sábado, 18 de outubro de 2008

De bradar aos céus!!!

Na primeira ficha de avaliação que dei aos alunos do curso profissional de "Turismo Ambiental e Rural" vi respostas para todos os gostos. Por isso, tive notas que foram dos 4 aos 19 valores. Mas, a mais surreal é a que aqui dou a conhecer. Vejam com atenção a operação que uma aluna do 10º ano de escolaridade foi capaz de fazer (ainda, por cima, com recurso à máquina de calcular). Surreal, não?
Se não desse vontade para ficar desanimado, até seria razão suficiente para rir às gargalhadas. Provavelmente, para a Ministra da Educação, a culpa deste tipo de situações é dos professores. Mas, cá para mim, o mais provável é que esta aluna tenha vindo sempre a passar à custa do facilitismo, tendo chegado ao ensino secundário sem saber sequer fazer uma simples operação de somar... E, certamente, por estar num curso profissional irá acabar o 12º ano e até chegar à Universidade!!!

sábado, 4 de outubro de 2008

Vale a pena ler...

O filósofo José Gil escreveu, na última edição da revista Visão, um artigo que deveria ser de leitura obrigatória para todos aqueles que (ainda) comungam da ideia que a vida de professor é fácil e que o rumo da educação está bem entregue aos actuais paladinos do Plano Tecnológico da Educação.
Cliquem no artigo e leiam-no com atenção.
Deixo apenas uma das melhores passagens do artigo assinado por José Gil e que revela o seu profundo conhecimento da realidade que impera por estes dias na escola pública portuguesa.
"Quebrou-se-lhes (aos professores) a espinha, juntando ao desespero anterior um desespero maior. O ambiente nas escolas é agora de ansiedade, com a corrida ao cumprimento das centenas de regulamentações que desabam todos os dias do Ministério para os docentes lerem, interpretarem e aplicarem. Uma burocracia inimaginável, que devora as horas dos professores, em aflição constante para a conciliar com uma vida privada cada vez mais residual e mesmo com a preparação das lições, em desnorte com as novas normas (tal professor de filosofia a dar aulas de "baby sitting" em cursos profissionalizantes) - tudo isto" sob a ameaça da despromoção e do resultado da avaliação que pode terminar no desemprego."
Este artigo vale muito mais do que os pseudos "Prós e Contras" da RTP1 sobre a Educação ou muitas das intervenções dos sindicalistas do costume que, ora se insurgem contra o ME, ora assinam memorandos que levam à desmobilização de dezenas de milhares de professores.
Obrigado José Gil...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Seis aulas de profissional decorridas...

Depois de seis aulas (9 horas) passadas com os alunos do curso profissional de Turismo Ambiental e Rural é-me já possível formular conclusões um pouco mais sustentadas sobre a "matéria-prima" que tenho de moldar ao longo deste ano lectivo.
A turma tem dezanove alunos, sendo que uma boa parte deles provém de um CEF (curso de educação profissional) da área de fotografia. Os outros vêm do ensino dito regular. Constatei que, à excepção de três alunos que demonstram ter razoáveis hábitos de trabalho, os outros vêm com a ideia que neste tipo de curso não tem de se trabalhar muito. Na primeira semana de aulas quase todos se queixaram que, à disciplina que lecciono, estavam a escrever muito. Ora, tendo em conta que não existe manual para a disciplina de TTG (Turismo e Técnicas de Gestão) e que quase tudo o que têm escrito tem sido copiado dos Power-points que lhes elaboro e apresento, não existem razões sérias para estas queixas. Por outro lado, o que passam para o caderno é sobre a forma de tópicos, esquemas e diagramas, o que os favorece no trabalho. E ainda lhes criei um blogue, onde apresento resumos da matéria dada nas aulas...
Mas, há mais! Nas últimas duas aulas estive a desenvolver com eles matéria relacionada com os temas da análise da produtividade e dos custos, matéria esta essencial tendo em conta que é suposto que, caso eles venham a trabalhar na área do turismo, convém estarem familiarizados com a forma de gerir convenientemente qualquer negócio da área do turismo. Ora, logo no início da realização dos exercícios práticos, pude constatar que os números são um dos "terrores" que os atormentam. Deste modo, tive que ensinar-lhes o cálculo matemático mais elementar.
Apesar de tudo, dos dezanove alunos da turma, a maior parte deles parece estar a gostar da disciplina. Claro que todos os dias se queixam da "dureza" da disciplina, mas quase todos se têm aplicado na hora de passar a matéria leccionada e realizar os exercícios exigidos. A participação oral continua a não ser muita e, a verdade, é que o silêncio impera em muitos momentos da aula. Às vezes, sinto que estou a falar "chinês" para eles...
Como acontece em quase todas as turmas existem sempre os "desmancha-prazeres". Na turma, há um aluno, já com 22 anos(!) que tem vindo a "saltitar" de profissional para profissional, sabe-se lá à procura de quê, e que a toda a hora se queixa do esforço da aula! E, há ainda a acrescentar que um dos alunos da turma, pura e simplesmente, não liga a nada do que ali se passa. Não passa nada para o caderno, não participa de forma interessada e demonstra que, vindo dele, pouco ou nada se pode esperar de positivo: já apresenta uma boa dose de faltas injustificadas...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A primeira impressão com os alunos do "profissional de turismo"

Ontem tive o primeiro contacto com a turma do curso profissional de Turismo Ambiental e Rural onde lecciono a disciplina de Turismo e Técnicas de Gestão. Apresentei os objectivos do curso e as possíveis saídas profissionais e a primeira impressão que tive foi a de que ficaram minimamente entusiasmados. O problema surgiu quando lhes pedi para escreverem na ficha biográfica a razão pela qual escolheram este curso. A principal resposta que apareceu não foi a do gosto pelo curso ou a vontade de procurar emprego nesta área. Bem pelo contrário. O que mais li foi do género "quero acabar o 12º ano mais depressa" e "o curso de turismo é interessante". Ora, este tipo de respostas dá a entender que algo de muito errado está a acontecer com estes cursos e que os objectivos dos mesmos poderão estar a ser deturpados.
Pretende-se que os alunos que optam por um curso profissional tenham grandes afinidades, a começar pela vontade e o gosto, com a área do curso que terão de desenvolver ao longo de três anos. Ora, tirando três alunos, num conjunto de dezassete, que escreveram querer ir trabalhar no sector do turismo, a verdade é que parece que muitos alunos (ainda) não estão motivados para o que os espera...
Na aula de hoje, a segunda, comecei a dar a matéria propriamente dita. O primeiro módulo versa matéria de economia e, a verdade, é que não percebo qual a razão que leva os autores dos programas destas disciplinas a serem tão exigentes. É que o primeiro módulo que vou desenvolver com os alunos é quase "copy-paste" do programa de economia do 10º ano. Não se percebe: se se pretende que este tipo de cursos sejam mais práticos, então porque é que são tão exigentes com os conteúdos das disciplinas? Estive 90 minutos a tentar estabelecer diálogo com os alunos sobre temas como o orçamento familiar e a economia aberta e, da parte deles, o que mais ouvi foi silêncio, à excepção de dois alunos que ainda foram falando sobre a matéria.
Já vários colegas me disseram para simplificar ao máximo o programa da disciplina, mas, mesmo assim, não vai ser fácil. Está visto que a primeira estratégia terá de ser a de motivá-los; caso contrário a sala de aula irá ficar mais parecida com uma sala de palestrantes, onde um fala e os outros ouvem... Demasiado calmo para o meu gosto. Darei mais notícias.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Em início de ano lectivo nada melhor para o Governo do que dar a conhecer dados estatísticos do sucesso educativo. É a política...

A equipa da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues tem a máquina bem oleada. Senão vejamos... Agora que o novo ano lectivo está aí à porta e a comunicação social nos brinda todos os dias com notícias e reportagens sobre a precaridade social em que vivem muitos professores, o aumento do desemprego docente e as elevadas despesas com que muitas famílias da classe média são confrontadas, nada melhor do que um "turbilhão" de informações veiculadas pela tutela para amenizar esta situação. Se nos últimos dias tinhamos tido uma catadupa de reportagens, emanadas do Ministério da Educação (ME), sobre o mais que propalado "Plano Tecnológico da Educação", eis que hoje surgem informações, outra vez veiculadas pelo ME, sobre o sucesso escolar, com a contínua diminuição das taxas de retenção de alunos.
A Ministra da Educação e o Secretário de Estado Valter Lemos desdobram-se em entrevistas junto da comuncação social sobre o alcance deste sucesso escolar. Justificam-no com as acções levadas a cabo por esta equipa governamental, recusando a ideia de facilitismo. Quem não está nas escolas todos os dias e ignora a realidade escolar desconhece até que ponto é que um aluno tem de ser tão fraco para ficar retido. E, agora, com a avaliação dos professores, não me admiro que a tendência para passar os alunos continue a aumentar.
Os verdadeiros resultados deste sucesso educativo serão dados a conhecer daqui a uns anos quando se souber por onde param muitos dos alunos que agora frequentam os CEF`s, os cursos profissionais e as Novas Oportunidades... É bom que se saiba!!!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

De volta ao trabalho...

Aí está mais um ano lectivo! Para muitos professores é sinal de desânimo por não terem obtido colocação, por não estarem numa escola do seu agrado ou por outra razão qualquer. Para outros, esperemos que a maioria, é sinal de regresso à nobre função de ensinar...
Na minha escola, hoje foi um dia dedicado às reuniões de departamento. Por sinal, no meu departamento fui eu o secretário e muitos foram os temas abordados. Claro que o que mais suscitou curiosidade por parte de todos foi o da distribuição de serviço. Houve quem ficasse agradado, mas também quem demonstrasse enfado com o que lhe calhou em "sorte".
Eu não me posso queixar muito. Comparando com o ano passado, em que tive oito turmas com Geografia, acrescidas de duas trumas com Área de Projecto e uma com Estudo Acompanhado, foram-me agora destinadas sete turmas do básico com Geografia e uma turma do secundário com uma disciplina que, para mim constitui novidade: Turismo e Técnicas de Gestão. Esta nova disciplina faz parte do curso profissional denominado "Turismo Ambiental e Rural".
Estou para ver como vai decorrer este novo ano lectivo, nomeadamente, com esta turma do curso profissional. Estive a falar com alguns colegas meus lá da escola que não me deram boas notícias sobre este tipo de alunos. Aconselharam-me a não "puxar" muito por eles, pois, na sua maioria, são alunos com grandes limitações. O problema é que, depois de ter analisado o programa da disciplina de "Turismo e Técnicas de Gestão", das duas uma: ou levo o programa a sério e não posso facilitar, ou ignoro as orientações do Ministério da Educação e coloco a fasquia da exigência muito por baixo. A primeira estratégia para arranjar uma solução viável será ver a "matéria-prima" com que vou trabalhar. A ver vamos no primeiro dia de aulas como correm as coisas... De resto vou ter duas turmas do 7º ano que são novidade e mais cinco turmas que sigo desde o ano passado.
Votos de um ano lectivo proveitoso para todos...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Férias de Verão: para o ano há mais...

Depois de umas férias de Verão onde percorri com a minha Salete e os nossos filhotes mais de 2000 Kms, desde Viseu a Évora, passando por toda a Beira Litoral, a Beira Interior, a Estremadura e o Alentejo, ao longo de duas longas semanas, é tempo de preparar um novo ano lectivo... Os tempos que se aproximam avizinham-se muito trabalhosos...
Estas foram duas semanas bastante proveitosas, com o intuito de piscar o gosto humanista aos meus dois filhotes, nomeadamente à Dianinha que, à beira de completar três anos de idade, já compreende o que é um castelo ou uma Igreja. Visitámos muitas aldeias, vilas e cidades históricas, com destaque para Évora, Portalegre, Elvas, Alcobaça, Mafra, Óbidos, Sortelha, Vila Viçosa, Marvão, Castelo de Vide, Alandroal e Estremoz... Também tivémos o cuidado de estar em contacto com o mar e, por isso, passámos pela Nazaré e pela Figueira da Foz. E, claro percorremos Lisboa na melhor época do ano para visitar a nossa capital sem o stress, nem as confusões dos dias de semana.
Claro que não foi fácil percorrer mais de meio país com duas crianças de um e dois anos, pernoitando em hotéis e almoçando e jantando em restaurantes! Mas, quem corre por gosto não se cansa e os miúdos adoraram. Tirámos mais de 500 fotografias e filmámos muitas horas de aventuras com os nossos pequenotes para recordarmos mais tarde estas férias do Verão de 2008, onde a prioridade foi visitar algum do Portugal Monumental que temos o privilégio de possuir. Deixo-vos com duas fotos tiradas, uma em Vila Viçosa e outra em Sortelha. Valeu a pena!!!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Merecidas férias...

A partir de hoje estou de férias. Finalmente! Depois de um longo ano lectivo, cheio de trabalho e envolto em muitas polémicas (com destaque para a grande Marcha de 8 de Março e o controverso acordo assinado entre o ME e os sindicatos) é chegado o tempo para umas merecidas e mais que ansiadas férias. Assim, até ao próximo dia 20 de Agosto (dia de regresso ao trabalho) o tempo será dedicado às minhas maiores riquezas: a minha esposa e os meus dois filhotes.
Depois de um ano lectivo muito duro e deveras cansativo, quero passar o maior tempo possível junto da minha família, dado que, em condições normais, o meu trabalho não me permite estar mais do que cinco ou seis horas por dia junto dos meus filhotes: aliás, de 2ª a 6ª feira um professor passa mais tempo com os filhos dos outros e seus alunos do que com os seus próprios filhos, isto já para não falar do tempo que passamos a preparar aulas e a elaborar e corrigir fichas e testes em casa, penalizando as nossas próprias famílias.
Assim, os quatro iremos aproveitar ao máximo estes dias para estarmos juntos e passearmos um pouco por todo o país. Em vez de "abancarmos" numa praia a derreter ao Sol, quais lagartos, iremos desfrutar daquilo que o nosso país tem de melhor: a sua diversidade paisagística. Iremos percorrer quase todo o país de lés a lés, exceptuando as ilhas e o sul abrasador, privilegiando o Minho, as Beiras e a Estremadura. Estaremos em contacto com o mar, a serra e o rio e iremos visitar o Portugal Histórico dos castelos e monumentos antigos.
Umas boas férias para todos os que aqui me costumam visitar.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O futuro milagre português...

Daqui a menos de cinco anos Portugal será visto no espaço da União Europeia como o país que conseguiu o milagre de alterar radicalmente o estado da sua Educação. Em poucos anos veremos as taxas de abandono e insucesso escolar do nosso país diminuírem drasticamente. Por outro lado, a percentagem de jovens a terminarem o ensino obrigatório aumentará consistentemente.
Em Bruxelas e por cá, quase todos ficarão orgulhosos com este sucesso e o Governo não cessará de auto-elogiar-se pelo sucesso alcançado. Ninguém se irá preocupar em questionar as estratégias utilizadas para atingir tamanho milagre. Quase todos ficarão orgulhosos por já não estarmos na cauda das estatísticas europeias e diremos "Ámen" ao trabalho realizado pela equipa ministerial de Maria de Lurdes Rodrigues. Esta ficará na história da governação portuguesa como a Ministra que conseguiu o sucesso educativo que os seus antecessores não alcançaram.
Daqui a menos de cinco anos já poucos irão ousar questionar a validade de medidas que estão na base deste sucesso estatístico: a criação das Novas Oportunidades, a banalização dos CEF`s de forma indiscriminada, a generalização de Cursos Profissionais onde impera o facilitismo, a realização de exames nacionais com um nível de exigência extremamente reduzido, a equipação prática das faltas injustificadas às faltas justificadas...
Até o Presidente da República "come" com o que lhe dão, ao congratular-se com a melhoria das notas dos exames à disciplina de Matemática!!!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Com as mãos na massa. Literalmente...

A escola onde lecciono tem a funcionar vários cursos de educação e formação, os conhecidos CEF´s, que estão agora bastante na moda e que se destinam, quase em exclusivo, para os alunos que frequentam o 3º ciclo do ensino básico, já de idade avançada e, portanto, com retenções em anos anteriores e em risco de abandono escolar. Uma das formas encontradas pela tutela para combater o insucesso e abandono escolares foi a criação de cursos com uma componente mais prática e virados para a vida profissional e não tanto para a prossecução de estudos no ensino superior.
Os CEF´s têm vindo a funcionar, em muitas escolas do nosso país, como um escape para aqueles jovens a quem a escola, enquanto espaço de aprendizagem, pouco ou nada diz. Muitos destes alunos, autênticos focos de instabilidade e indisciplina, mudam a sua postura ao frequentarem este tipo de cursos, de vertente muito mais prática.
A finalizar o 1º ano do curso CEF de padaria e pastelaria da minha escola, foi proposta aos alunos uma actividade prática dominada pela inversão de papéis. Em vez de serem os alunos a confeccioarem pães e bolos, sugeriu-se que cada aluno convidaria um professor para lhe ensinar uma das receitas do seu reportório. Assim, o Marco que havia sido meu aluno durante dois anos consecutivos no 7º ano (e nos dois havia ficado retido) convidou-me para a actividade. Não pude deixar de aceitar o convite, dado compreender a importância de que se reveste este tipo de exercícios para os alunos. Assim, coloquei o avental e segui as instruções do meu "professor" para confeccionar uns bolinhos de côco. O resultado foi excelente e fomos os primeiros a terminar. Todos gostaram dos doces que fizemos e o Marco ficou todo contente. Uma boa experiência que permite concluir que é possível realizar actividades que podem motivar os alunos mais problemáticos.