quarta-feira, 11 de abril de 2007

À mulher de César não basta ser; é preciso parecer...

A recente polémica (que, diga-se, foi dada à estampa pela primeira vez em 2005 pelo autor do blogue Do Portugal Profundo) sobre a forma como Sócrates se licenciou na Universidade Independente em Engenharia Civil dá que pensar se tivermos em conta que este Governo tem vindo, insistentemente, a apelar ao regresso da população menos instruída aos bancos da escola ou aos chamados Centros de Competências...
A Educação merece ser valorizada, mas a credibilidade de quem a pretende fomentar constitui um pressuposto basilar para não se ser sujeito a más interpretações. Tornar a população com melhores qualificações profissionais à custa da redução do rigor e exigência é trabalhar para as estatísticas e não para a melhoria efectiva das capacidades da população activa portuguesa.
A Escola é para ser levada a sério. As aulas devem ser frequentadas, os exames devem ser exigentes e as amizades e compadrios devem ficar de fora...

sexta-feira, 23 de março de 2007

Claro que compensa aprender. Mas, não à custa do facilitismo!!!

O recente programa "Novas Oportunidades" lançado pelo Governo apresenta-se aos olhos de muitos daqueles a quem se destina (adultos com um reduzido grau de qualificação) como uma excelente oportunidade para melhorar o seu curriculum e qualificações académicas. Mas, a que custo???
O slogan da campanha é "Aprender compensa"... Mas, a mim parece-me que a pedra angular que norteia este programa é mais a possibilidade de, a curto prazo, melhorar de forma significativa as qualificações da mão-de-obra portuguesa nas estatísticas nacionais e internacionais e não a de proporcionar, a todos aqueles que abandonaram precocemente a escola, a possibilidade de voltarem às escolas para efectivamente aprenderem e, assim, melhorarem as suas competências básicas.
Convém termos bem presente que este processo de certificação dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida activa nada tem que ver com o regresso às carteiras da escola. Tudo se processa de forma muito rápida, visto que o candidato apenas tem de preencher uns formulários que lhe atestem a sua experiência laboral. Nada como o que acontecia até aqui, em que muitos adultos voltavam à escola para frequentar o Ensino Recorrente Nocturno e, efectivamente, aprenderem para conseguirem adquirir o certificado do 12º ano de escolaridade.
Esta estratégia do Governo, apoiada em muito do que se faz nos países nórdicos (mas lá possivelmente com maior rigor e exigência), parece-me excessivamente simplista e pouco rigorosa, sendo até injusta para com aqueles que efectivamente frequentam as escolas para alcançarem um igual nível de qualificações, mas à custa de uma maior exigência e esforço.
Conheço o caso de um amigo meu da Covilhã que deixou a escola há uns anos atrás e que tem andado a frequentar uma série de cursos de formação profissional (alguns remunerados) ao mesmo tempo que faz uns part-times em lojas comerciais. Pois bem, agora tem andado numa roda-viva para conseguir que lhe façam uns elogios por escrito em como atende muito bem ao público para, assim, conseguir que no Centro de Competências lhe atestem capacidades equivalentes ao 12º ano de escolaridade e, dessa forma, poder facilmente melhorar o seu curriculum vitae. Será que esta situação, igual a tantas outras, é justa para com aqueles que de forma esforçada tentam terminar o 12ºano na escola, seja no ensino regular, seja no recorrente nocturno. Não me parece...
Melhorar a qualificação dos portugueses à custa do facilitismo e da descida do nível de exigência? Não obrigado!!!

sábado, 10 de março de 2007

Educação Sexual: mais uma "tarefa" para a Escola...

Segundo proposta do grupo de trabalho liderado por Daniel Sampaio, cada escola dos 2º e 3º ciclos deverá incluir no seu Projecto Educativo uma componente direccionada para a Educação para a Saúde, onde os conteúdos relacionados com a sexualidade deverão ser obrigatoriamente tratados uma vez por mês, devendo esta ainda abranger as temáticas da alimentação, da violência escolar e do tabaco, álcool e drogas.
Mas, o que pretendo chamar a atenção com este apontamento não é o desprestígio a que chegou a função docente (cujas notícias recentes relacionadas com a violência escolar bem elucidam). Pretendo, sim, dar a minha opinião sobre o alcance da proposta apresentada por Daniel Sampaio. Convém, desde já, esclarecer os mais distraídos que nas disciplinas de Ciências Naturais, Geografia e Biologia já são tratadas questões relacionadas com a reprodução e a prevenção sexuais e que também em Formação Cívica e Área de Projecto se podem realizar trabalhos inerentes ao tema da Sexualidade. Depois, não acredito que seja a falta de informação prestada aos jovens a justificar as elevadas percentagens de gravidezes ocorridas na adolescência em Portugal.
E que tal abordarmos o problema pelo lado dos pais? É que não serão poucos os pais a precisarem de aconselhamento sobre como lidar com os seus filhos. Informação já existe e não é pouca. O problema está, muitas vezes, em casa e na incapacidade que muitos pais sentem em conseguirem educar, de forma conveniente, os seus filhos.

sexta-feira, 2 de março de 2007

O aborto numa aula de Geografia (continuação)

No seguimento do meu último artigo, tenho a dizer que, depois de leccionada parte da matéria da Demografia, os debates realizados nas minhas aulas com as turmas do 8º ano sobre os métodos contraceptivos, o planeamento familiar, a educação para a sexualidade e o aborto têm sido bastante proveitosos. No debate de hoje, os alunos envolveram-se com maior interesse na resposta à questão "Consideras a prática do aborto como mais um método contraceptivo colocado à disposição das mulheres"?
Fiquei satisfeito com a participação dos alunos, sobretudo no que toca a entenderem a importância de se utilizarem devidamente os métodos contraceptivos. Ao mesmo tempo, a turma foi da opinião de que o aborto não deve ser visto como mais um método de prevenção da gravidez, tendo muitos deles condenado a possibilidade de se efectuar a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas, sem que para isso haja justificações de força maior.
Deixo aqui apenas duas das respostas escritas pelo punho de um aluno e de uma aluna da turma, respeitando, obviamente, o seu anonimato.
Pena é que haja o perigo de que muitos adolescentes, por não serem bem informados, nem esclarecidos, possam vir a pensar que, com o aborto livre até às 10 semanas de gravidez, a prevenção poderá ser facilmente "descartada". E, esse risco existe! Só quem não lida com adolescentes pode dizer o contrário...

sábado, 24 de fevereiro de 2007

O aborto numa aula de Geografia

Já quase no final da aula, depois de terem sido analisados vários mapas sobre a distribuição da taxa de natalidade no mundo, o diálogo professor-alunos "aquece"...
Professor: "Então, quem me quer dizer quais serão os factores que explicam as reduzidas taxas de natalidade verificadas em muitos dos países europeus"?
Muitos alunos vão referindo a utilização dos métodos contraceptivos, o planeamento familiar, as despesas tidas com os filhos e os casamentos tardios até que intervém o José Fernando.
Inês (13 anos): "Eu acho que a principal causa é a utilização dos métodos contraceptivos."
Professor: "José Fernando, consideras mesmo que a prática do aborto é responsável pelo reduzido número de nascimentos verificados em muitos dos países europeus"?
Professor: "Então consideras que a prática do aborto constitui um método contraceptivo"?
José Fernando: "Acho que sim".
Professor: "E concordas que assim seja?"
José Fernando: "Não sei. Para quem concorde com o aborto será."
Muitos dos alunos ficam a cochichar entre si, admirando-se de, na próxima aula, irmos aprofundar o tema do aborto...

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Avaliar? Para quê?

A Ministra da Educação foi ao Parlamento defender o fim das provas globais, argumentando que as mesmas eram "dispensáveis" e "irrelevantes" do ponto de vista da avaliação dos alunos. Inteiramente de acordo! De facto, tanto professores, como alunos não davam às provas globais a importância que estas deveriam ter. Porquê? Muito simples: porque o peso de apenas 25% que as mesmas tinham na avaliação final a isso obrigava...
Ora, diagnosticado o problema, a equipa ministerial fez bem em tentar encontrar uma solução. Só não compreendo que a solução tenha sido a simples "destruição" do problema. Em vez de reforçar o peso das provas globais para uma percentagem nunca inferior a 50%, por forma a dar-lhes alguma dignidade e conceder-lhes um papel decisivo no sentido de avaliar as competências essenciais a adquirir pelos alunos no final da escolaridade obrigatório, a Ministra optou pelo caminho mais fácil. Acabou com as provas globais e abriu ainda mais o caminho do facilitismo... Já não bastava termos uma situação que quase impede que se "reprovem" alunos que não estejam em final de ciclo? O problema é que os alunos se vão apercebendo desta "onda" de facilitismos, sendo já hoje possível constatar muitas situações de alunos do 3º ciclo do ensino básico que afirmam não se preocuparem em ter muitas negativas, porque pensam que, pelo simples facto de estarem em risco de dupla retenção, julgam ter o "direito" de transitar de ano... É a lógica do facilitismo a funcionar!!!
Apenas mais um apontamento. O antigo Ministro da Educação, David Justino, afirmou, uma vez mais em público, que não faz sentido continuar-se a insistir na centralização dos programas pedagógicos e conteúdos curriculares, devendo-se conferindo às escolas a devida autonomia nesta área. Já defendi muitas vezes esta ideia aqui no blogue: a Escola deve ter uma maior ligação ao território envolvente, pelo que, mais do que ensinar apenas conceitos teóricos e generalistas, deve haver a preocupação de contextualizar cada uma das realidades escolares...

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Instabilidade e desmotivação nas escolas

Com a publicação em Diário da República do novo Estatuto da Carreira Docente (ECD) seria de esperar que o ambiente nas escolas públicas portuguesas melhorasse ou, pelo menos, deixasse de estar tão avesso a questões laborais e se aplicasse mais aos problemas educativos.
Pois bem, durante esta semana apercebi-me que as dúvidas sobre o ECD continuam a dominar as conversas da maioria dos professores, com o desânimo e a desmotivação a serem os pontos fortes do dia-a-dia nas escolas portuguesas. A grande maioria dos professores encontra-se desapontada com o que o novo ECD lhes reserva e, infelizmente, parece-me que este estado de espírito tem consequências ao nível do processo de ensino-aprendizagem que deveria estar imune a estas questões. Falo de muitos dos professores com mais anos de serviço, aqueles que desesperam por passar à aposentação e que, simplesmente, parecem estar-se nas tintas para os alunos. Claro que há excepções, mas nas conversas tidas aqui e ali, na escola e fora dela, tenho assistido a conversas de colegas meus que demonstram o quão falta de profissionalismo grassa (ainda) na nossa profissão. Então no primeiro ciclo sei de casos de bradar aos céus!!! Simplesmente inacreditáveis!!! Curiosamente, muitos daqueles que são os mais afectados pelas novas regras do ECD, os professores mais novos e em início de carreira, até que parecem como que conformados com o que lhes está destinado no novo ECD. Penalizados na progressão na carreira, nos vencimentos e noutras questões, há também os que se dizem fartos da profissão docente e afirmam querer mudar de emprego.
Enfim, nada de bom auguro nos próximos tempos para o Sistema de Educação em Portugal. E, mais do que os professores, os mais afectados serão os alunos, ou seja, os futuros homens e mulheres do nosso país.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

A Educação não passa só pela Escola...

Cada vez que se discute um problema de carácter social, a Escola é, repetidamente, chamada a intervir no sentido de incutir na população mais jovem os valores e princípios mais adequados mediante os quais uma sociedade se deve reger. Seja ao nível do combate ao tabagismo, ao alcoolismo, à toxicodependência ou a outro flagelo da sociedade, seja na promoção de gestos e comportamentos válidos, é a Escola e, consequentemente, aos professores que se vem exigir a assumpção do papel de bons educadores.
O problema é que, por muitos discursos que os nossos governantes possam fazer no sentido de valorizar o papel do professor como nivelador e orientador da sociedade (convém lembrar que discursar não chega!!!), a verdade é que quando surgem episódios como o ocorrido com o jogador benfiquista Luisão, todo um trabalho de promoção de valores de cidadania deixa de ter a consistência devida.
Na sexta-feira passada, na minha última aula do dia, já os alunos falavam do que tinha acontecido com Luisão. Riam-se e achavam piada à situação, como que valorizando a atitude do jogador. Não os ouvi condenar a atitude dos magistrados e, nem chamados à atenção, foram capazes de criticar o jogador.
Uma coisa é certa: por mais leis que se "fabriquem" no Parlamento para elevar o nível de educação dos nossos jovens, são estes maus exemplos que levam tudo a perder...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Juventude inquieta? E que mais?

São 22.45H. de segunda-feira e estou sentado no sofá da sala a ver o Programa da RTP "Prós e Contras". Aborda-se o tema da juventude e as transformações que nos últimos anos têm afectado esta faixa da população, ao nível, por exemplo, da crescente dependência dos jovens face aos pais, da sua falta de autonomia e excessiva irreverência, da dificuldade em encontrar emprego, entre outras questões.
Para onde caminhamos, afinal? Se os jovens de hoje são inquietos, o que dizer dos adolescentes? No mínimo irrequietos... A ainda curta experiência de professor que tenho (de apenas nove anos) é suficiente para chegar à conclusão que uma Escola digna, rigorosa, firme e respeitada por todos constitui um factor fundamental para termos uma juventude que vá para além da banal irreverência. Por outro lado, há que não esquecer que a actual geração de pais que têm entre 35 e 45 anos apresenta, grosso modo, sérios problemas de falta de autoridade sobre os filhos. Lembremo-nos que estes pais foram os primeiros jovens a seguir ao 25 de Abril de 1974 e não sabem o que era viver em ditadura...
Enfim, muito há por fazer para que, daqui a uns anos não venhamos a ter vergonha da juventude que andamos a "produzir". Pais ausentes e uma Escola facilitista do estilo "depósito de miúdos" são duas realidades que devem ser, urgentemente, alteradas. Doutra forma iremos passar pelo que os ingleses estão agora a viver. Veja-se a reportagem emitida pela SIC-Notícias "Caos nas salas de aula" para se perceber do que falo...

sábado, 23 de dezembro de 2006

Por um 2007 mais educativo...

Prestes a despedimo-nos do ano 2006, há que ser optimista e esperar que o próximo ano seja efectivamente dado a concretizações positivas na área da Educação. Depois de um 2006 deveras conturbado e que originou um descrédito ainda maior na imagem dos professores, com consequências gravosas ao nível da relação professores-alunos e até professores-pais, espero que o novo ano seja aquele em que a Educação possa vir a ser a prioridade das prioridades, tanto em termos de política da tutela, como ao nível das preocupações da sociedade civil.
A Educação está a viver momentos conturbados, com mudanças, cujos resultados ainda estão por apurar. Uma coisa é certa: a redução da exigência e do rigor poderão dar bons resultados a curto prazo ao nível estatístico, mas serão um poço de problemas a médio e longo prazo.
É tempo de retemperar forças para mais um período de aulas que aí vem. Há que organizar mais três meses de trabalho e preparar aulas para que o sucesso escolar possa ser uma realidade. Por agora, os resultados obtidos pelas seis das sete turmas às quais lecciono Geografia foram uma desgraça e o que vale é que as notas à disciplina de Geografia até foram das melhores. Praticamente, metade dos alunos teve 3 ou mais níveis inferiores a três. A turma do 11º ano portou-se, como esperava, bastante bem, com uma média de 13 valores a Geografia.
Que 2007 seja o ano da viragem na área da Educação. É que termos uma situação pior do que a que actualmente se vive na área da Educação é praticamente impossível...
Umas boas festas a todos os que frequentam este blogue!!!