quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Trabalhos feitos pelos alunos e a reprodução das desigualdades sociais

No início deste 2º período de aulas, desafiei os alunos das minhas três turmas do 9º ano de escolaridade a desenvolverem um trabalho de pesquisa sobre um país em vias de desenvolvimento à sua escolha. Deveriam investigar as causas do fraco desenvolvimento humanoesse país, bem como dar a conhecer a evolução dos seus principais indicadores socio-económicos. No final, seria feita a apresentação à turma do resultado da informação pesquisada. Assim, combinaram-se as datas para que os alunos, em grupos de dois ou três, fizessem as respectivas apresentações aos seus colegas. Claro que prestei todos os esclarecimentos sobre a forma de desenvolverem o trabalho, bem como as regras de elaboração dos trabalhos em Power-point. Tiveram cerca de um mês para executarem o trabalho...
A semana passada foi dedicada à apresentação dos trabalhos e houve de tudo, desde trabalhos miseráveis a trabalhos extraordinários. Outros houve que nem sequer se deram ao trabalho de fazerem qualquer coisinha.
A apresentação dos trabalhos pelos alunos permitiu-me concluir que a falta de pré-requisitos e do chamado "background" familiar por parte de muitos alunos constitui um factor decisivo de diferenciação entre os discentes. Aqueles que têm bons conhecimentos de informática, adquiridos noutros anos de escolaridade, e que têm a sorte de terem uns pais preocupados com a vida escolar dos seus filhos, conseguem realizar trabalhos de investigação muito mais interessantes do que aqueles que, apesar de até serem esforçados, pouco percebem do Word, do Power point ou de qualquer outro recurso informático.
Veja-se aqui, nesta reportagem da SIC, como no Reino Unido a situação, neste particular, está a milhas de distância. Por aqui chegamos a ter professores (e não serão poucos) que sabem muito menos destes novos recursos pedagógicos do que a generalidade dos seus alunos.
Deixo-vos com dois trabalhos elaborados por um grupo de alunos da cidade, que têm computador em casa com acesso à internet e cujos pais têm um razoável índice cultural. Claro que nem me vou dar ao trabalho de apresentar aqui trabalhos negativos, diria que até mesmo miseráveis, que mais parecem feitos na estratégia do "copy-paste"!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

You Tube: um recurso educativo de excelência...

Nas minhas últimas aulas leccionadas às tumas do 8º ano de escolaridade, os vídeos disponibilizados pelo You Tube têm sido de uma enorme utilidade. Encontro-me a dar matéria relacionada com o efeito de estufa e muitas das catástrofes naturais daí decorrentes, pelo que os vídeos do You Tube têm ajudado os alunos a melhor compreenderem, tanto as causas, como as consequências de desastres naturais tão diversos, tais como inundações, cheias, desabamentos de terras, avalanchas, secas, vagas de frio, etc.
Os livros bem podem trazer a teoria, mas não há dúvida que se queremos ir um pouco mais além numa melhor explicação dos conteúdos leccionados em Geografia, a Internet, assim como os jornais, podem ser bastante úteis, tanto para o professor, como para os alunos.
Claro que pesquisar e organizar a informação dá trabalho, mas no final todos ficam a ganhar... Pelo menos os alunos ficam. Espero bem que também o professor possa vir a ser valorizado, tanto por pais, como pelos titulares que farão a nossa avaliação de desempenho. Quanto aos alunos, esses, claro que agradecem e reconhecem o trabalho efectuado!

domingo, 27 de janeiro de 2008

Avaliação dos professores: uma necessidade que merece justiça e imparcialidade

O Ministério da Educação tem vindo sucessivamente a afirmar que a avaliação dos docentes constitui condição essencial para que o sistema educacional português possa caminhar no sentido da sua credibilização. Estou completamente de acordo...
O que tinhamos até há bem pouco tempo era um sistema de avaliação de professores que de rigor e exigência não tinha nada. Mais parecia um processo de auto-avaliação não sujeito a qualquer tipo de ponderação e que, por isso, permitia que dois docentes completamente díspares em termos de trabalho efectivamente prestado tivessem a mesma avaliação. Não conheço ninguém que naquela forma de avaliar tivesse tido uma avaliação abaixo de Satisfaz.
E, o que temos agora? De um sistema automatizado como o que tinhamos e, por isso, injusto, passámos para um sistema excessivamente burocratizante e envolto em complexidades enormes, em que a arbritariedade poderá ser uma realidade a partir do momento em que existem quotas e, por isso, de interesses instalados em cada uma das escolas e departamentos curriculares.
Por isso, considero que seria importante simplificar as fichas de avaliação (temos 14 items de auto-avaliação sujeitos a resposta aberta, 16 items de avaliação a preencher pelo coordenador do departamento e mais 14 items de avaliação a preencher pelo director da escola) e abolir as quotas em vigor, sob pena de se arrastarem injustiças e pedidos de reapreciação e anulação das avaliação dos docentes, algo parecido com o que aconteceu com a subida à condição de professor titular. Ora, como o tempo não estica e a motivação origina bons desempenhos, não tenhamos dúvida que muitos docentes estariam mais preocupados na sua auto-avaliação do que na avaliação dos alunos. E, o processo de ensino-aprendizagem não pode ser prejudicado apenas pelo facto fos docentes estarem inundados em papelada para preencher (já chegam os papéis relacionados com os planos de recuperação e outros que tais).
Mais uma vez alguém mente: os sindicatos afirmam não terem sido chamados a intervir na elaboração das fichas de avaliação dos docentes, enquanto que o Ministério da Educação afirma o contrário. Seguem-se ameaças da Fenprof de recorrer aos tribunais. Enfim, parece-me que tempos melhores na Educação ainda estão por chegar...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Para onde vai o nosso ensino???

O Presidente da República começou o ano, questionando os nossos governantes sobre o caminho que está a seguir o estado da saúde em Portugal... Foi prespicaz e pertinente na questão formulada. Pena é que, mais uma vez, tenha optado pelo silêncio no que toca às mudanças que se perspectivam para a área da Educação do nosso país. Tendo-se referido ao aumento do número de alunos a frequentar a escola e à diminuição do insucesso escolar, não foi ao fundo da questão, omitindo as verdadeiras razões para tais factos. E, a tendência será sempre para melhorar nas estatísticas, dado que, com a lógica do insucesso escolar a impedir uma boa avaliação do desempenho dos professores, estou para ver até que ponto é que um professor se vai a arriscar a dar mais do 20% de níveis negativos...
No campo da Educação, este ano 2008 começa envolto em circunstâncias que indiciam uma vida ainda mais difícil para todos aqueles que se dedicam a esta nobre tarefa de educar e instruir. As mexidas previstas para as direcções das escolas deixam antever o regresso à velha lógica do Estado Novo, em que o poder era detido pelo "reitor". Ao passar-se da lógica colegial para a lógica individualista não estaremos a enveredar pelo caminho de uma menor democraticidade nas nossas escolas?
E o que dizer de toda a carga burocrática que espera os professores aquando da sua avaliação? Isto já para não falar da injustiça de termos a imposição de cotas, que, certamente, irão impedir que muitos dos docentes mais novos (e, por isso, os menos bem pagos e, muitas vezes, os que apanham com mais tumras) possam progredir na carreira...
De Cavaco Silva não se pode esperar nada (depois de ter concordado com um estatuto tão injusto)! Do Governo, com mais ou menos acção dos sindicatos, muito menos! Mesmo assim, acredito que a solução para esta desgraça toda apenas será uma: quando, no nosso país, a Educação bater bem lá no fundo, como aconteceu no Reino Unido há uns anos atrás (por lá até chegaram a ter falta de docentes, tal era o descrédito da função docente) aí, sim, assistiremos a verdadeiras reformas em prol da dignidade da profissão docente!!!

sábado, 15 de dezembro de 2007

Avaliações, reflexões e Natal...

Depois de quase três meses de aulas é tempo de avaliações. Mais uma vez, é no 8º ano de escolaridade que o sucesso escolar à disciplina de Geografia menos se evidencia. A dificuldade sentida por muitos alunos para apreenderem correctamente (de forma rigorosa e não facilitista) os conteúdos relacionados com o clima constitui a razão para tal circunstância. Apesar da diversidade de estratégias utilizadas a taxa de níveis inferiores a três neste ano de escolaridade ronda os 40%. Estou crente que no próximo período de aulas a situação irá melhorar... Já nas turmas do 7º e 9º anos, as negativas propostas à minha disciplina ficaram-se pelos 15%. Nada mau...
É também tempo para reflectir sobre o que poderia ter decorrido melhor nestes três primeiros meses de aulas e as estratégias que deverão ser seguidas para que o sucesso escolar, a determinação e o rigor exigidos a todos os intervenientes educativos (professores, alunos e pais) possam ser alcançados. As últimas novidades sobre o estatuto do alunos não ajudam nada a que tal anseio seja atingido. Entretanto, continuo à espera que os currículos escolares no ensino básico sejam efectivamente revistos, a fim de acabar com as redundâncias e trapalhadas que afectam este nível de ensino...
Entretanto, há que viver esta época festiva, não esquecendo que o Natal é a festa das crianças... Um Feliz Natal para todos!!!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

De mãe para professora

Chegou-me via email uma cópia da correspondência tida entre uma Professora de Ciências Naturais e uma Encarregada de Educação. A docente informava a mãe da aluna que esta não havia realizado os TPC`s pela terceira vez consecutiva. A Encarregada de Educação responde-lhe, de seguida, afirmando que a legislação não obriga os alunos a realizarem trabalhos em casa, além de que os pais têm mais que fazer do que saber se os educandos levam TPC`s para fazer ou não. Outra particularidade: a professora é tratada por "Senhora de Ciências"...
1. Com disciplinas com cargas horárias tão reduzidas (um bloco de aulas por semana), como são os casos de Geografia ou História no 7º ano, o envio de TPC`s poderá constituir um importante suporte de estudo e revisão da matéria leccionada a aproveitar pelos alunos;
2. Há pais que demonstram um desprezo pela vida escolar dos filhos e pela função docente que não me escandalizaria nada que fosse criada legislação que punisse estes pais (por exemplo, perdendo o direito a parte do abono de família);
3. Raramente envio TPC`s aos meus alunos, até porque a sua eficácia é reduzida (nunca ficamos a saber se foi o aluno que os fez ou se copiou), mas não há dúvidas que, mesmo sem TPC´s, ficamos sempre a saber quais os alunos interessados pela matéria dada nas aulas: basta no início de cada aula fazer umas questões sobre a matéria leccionada...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Obrigados a deixar passar??? Era o que faltava...

A edição de hoje do Correio da Manhã traz como título "Pressão para não chumbar", dando a conhecer que nalgumas escolas deste país, os professores dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico estão a ser pressionados pelos conselhos executivos, no sentido de evitarem ao máximo as negativas (notas inferiores a três), já no primeiro período lectivo. A ser verdade, é urgente que a Inspecção Geral da Educação e, porventura, a Procuradoria Geral da República tome conta deste assunto...
Em dez anos de serviço docente nunca fui pressionado por qualquer conselho executivo para atribuir uma determinada nota. Muito pelo contrário! Quanto tive encarregados de educação a duvidarem da avaliação atribuída por mim aos seus educandos, com a instauração de pedidos de revisão de nota, nunca deixei de ter a confiança dos órgãos executivo e pedagógico da escola.
Compreendo que possam existir mecanismos que alertem os professores para diversificarem as suas estratégias de ensino, a fim de que as aprendizagens dos seus alunos possam ser melhoradas. Para tal temos as aulas de recuperação, as tutorias, os clubes, etc. Agora, pressão para que as positivas aumentem com o intuito de "agradar" aos inspectores é que nem pensar!!!
A propósito, visto que qualquer professor tem uma enorme satisfação quando os seus alunos fazem por merecer boas avaliações, decidi-me por criar um novo blogue destinado aos meus alunos. Pode ser que alguns deles o aproveitem da melhor forma e melhorem as suas notas. Com esforço e não por via do facilitismo ou da pressão sobre os professores...

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A lógica dos CEF`s e as verdades que a opinião pública desconhece...

A carta aberta que o professor de Ciências Físico-Químicas Domingos Cardoso endereçou a Cavaco Silva a propósito da "tortura" por que passa cada vez que tem aulas com uma turma do CEF (Curso de Educação e Formação) pode não representar a totalidade do universo dos alunos que se encontram matriculados neste tipo de cursos (que, convenhamos, de educativos têm muito pouco!), mas não deverá estar muito longe da realidade de muitas escolas deste país. É que há ainda quem não saiba (porventura até o próprio Presidente da República) que muitos destes cursos apenas existem para evitar que muitos alunos multipliquem o seu rol de retenções e/ou abandonem a escola. Esta foi, em grande medida, a forma arranjada para tornear a desgraça das estatísticas da Educação no 3º ciclo...
Nunca leccionei a turmas do CEF, mas ouvindo os meus colegas lá da escola que têm turmas do CEF, parece que com a maioria destes alunos não se consegue trabalhar, apenas ocupar tempo. Como diz um colega meu, "é o mesmo que tentar fazer omoletes sem ovos!!!"
Muito haveria para dizer sobre os cursos CEF. Mas, bastará uma leitura atenta da carta aberta de Domingos Cardoso para saber um pouco sobre a forma como (não) funcionam muitas das turmas CEF deste país!!! Boa leitura (caso isso seja possível)...

sábado, 3 de novembro de 2007

Os rankings das escolas têm de ter consequências

Mais uma vez e pelo sétimo ano consecutivo, o Ministério da Educação deu a conhecer os resultados obtidos pelos alunos nos exames do ensino secundário. E, mais uma vez, apenas um jornal se deu ao trabalho de avaliar de forma séria e rigorosa as diferentes realidades escolares que povoam um pouco por todo o país.
Com um dossier especial de 64 páginas, de acesso livre na Internet, o jornal Público dá conta dos resultados obtidos por cada escola nas principais disciplinas. E, se mais uma vez, fica patente que não faz sentido algum comparar as médias alcançadas pelas "melhores" escolas privadas deste país, que escolhem e fazem a seriação dos seus alunos, com a maioria das nossas escolas públicas, abertas a todo o universo educativo das suas áreas geográficas, convém não deixar de fazer uma avaliação séria e ponderada dos resultados obtidos pelos estabelecimentos de ensino público a nivel distrital e a nível disciplinar.
Dou apenas um exemplo. A Escola Sec./3 de Latino Coelho, em Lamego, onde no passado ano lectivo "levei" 20 alunos ao exame nacional de Geografia (num total de 30 alunos) obteve nesta disciplina uma média de 12,2 valores, ocupando o 98º lugar a nível nacional (num total de 519 escolas) e o 5º lugar à escala distrital (entre 27 escolas). Bons resultados, portanto, se tivermos em conta que, no conjunto das oito disciplinas, a escola se ficou pelo 318º lugar a nível nacional.
Claro está que há duas variantes que influenciam de forma decisiva as notas obtidas nos exames: por um lado, a qualidade da matéria-prima, ou seja, as capacidades demonstradas pelos alunos, e por outro, o desempenho docente e a capacidade dos professores para motivarem os seus discentes. Deste modo, penso que as escolas têm um papel importante a desempenhar no sentido de distribuírem da melhor forma o seu corpo docente pelos diferentes níveis de ensino. Ou seja, talvez não seja assim tão indiferente as decisões que os Conselhos Executivos tomam na hora de escolherem os professores que nas suas escolas irão leccionar âs turmas do ensino secundário. É bom que também as escolas reflictam seriamente sobre os resultados dos exames!!!

domingo, 28 de outubro de 2007

Andam a brincar com a Educação...

A mais recente novidade governamental em matéria educativa é de bradar aos céus. Falo do novo Estatuto do Aluno do ensino básico e secundário que, de uma vez por todas, atira às urtigas qualquer pingo de respeito que ainda poderia existir pela instituição escolar.
Com a pressa de mostrar serviço em Bruxelas em matéria de sucesso escolar e depois do coelho saído da cartola das Novas Oportunidades, é chegada a hora de impedir a reprovação da rapaziada que falta às aulas para ir curtir para outras bandas. Faça-se um exame de recuperação aos preguiçosos, que é como quem diz, faça-se uma prova bem levezinha, pois a dita prova é de recuperação e se não o for a culpa é de quem a elaborou: o professor, quem havia de ser?
Estou para ver como se vai comportar Cavaco Silva!!! Se promulgar tal aberração, está mais que visto que o objectivo é agradar a Bruxelas, colocando Portugal em bicos de pés, mesmo que a nossa juventude não saiba a tabuada do seis ou não saiba distinguir a China do Japão...
Entretanto, a profissão docente passará a ser cada vez mais parecida com a profissão de tratador de animais, sobretudo daqueles cujos pais ignoram por completo a vida escolar dos seus filhos. E este tipo de pais "deseducadores" são cada vez em maior número...
Este Ministério da Educação anda a brincar com coisas sérias. Só pode...