não passam de autênticos tempos de ocupação dos tempos livres dos alunos com TPC`s, trabalho de estudo ou de preparação de testes (que só alguns alunos aproveitam!), já a definição das "verdadeiras" aulas de substituição para os casos dos professores que sabem com antecedência que irão faltar parece-me ter sido uma boa medida implementada pela actual equipa ministerial da Educação.
Ora, hoje fui leccionar a disciplina de SIG (Sistemas de Informação Geográfica) à turma do 12º ano do curso tecnológico de Ordenamento do Território e Ambiente, em substituição de uma colega minha que sabia com antecedência que teria que faltar hoje. Recebi no Conselho Executivo o plano da aula e falei com a colega para ficar elucidado sobre a matéria a leccionar, sendo que os alunos já sabiam que iriam ter uma normal aula de SIG, com a única diferença de que seria outro professor a leccioná-la... Ou seja, todos os intervenientes cumpriram com as suas obrigações: o Conselho Executivo, os professores substituído e substituto e os alunos da turma que trabalharam normalmente durante a aula. Deste modo, o facto da professora da turma ter tido que faltar em nada prejudicou os alunos, pelo que o sistema instituído funcionou em benefício daqueles para quem a Escola se destina...
Assim, o problema reside nas aulas cujos docentes não sabem com antecedência que terão que faltar ou que, sabendo-o não querem ter o trabalho de preparar e deixar o plano da aula aos professores substitutos!!!

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

E agora? O que se seguirá???

Depois do Ministério da Educação ter visto aprovado em Conselho de Ministros o novo Estatuto da Carreira Docente e, partindo do princípio de que este importante documento não incorpora nenhuma inconstitucionalidade, estou com curiosidade em ver qual o rumo que a equipa da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues vai seguir na luta contra o insucesso escolar!
Todos sabemos que sem um sistema de Educação rigoroso, exigente e de sucesso não podemos almejar a que Portugal entre no pelotão da frente dos países da UE. Este Governo deu mostras que querer reformar por completo a área da Educação. No entanto, resolveu "investir" na alteração do mais que caduco e desajustado Estatuto da Carreira Docente, esquecendo-se (pelo menos até agora) que muito mais há a fazer para que a Escola seja, de facto, e aos olhos dos alunos (afinal é para eles que se destina a Escola) um local de trabalho, onde deve imperar a exigência e o esforço, ao mesmo tempo que a falta de empenho e a inércia devem ser punidas. Para que tal seja uma realidade urge tomar algumas medidas, tais como:
1. Alterar o currículo escolar, diminuindo o número de disciplinas por ano de escolaridade, por forma a que nenhuma disciplina tenha menos que dois blocos semanais de aulas;
2. Reformar, por completo, os programas das disciplinas, por forma a que não haja sobreposição dos mesmos conteúdos programáticos em disciplinas diferentes;
3. Modificar as regras de avaliação dos alunos, insistindo no reforço dos exames nacionais, a fim de que não se banalize a simplificação de processos e se puna convenientemente o facilitismo e o laxismo;
4. Responsabilizar, de forma activa e, se necessário coercivamente, os pais e encarregados de educação pela actuação dos seus educandos no seu local de trabalho (a Escola), punindo exemplarmente quem não está na Escola para trabalhar e gratificando (com o reforço das bolsas de estudo e dos abonos de família) aqueles que se esforçam e se empenham.
O que se seguirá, então???

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Retrato de uma semana de trabalho

2ª feira - Entrada ao serviço às 8.30H e saída às 20H. Pelo meio dei aulas ao 11º E, ao 8º C e ao 7º A, tive uma reunião com os alunos do 11º E para preparar a entrevista que eles iriam fazer ao Presidente da Câmara Municipal, corrigi trabalhos dos alunos e tive o Conselho de Turma do 8º C. Pausas apenas nos intervalos, para almoçar, ler os jornais e tomar cafés. Total de horas de trabalho: 10 horas!
3ª feira - Entrada ao serviço às 10.15H e saída às 19.15H. Pelo meio dei aulas ao 7º C e ao 8º D, tive o serviço destinado à dinamização do Jornal da Escola, preparei aulas, fiz a acta da reunião do 8º C e tive o Conselho de Turma do 11º E. Pausas apenas nos intervalos, para almoçar, ler os jornais e tomar cafés. Total de horas de trabalho: 8 horas!
4ª feira - Entrada ao serviço às 10.15H e saída às 20H. Pelo meio dei aulas ao 8º B e ao 11º E, preparei aulas, fiz testes de avaliação e tive o Conselho de Turma do 7º B. Pausas apenas nos intervalos, para almoçar, ler os jornais e tomar cafés. Total de horas de trabalho: 8 horas!
5ª feira - Entrada ao serviço às 8.30H e saída às 20H. Pelo meio dei aulas ao 8º D e ao 11º E, preparei aulas, avaliei fichas de trabalho dos alunos do 8º ano e tive o Conselho de Turma do 8º D. Pausas apenas nos intervalos, para almoçar, ler os jornais e tomar cafés. Total de horas de trabalho: 10 horas!
6ª feira - Entrada ao serviço às 14.15H e saída às 20H. Pelo meio dei aulas ao 7º B e ao 8º C e tive o Conselho Disciplinar relativo a um aluno do 7º C. Pausas apenas para os intervalos, ler os jornais e tomar cafés. Total de horas de trabalho: 5 horas!
Conclusão: feitas as contas passei mais de 48 horas na escola, tendo 41 delas sido de trabalho exclusivamente escolar, acrescentando ainda 10 horas de viagens entre Viseu e Lamego, num total de 700 Km que fiz durante toda a semana!!! Ah, e todas as noites, em casa, ainda passei uma boa meia-hora a preparar as aulas do dia seguinte!!!

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Os primeiros testes...

É tempo de reuniões intercalares. Pelo meio lá se vão corrigindo e entregando os primeiros testes deste ano lectivo. As primeiras impressões vão de encontro ao que esperava. As avaliações obtidas pelos alunos do 8º ano são aquelas onde o número de negativas é mais preocupante, o que se compreende pelo facto da matéria do clima ser, regra geral, difícil de perceber pelos alunos. As notas do 7º ano também não são lá muito famosas, mas a matéria das escalas costuma dar nisso mesmo. Bons mesmo foram os resultados da turma do 11º ano, mas outra coisa não esperava. Por outro lado, a estratégia do blogue deles tem funcionado muito bem...
Seguem as percentagens de negativas obtidas a Geografia:
7ºA - 30%; 7ºB - 31%; 7º C - 36%; 8ºB - 52%; 8ºC - 35%; 8ºD - 56%; 11ºE - 15%
A ver vamos os resultados no segundo teste, mas espero que o "puxão de orelhas" dado às turmas do 3º ciclo sirva para qualquer coisa...

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Com exemplos destes...

Hoje, ao chegar a casa, fui descansar um pouco para o sofá da sala e sintonizei a televisão na SIC-Notícias (um dos melhores canais da televisão portuguesa). Assisti, então, ao debate na Assembleia da República sobre a apresentação do Orçamento de Estado para 2007. Ora, mais uma vez, a discussão parlamentar foi dominada pela galhofa, maldizer, desconversa, ruído, enfim, por uma constante falta de civismo por parte dos políticos que nos representam e se servem do Parlamento para mandarem "bocas" e "indirectas" uns aos outros, fazendo pouco do cargo de imensa responsabilidade que detêm. O que mais me choca é o facto destes parlamentares saberem que são vistos e ouvidos pela opinião pública e comportarem-se da forma como o fazem.
Hoje, pela primeira vez, vi-me obrigado a expulsar um aluno da minha sala de aula e a "enviá-lo" para o GOA (Gabinete de Ocupação de Alunos) da escola. Como diria um amigo meu: "são os sinais deste tempo dominado pelo regabofe". Resta-me dizer que a mãe do aluno disse à Directora de Turma que não sabe como "segurar" o filho!!!

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Ainda os exames nacionais...

Nos ultimos dias, a SIC tem apresentado uma série de reportagens sobre algumas das escolas que mais destacaram (pela positiva ou pela negativa) ao nível dos resultados obtidos pelos seus alunos nos exames do 12º ano. Baseando-se na análise dos resultados dos alunos, alguns deles com a evolução verificada nos últimos seis anos, a SIC confundiu ranking de exames com ranking de escolas... Digo isto porque a realidade que está por trás de cada escola tem sido, em muitas das reportagens emitidas, simplesmente esquecida!
Ainda ontem, a SIC transmitiu no Jornal da Noite uma reportagem onde tentava justificar os excelentes resultados obtidos nos exames nacionais pelos alunos do 12º ano do Colégio São João de Brito. Foram dadas a conhecer as instalações da escola, a forma como as aulas funcionam, a biblioteca e os laboratórios e até se entrevistaram professores, alunos e pais. Todos falaram na forma exemplar como as aulas são leccionadas. Apenas um senão: a SIC "esqueceu-se" de referir que para frequentar o Colégio São João de Brito, os pais têm de dispender mais de 400 euros por mês, sem falar nas actividades extra-curriculares. Pois bem, não acredito que algum jovem das classes baixa ou média-baixa seja aluno deste colégio. Ou seja, nenhum aluno anda naquele colégio contrariado. Todos estão lá para aprender...
O mesmo não se passa no ensino público! Os professores do ensino público sabem muito bem que a maioria dos alunos que originam problemas nas suas aulas, contribuindo em muito para o insucesso escolar, provêm das classes sociais mais baixas. Sabendo nós que sem ovos não se fazem omoletes, não podemos ignorar as desigualdades existentes entre muitas das escolas públicas e privadas deste país em termos de comunidade discente...

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Para que servem os resultados dos exames?

Há quem defenda que os resultados dos exames servem para avaliar apenas os alunos: afinal é esse o seu objectivo fundamental. Há ainda aqueles que fazem realçar as desigualdades entre escolas públicas e privadas, a fim de provar até que ponto é que o facilitismo pode imperar em muitas das escolas privadas do nosso país, enquanto que noutras emerge o factor financeiro como suporte basilar das elevadas médias obtidas. Há ainda quem comungue da ideia de que, mais do que avaliar alunos, este rankings devem servir como suporte de caracterização dos professores e das escolas.
Ora, um dos aspectos que mais me interessa analisar cada vez que são divulgados os resultados dos exames (desde 2001) são as enormes discrepâncias com que algumas escolas e disciplinas se destacam comparando as avaliações internas com as avaliações obtidas nos exames. Como lecciono Geografia e já leccionei IDES tenho curiosidade em ver as avaliações destas duas disciplinas. Este ano encontrei várias escolas onde os alunos levam uma média de 16 valores de nota interna e chegam ao exame e conseguem apenas 8 valores!!! Ora, aqui está uma das situações que no meu entender deve ser alvo de análise profunda por parte da tutela, a fim de perceber as razões de tais disparidades.
De resto, concordo, no geral, com a Ministra: mais do que avaliar escolas, os exames devem servir para avaliar alunos. No entanto, também podem servir para avaliar a prestação e o desempenho de alguns professores...

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

O rescaldo da greve...

Depois de dois dias dominados por uma considerável adesão à greve decretada pela plataforma sindical de professores (apesar de não entrar na guerra dos números!) é tempo de fazer uma curta reflexão sobre os reais proveitos da estratégia levada a cabo pelos sindicatos:
1. Não coloco em causa a decisão de se recorrer à greve para tentar pressionar a tutela a mudar o rumo que escolheu para a criação de um novo Estatuto da Carreira Docente (ECD). Foram dois dias como poderiam ser cinco: os sindicatos apenas convocam a greve e aderem os professores que bem entenderem!!!
2. A adesão à greve parece-me ter sido bastante considerável se tivermos em conta que estamos num tempo de "vacas magras" e que perder um ou dois dias de salário já se nota bem ao fim do mês.
3. A greve permitiu à tutela a poupança de mais de 10 milhões de euros, pelo que o Ministro das Finanças deve estar bem satisfeito com a situação.
4. Tal como previ, a quarta versão (pós-greve) de alteração ao ECD apresentado pelo Governo não traz grandes novidades, nem tão pouco vai ao encontro dos principais anseios dos sindicatos. Bem pelo contrário, a forma ofensiva como a tutela sujeita a não aplicação da lei dos supranumerários aos professores com "horário zero" à condição dos sindicatos se silenciarem apenas prova que a greve apenas serviu para "esticar a corda" entre os intervenientes no processo negocial.
5. A "bola" está agora do lado dos sindicatos, mas parece-me que, com este clima de "cortar à faca" instalado entre o Ministério da Educação e os sindicatos, será a proposta da tutela a vingar, até porque as recentes declarações do Presidente da República indiciam uma crítica à decisão de convocar uma greve em pleno período negocial.
Para não ser acusado de apenas criticar e não avançar com alternativas, apenas direi que a solução para esta situação já vem tarde. Digo isto porque certamente que toda esta situação teria tido uma evolução diferente caso os sindicatos de professores tivessem uma imagem de credibilidade, rigor e exigência junto da opinião pública e da tutela. Ora, com sindicatos que, durante décadas, não se renovaram e deram a imagem de nunca se terem preocupado com os deveres profissionais, mas sim e apenas com os direitos e privilégios de uma classe demasiada afectada pela inércia, os resultados dificilmente poderiam ser diferentes daqueles que temos... E, note-se que sempre afirmei que com estes sindicatos não iríamos muito longe!