quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

É preciso ter descaramento!!!

José Sócrates decidiu agora começar com a estratégia de elogiar a classe docente, com vista à minimização dos estragos que a manifestação do próximo dia 8 de Março lhe poderá causar em termos de imagem pública.
Sejamos claros e directos:
1. O aumento do número de alunos nos ensinos básico e secundário deve-se a uma política que visa "depositar" nos CEF`s e nos cursos profissionais os miúdos com duplas e triplas retenções, abrindo caminho a uma quase passagem administrativa, visto que a não conclusão destes cursos pelos alunos é praticamente impossível, dado o tão baixo nível de exigência requerido.
2. A melhoria do sucesso escolar dos últimos dois anos deve-se, em grande medida, aos resultados obtidos pelos alunos dos cursos profissionais e tecnológicos, onde o nível de exigência é o que se sabe... Quem é professor sabe do que falo!
Resumindo, o tão propalado sucesso dos últimos dois anos nada tem que ver com os professores, mas tão só com uma estratégia de claro facilitismo emanada de Lisboa. A ideia dos CEF`s e dos cursos profissionais é, como a das Novas Oportunidades, boa e positiva, mas, como disse Manuel Maria Carrilho, tornou-se numa farsa, visto que se embarcou pelo caminho do facilitismo e não pela lógica do ensino prático aliado a níveis elevados de exigência e rigor... Como dizia uma professora no "Prós e Contras" da RTP: "como se podem reprovar os meninos dos CEF`s se o programa de muitas das suas disciplinas é completamente inverso ao das suas necessidades? No final, somos obrigados a passá-los!"...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Notas sobre o debate com a Ministra da Educação no "Prós e Contras" da RTP

Depois de três longas horas de debate sobre as propostas do Governo para a avaliação de desempenho dos professores e para a gestão das escolas, sobressaem três ideias principais:
1. A Ministra da Educação entrou no debate com a intenção de se explicar, mas acabou a desconversar, ignorando as questões que directamente lhe eram colocadas e refugiando-se na velha e gasta estratégia de Sócrates: a fuga para a frente, ao repetir que o inglês no 1º ciclo está alargado a todo o país, que a escola a tempo inteiro é uma realidade e que a acção social escolar está reforçada. Quando se viu confrontada com argumentos sérios e directos que colocam muitas dúvidas sobre a aplicação das duas propostas governamentais em discussão, Maria de Lurdes Rodrigues desconversou e provou desconhecer muito sobre a realidade da Escola Pública portuguesa;
2. A classe docente está desmotivada, arrasada e descrente no caminho que a Educação no nosso país está a tomar. Os professores mais velhos anseiam pela reforma, enquanto que os mais novos desesperam com os principais problemas da escola: a burocracia crescente e o facilitismo extremo na avaliação dos alunos.
3. Nada melhor que professores no terreno e que efectivamente leccionam para darem a conhecer a realidade da nossa Educação: CEF´s e cursos profissionais que tentam camuflar (e não inverter) o insucesso escolar; divisão de uma classe profissional em duas categorias, que origina um mal-estar crescente na nossa profissão; aulas de substituição que na prática são uma mera ocupação do tempo livre dos alunos; pressão exercida sobre os docentes para não reterem alunos no 1º, 2º e 3º ciclos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O ensino do portfólio...

No regresso a casa depois de ter estado na escola desde as 10H. até às 19H. (com três aulas e mais uma reunião intercalar) aproveitei para ouvir a excelente reportagem da TSF a propósito do programa Novas Oportunidades. Já tinha ouvido falar de alguns casos vergonhosos acerca deste programa, no mínimo, facilitista e "amigo" do sucesso estatístico, mas esta reportagem da TSF revela situações de bradar aos céus.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Conversas na sala de professores

Esta tem sido uma semana dedicada às reuniões intercalares na minha escola. Por isso, tenho passado muito do meu tempo a trabalhar na sala de professores, à espera que chegue a hora das reuniões. Além de preparar aulas, de fazer e corrigir testes de avaliação e de consultar a blogosfera, não tenho tido a capacidade de me "imunizar" em relação às conversas dos meus colegas. Duas conclusões sintéticas acerca do teor dessas conversas:
1. Muitos dos professores com trinta e mais anos de serviço passam quase todo o tempo a falar da sua reforma. Anseiam pelo dia da aposentação e consultam legislação atrás de legislação para saberem em quanto ficará a sua reforma. A muitos deles não os oiço dizer uma única palavra sobre o processo de ensino-aprendizagem dos alunos...
2. A maioria dos professores mais novos, muitos deles contratados, deslocados e "pau para toda a obra" desesperam ao constatarem que, com a legislação que aí temos à porta e os vícios porque pecam as nossas escolas, terão a vida muito mais dificultada para subirem na carreira, independentemente do trabalho que demonstram no dia-a-dia. Apesar de tudo, são dos que mais se preocupam com os alunos...
Enfim, assim vão as conversas na sala dos professores!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Trabalhos feitos pelos alunos e a reprodução das desigualdades sociais

No início deste 2º período de aulas, desafiei os alunos das minhas três turmas do 9º ano de escolaridade a desenvolverem um trabalho de pesquisa sobre um país em vias de desenvolvimento à sua escolha. Deveriam investigar as causas do fraco desenvolvimento humanoesse país, bem como dar a conhecer a evolução dos seus principais indicadores socio-económicos. No final, seria feita a apresentação à turma do resultado da informação pesquisada. Assim, combinaram-se as datas para que os alunos, em grupos de dois ou três, fizessem as respectivas apresentações aos seus colegas. Claro que prestei todos os esclarecimentos sobre a forma de desenvolverem o trabalho, bem como as regras de elaboração dos trabalhos em Power-point. Tiveram cerca de um mês para executarem o trabalho...
A semana passada foi dedicada à apresentação dos trabalhos e houve de tudo, desde trabalhos miseráveis a trabalhos extraordinários. Outros houve que nem sequer se deram ao trabalho de fazerem qualquer coisinha.
A apresentação dos trabalhos pelos alunos permitiu-me concluir que a falta de pré-requisitos e do chamado "background" familiar por parte de muitos alunos constitui um factor decisivo de diferenciação entre os discentes. Aqueles que têm bons conhecimentos de informática, adquiridos noutros anos de escolaridade, e que têm a sorte de terem uns pais preocupados com a vida escolar dos seus filhos, conseguem realizar trabalhos de investigação muito mais interessantes do que aqueles que, apesar de até serem esforçados, pouco percebem do Word, do Power point ou de qualquer outro recurso informático.
Veja-se aqui, nesta reportagem da SIC, como no Reino Unido a situação, neste particular, está a milhas de distância. Por aqui chegamos a ter professores (e não serão poucos) que sabem muito menos destes novos recursos pedagógicos do que a generalidade dos seus alunos.
Deixo-vos com dois trabalhos elaborados por um grupo de alunos da cidade, que têm computador em casa com acesso à internet e cujos pais têm um razoável índice cultural. Claro que nem me vou dar ao trabalho de apresentar aqui trabalhos negativos, diria que até mesmo miseráveis, que mais parecem feitos na estratégia do "copy-paste"!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

You Tube: um recurso educativo de excelência...

Nas minhas últimas aulas leccionadas às tumas do 8º ano de escolaridade, os vídeos disponibilizados pelo You Tube têm sido de uma enorme utilidade. Encontro-me a dar matéria relacionada com o efeito de estufa e muitas das catástrofes naturais daí decorrentes, pelo que os vídeos do You Tube têm ajudado os alunos a melhor compreenderem, tanto as causas, como as consequências de desastres naturais tão diversos, tais como inundações, cheias, desabamentos de terras, avalanchas, secas, vagas de frio, etc.
Os livros bem podem trazer a teoria, mas não há dúvida que se queremos ir um pouco mais além numa melhor explicação dos conteúdos leccionados em Geografia, a Internet, assim como os jornais, podem ser bastante úteis, tanto para o professor, como para os alunos.
Claro que pesquisar e organizar a informação dá trabalho, mas no final todos ficam a ganhar... Pelo menos os alunos ficam. Espero bem que também o professor possa vir a ser valorizado, tanto por pais, como pelos titulares que farão a nossa avaliação de desempenho. Quanto aos alunos, esses, claro que agradecem e reconhecem o trabalho efectuado!

domingo, 27 de janeiro de 2008

Avaliação dos professores: uma necessidade que merece justiça e imparcialidade

O Ministério da Educação tem vindo sucessivamente a afirmar que a avaliação dos docentes constitui condição essencial para que o sistema educacional português possa caminhar no sentido da sua credibilização. Estou completamente de acordo...
O que tinhamos até há bem pouco tempo era um sistema de avaliação de professores que de rigor e exigência não tinha nada. Mais parecia um processo de auto-avaliação não sujeito a qualquer tipo de ponderação e que, por isso, permitia que dois docentes completamente díspares em termos de trabalho efectivamente prestado tivessem a mesma avaliação. Não conheço ninguém que naquela forma de avaliar tivesse tido uma avaliação abaixo de Satisfaz.
E, o que temos agora? De um sistema automatizado como o que tinhamos e, por isso, injusto, passámos para um sistema excessivamente burocratizante e envolto em complexidades enormes, em que a arbritariedade poderá ser uma realidade a partir do momento em que existem quotas e, por isso, de interesses instalados em cada uma das escolas e departamentos curriculares.
Por isso, considero que seria importante simplificar as fichas de avaliação (temos 14 items de auto-avaliação sujeitos a resposta aberta, 16 items de avaliação a preencher pelo coordenador do departamento e mais 14 items de avaliação a preencher pelo director da escola) e abolir as quotas em vigor, sob pena de se arrastarem injustiças e pedidos de reapreciação e anulação das avaliação dos docentes, algo parecido com o que aconteceu com a subida à condição de professor titular. Ora, como o tempo não estica e a motivação origina bons desempenhos, não tenhamos dúvida que muitos docentes estariam mais preocupados na sua auto-avaliação do que na avaliação dos alunos. E, o processo de ensino-aprendizagem não pode ser prejudicado apenas pelo facto fos docentes estarem inundados em papelada para preencher (já chegam os papéis relacionados com os planos de recuperação e outros que tais).
Mais uma vez alguém mente: os sindicatos afirmam não terem sido chamados a intervir na elaboração das fichas de avaliação dos docentes, enquanto que o Ministério da Educação afirma o contrário. Seguem-se ameaças da Fenprof de recorrer aos tribunais. Enfim, parece-me que tempos melhores na Educação ainda estão por chegar...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Para onde vai o nosso ensino???

O Presidente da República começou o ano, questionando os nossos governantes sobre o caminho que está a seguir o estado da saúde em Portugal... Foi prespicaz e pertinente na questão formulada. Pena é que, mais uma vez, tenha optado pelo silêncio no que toca às mudanças que se perspectivam para a área da Educação do nosso país. Tendo-se referido ao aumento do número de alunos a frequentar a escola e à diminuição do insucesso escolar, não foi ao fundo da questão, omitindo as verdadeiras razões para tais factos. E, a tendência será sempre para melhorar nas estatísticas, dado que, com a lógica do insucesso escolar a impedir uma boa avaliação do desempenho dos professores, estou para ver até que ponto é que um professor se vai a arriscar a dar mais do 20% de níveis negativos...
No campo da Educação, este ano 2008 começa envolto em circunstâncias que indiciam uma vida ainda mais difícil para todos aqueles que se dedicam a esta nobre tarefa de educar e instruir. As mexidas previstas para as direcções das escolas deixam antever o regresso à velha lógica do Estado Novo, em que o poder era detido pelo "reitor". Ao passar-se da lógica colegial para a lógica individualista não estaremos a enveredar pelo caminho de uma menor democraticidade nas nossas escolas?
E o que dizer de toda a carga burocrática que espera os professores aquando da sua avaliação? Isto já para não falar da injustiça de termos a imposição de cotas, que, certamente, irão impedir que muitos dos docentes mais novos (e, por isso, os menos bem pagos e, muitas vezes, os que apanham com mais tumras) possam progredir na carreira...
De Cavaco Silva não se pode esperar nada (depois de ter concordado com um estatuto tão injusto)! Do Governo, com mais ou menos acção dos sindicatos, muito menos! Mesmo assim, acredito que a solução para esta desgraça toda apenas será uma: quando, no nosso país, a Educação bater bem lá no fundo, como aconteceu no Reino Unido há uns anos atrás (por lá até chegaram a ter falta de docentes, tal era o descrédito da função docente) aí, sim, assistiremos a verdadeiras reformas em prol da dignidade da profissão docente!!!

sábado, 15 de dezembro de 2007

Avaliações, reflexões e Natal...

Depois de quase três meses de aulas é tempo de avaliações. Mais uma vez, é no 8º ano de escolaridade que o sucesso escolar à disciplina de Geografia menos se evidencia. A dificuldade sentida por muitos alunos para apreenderem correctamente (de forma rigorosa e não facilitista) os conteúdos relacionados com o clima constitui a razão para tal circunstância. Apesar da diversidade de estratégias utilizadas a taxa de níveis inferiores a três neste ano de escolaridade ronda os 40%. Estou crente que no próximo período de aulas a situação irá melhorar... Já nas turmas do 7º e 9º anos, as negativas propostas à minha disciplina ficaram-se pelos 15%. Nada mau...
É também tempo para reflectir sobre o que poderia ter decorrido melhor nestes três primeiros meses de aulas e as estratégias que deverão ser seguidas para que o sucesso escolar, a determinação e o rigor exigidos a todos os intervenientes educativos (professores, alunos e pais) possam ser alcançados. As últimas novidades sobre o estatuto do alunos não ajudam nada a que tal anseio seja atingido. Entretanto, continuo à espera que os currículos escolares no ensino básico sejam efectivamente revistos, a fim de acabar com as redundâncias e trapalhadas que afectam este nível de ensino...
Entretanto, há que viver esta época festiva, não esquecendo que o Natal é a festa das crianças... Um Feliz Natal para todos!!!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

De mãe para professora

Chegou-me via email uma cópia da correspondência tida entre uma Professora de Ciências Naturais e uma Encarregada de Educação. A docente informava a mãe da aluna que esta não havia realizado os TPC`s pela terceira vez consecutiva. A Encarregada de Educação responde-lhe, de seguida, afirmando que a legislação não obriga os alunos a realizarem trabalhos em casa, além de que os pais têm mais que fazer do que saber se os educandos levam TPC`s para fazer ou não. Outra particularidade: a professora é tratada por "Senhora de Ciências"...
1. Com disciplinas com cargas horárias tão reduzidas (um bloco de aulas por semana), como são os casos de Geografia ou História no 7º ano, o envio de TPC`s poderá constituir um importante suporte de estudo e revisão da matéria leccionada a aproveitar pelos alunos;
2. Há pais que demonstram um desprezo pela vida escolar dos filhos e pela função docente que não me escandalizaria nada que fosse criada legislação que punisse estes pais (por exemplo, perdendo o direito a parte do abono de família);
3. Raramente envio TPC`s aos meus alunos, até porque a sua eficácia é reduzida (nunca ficamos a saber se foi o aluno que os fez ou se copiou), mas não há dúvidas que, mesmo sem TPC´s, ficamos sempre a saber quais os alunos interessados pela matéria dada nas aulas: basta no início de cada aula fazer umas questões sobre a matéria leccionada...