quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Para reflectir...

Hoje, de manhã, quando ia para a escola, ouvi uma notícia na TSF que me deixou perplexo e furioso. A notícia dava conta de um ataque horrendo ocorrido no Paquistão por um grupo extremista taliban sobre uma rapariga de 14 anos, de seu nome Malala Yousufzai, conhecida pelas suas acções a favor da paz e do direito à educação.
Malala Yousufzai ficou conhecida a nível internacional quando, em 2009, com apenas 11 anos, relatou através de um blogue, a difícil vida das mulheres (crianças e adultas) sob o domínio do fundamentalismo taliban. A sua luta por uma educação integral nunca foi aceite pelos fundamentalistas. A partir dessa altura, a adolescente passou a ser considerada, imagine-se, como um alvo a abater pelos taliban. Simplesmente horrível!!! 
Ao chegar a casa fui tentar saber um pouco mais sobre a vida desta autêntica heroína e foi ao ver um dos vídeos presentes no youtube sobre Malala Yousufzai que fiquei espantado com a capacidade de resistência desta adolescente. Esta é daquelas histórias de vida que merece ser analisada em sala de aula com os nossos alunos (por exemplo na aula de Cidadania) para que vejam que ainda há muitas crianças no mundo que esperam (e sofrem!) pelo dia de terem pleno direito à educação, enquanto que outras (que a têm gratuita) a desprezam e não lhe dão o devido valor. Eu já decidi: este será um dos assuntos a debater junto da minha direcção de turma e esta história estará na base da discussão sobre o tema. Pode ser que o esforço e a dedicação de Malala Yousufzai à sua nobre causa, colocando a própria vida em risco, contagie algum daqueles alunos que ainda não dão o devido valor à instrução e educação.
Fica aqui o registo de um pequeno documentário sobre Malala Yousufzai. Para reflexão...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Mais uma turma de um curso profissional

Este ano vou ter a meu cargo seis turmas de três níveis diferentes: quatro turmas do 9º ano, uma turma de 7º ano de currículo alternativo (PCA) e uma turma de 10º ano do curso profissional de Técnico de Turismo Ambiental e Rural. Tenho no total cerca de 120 alunos, o que dá uma média de 20 alunos por turma.
Na turma do profissional vou leccionar uma disciplina a que nunca me estreei: Ambiente e Desenvolvimento Rural (ADR). Como não há manual para esta disciplina de cariz técnico, espera-me muito trabalho na preparação de materiais para os alunos.
Em quinze anos de serviço, é já a terceira turma diferente que tenho a meu cargo no curso de Turismo Ambiental e Rural e a quarta disciplina diferente que vou leccionar. Em 2008/09  leccionei Turismo e Técnicas de Gestão, em 2010/11 dei Geografia e Área de Integração, em 2011/12 voltei a leccionar Geografia e agora vou dar a disciplina de Ambiente e Desenvolvimento Rural. Apesar de ser professor de Geografia, parece que me estou a especializar a dar aulas no curso de Turismo! Ora, se na disciplina de Geografia me sinto à vontade, tendo muitos materiais já preparados dos 10º e 11º anos do curso regular de humanidades, já em relação às outras disciplinas o trabalho foi muito, sobretudo na disciplina de Turismo e Técnicas de Gestão (uma disciplina de economia). Mas, são ossos do ofício e quando se é professor do 3º ciclo e secundário há que estar preparado para este tipo de situações bastante exigentes e desgastantes...
Agora, neste ano lectivo 2012/2013, vou ter que leccionar a disciplina técnica de Ambiente e Desenvolvimento Rural, que abarca matéria não só de geografia, como também de ecologia, biologia, agronomia e até de direito, pelo que serão muitas as horas que irei passar a preparar materiais para os alunos. A este propósito, penso que só quem lecciona este tipo de disciplinas técnicas percebe o trabalho acrescido que tem, pelo que seria justo uma espécie de bonificação horária em relação aos professores que dão as disciplinas dos cursos regulares. Mas, enfim, esta é outra conversa que tem que ver com as diferenças existentes entre os professores dos 1º e 2º ciclos (que geralmente só leccionam as suas disciplinas) e os que são do 3º ciclo e secundário (e que, por isso, têm muito mais trabalho por se arriscarem a darem disciplinas específicas dos CEF`s e dos profissionais).
Como referi, esta será já a terceira experiência de um curso profissional do secundário que terei a meu cargo. A primeira que tive foi em 2008/09, tendo tido boas experiências com os alunos dessa turma, sendo que alguns até já trabalham em áreas relacionadas com o turismo. Seguiu-se outra turma em 2010/11, com alunos bastante heterogéneos e, portanto, com resultados bastante díspares. Agora estou com outra turma e a primeira impressão (ainda só tive cinco tempos com os alunos) tem sido, globalmente, positiva. A turma tem apenas 12 alunos e, apesar de me parecerem pouco interventivos na aula, têm demonstrado esforço na concretização das tarefas propostas para a aula. Aliás, foi interessante verificar que quando lhes mostrei o mais recente vídeo de propaganda do turismo português, uma das alunas realçou que já tinha visto uma notícia sobre o vídeo a propósito de alguns erros que o mesmo apresenta. Sinal de que vê os noticiários... Por outro lado, a maioria dos alunos da turma provem de turmas do 9º ano regular, tendo integrado este curso profissional por razões ligadas ao interesse pelo turismo e não tanto por motivos de maior facilitismo.  
Claro que a imagem que muitas vezes se tem dos cursos profissionais é o de maior facilitismo e de menor exigência, com alunos problemáticos e indisciplinados. Ora, uma coisa é certa: os programas das disciplinas são tudo menos exigentes e, quanto aos alunos, parece-me que tem havido uma mudança positiva no tipo de alunos que se têm vindo a matricular nestes cursos. Uma das soluções para que tudo decorra pelo melhor é o professor ter a capacidade de se adaptar ao tipo de turma que tem pela frente. Ora, se a turma é fraca, não adianta estar a ser demasiado exigente e interessa que os alunos atinjam os chamados "objectivos mínimos" através da aplicação de diferentes estratégias que vão desde a insistência no trabalho prático até à análise de documentários que motivem o interesse dos alunos.  Mas, se a turma é composta por alunos com boas capacidades e que demonstram interesse e empenho, os resultados a atingir podem ser muito interessantes, com a realização de pequenos trabalhos de investigação e a aplicação de testes de avaliação exigentes, sem baixar o rigor e sem incorrer em facilitismos... Aliás, neste âmbito basta referir o facto de já ter tido alunos do ensino profissional que conseguiram entrar no ensino superior.
Uma das riquezas de Portugal é, sem dúvida, o turismo e tudo o que envolve esta actividade: a paisagem, o clima, o património natural e construído, a hospitalidade e a simpatia do nosso povo. Interessa também capacitar os nossos recursos humanos, pelo que a aposta nos cursos profissionais de Turismo poderá constituir uma estratégia fundamental no sentido de melhorar a nossa capacidade de atracção turística, bem como combater o desemprego jovem.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Quando a crítica passa a ódio de estimação, os equívocos são inevitáveis. Não é, Santana Castilho?

Santana Castilho tem um problema. E custa-lhe viver com esse problema:  o de não ter sido convidado por Passos Coelho para Ministro da Educação. Por isso, desde que este Governo tomou posse que Santana Castilho tem aproveitado todas as oportunidades que lhe surgem (na crónica habitual do Público, nas conferências para as quais é convidado, nas aparições na SIC Notícias, entre outras) para criticar Nuno Crato. Agora, quando a crítica construtiva passa a ódio de estimação, as meias-verdades, os erros, as omissões e os equívocos começam a multiplicar-se.
A última crónica de Santana Castilho no Público, da última quarta-feira, é disso exemplo. A raiva que Santana Castilho nutre por Crato é de tal ordem que o autor não deve ter feito a revisão da sua crónica e os equívocos são evidentes. A crónica socorre-se da última publicação "Education at a Glance" da OCDE para arrasar com a política de Nuno Crato. Mas, vamos aos principais equívocos:
Equívoco 1 - Santana Castilho dá a entender que o facto das escolas terem perdido parte da sua autonomia na tomada de decisões foi culpa de Nuno Crato. Errado. O relatório mostra que entre 2007 e 2011, ou seja, durante os governos de José Sócrates a autonomia das escolas passou de um peso de 43% para 27% no total das decisões tomadas. Ora, como sabemos, no período em análise, tivemos duas Ministras da Educação, Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada, senhoras responsáveis por essa perda de autonomia. Mas, mais importante do que esta constatação, que Santana omite, seria o de avaliar até que ponto é que o aumento da autonomia significa melhor escola. Esta relação causa-efeito está por provar em Portugal, quando sabemos das injustiças e imoralidades que foram cometidas quando as escolas passaram a poder contratar os seus professores através das ofertas de escolas e reconduções. Por outro lado, de que forma é que podemos ter exames nacionais se, por acaso, se decidir pela possibilidade das escolas poderem escolher os programas das disciplinas ou a sua carga horária com livre arbítrio. Volto a afirmar: entre um centralismo burocrático e lento e uma autonomia parcial e injusta, prefiro a primeira opção...
Equívoco 2 - Em relação à diminuição dos alunos nos últimos três anos, Santana Castilho serve-se das estatísticas publicadas pelo GEPE até 2010/2011 para afirmar que a redução foi de quase 72000 alunos (longe dos 200000 referidos por Crato). Ora, Santana Castilho volta a baralhar as contas e omite que o Ministro tem os dados de 2011/2012, ainda não publicados, e que se referem ao ano lectivo em que a redução de alunos das Novas Oportunidades foi mais evidente. Assim, em vez de acreditar na possibilidade de ter havido, de facto, uma quebra de 200000 alunos entre 2008/09 e 2011/12, Santana Castilho opta por confundir os leitores do Público, apelidando, indirectamente, o Ministro de mentiroso.
Equívoco 3 - Santana Castilho volta a confundir os leitores do Público quando se socorre dos dados do relatório da OCDE para afirmar que se prevê um aumento dos alunos até 2015. E diz esta barbaridade: "Nas projecções que estabelece para 2015 (gráfico C1.3) consta um decréscimo de alunos (dois por cento) na faixa etária dos cinco aos 14 anos, largamente compensado com o acréscimo (10 por cento ou mais) para a classe dos 15 aos 19 anos". A expressão "largamente compensado" é de um descaramento toral... Ora, Santana Castilho deveria saber que a redução de 2% nos quase 1200000 alunos do ensino básico corresponde a uma perda de cerca de 24000 alunos, o que praticamente compensa o optimista aumento de 10% previsto para os cerca de 270000 alunos que temos no ensino secundário! Ora, se tivermos em conta que a OCDE também aponta uma redução nos alunos entre os 20 e 29 anos a acrescentar aos cortes na educação e formação de adultos, não será descabido prever uma efectiva redução do número de alunos para 2015 e anos seguintes. Ainda para mais quando a natalidade tenderá a não aumentar, assim como a imigração, ao passo que a emigração poderá continuar a subir.
Equívoco 4 - O aumento da escolaridade obrigatório até aos 18 anos é, muitas vezes, confundido (e Santana Castilho insiste nessa confusão) com o aumento da escolaridade obrigatório até ao 12º ano de escolaridade. A primeira é verdade; a segunda não o é... Ora, Santana Castilho dá a entender que todos aqueles que estão agora no ensino básico irão continuar os estudos até ao final do 12º ano de escolaridade, o que, certamente, não se concretizará. Basta recordar os alunos que chegam ao 9º ano escolaridade com duas ou três retenções e que optam por não prosseguir estudos, preferindo entrar logo no mercado de trabalho. Outra omissão protagonizada por Santana Castilho na lógica de confundir e baralhar...
Equívoco 5 - O tamanho médio das turmas é outro dos temas a que Santana Castilho recorre para rebater as ideias de Nuno Crato. Afirma Santana Castilho que "o tamanho médio das turmas portuguesas em 2010, antes portanto das alterações determinadas por Nuno Crato, é superior, logo pior, à média da OCDE e ao tamanho das turmas na Áustria (gráfico D2.2)". Mais uma afirmação deturpada e que induz os leitores em erro. Vamos ao relatório da OCDE e ficamos a saber que no ensino básico público a média das turmas na OCDE é de 21,3 alunos, enquanto que em Portugal é de 20,1 alunos; nas turmas do ensino secundário a média na OCDE é de 23,3 alunos, ao passo que em Portugal é de 22,1 alunos. Conclusão: Santana Castilho serve-se das escolas privadas para obter a média nacional, quando o que interesse comparar é o sistema público de educação. Uma mentira descarada!!!
Equívoco 6 - Santana Castilho afirma que no final do mandato de Nuno Crato teremos alunos menos autónomos e felizes. Não sei com que bases é que sustenta este seu prognóstico, mas o reforço dos exames nacionais e o aumento da disciplina e da exigência na escola não me parece que venha a ser mau para os alunos. Quanto muito, talvez Santana Castilho se quisesse referir a professores menos autónomos e menos felizes: quanto à felicidade docente, talvez tivesse razão, mas o Ministério da Educação não existe para provocar felicidade nos professores, mas sim para formar e educar jovens...
Com este tipo de artigos, Santana Castilho entra numa autêntica espiral de manifesto anti-Crato e ao socorrer-se das meias-verdades, das omissões e das confusões, começa a perder o discernimento e a credibilidade, situação semelhante à ocorrida nalguns dos mais conhecidos blogues de educação  da blogosfera. É pena...
Fica aqui o artigo de Santana Castilho e as afirmações duvidosas a vermelho!


terça-feira, 25 de setembro de 2012

O número de professores no ensino público

Numa breve passagem pelo GEPE retirei os dados que se seguem. Da análise simplista dos números apresentados retiro uma conclusão: não existe uma relação clara e linear entre o número de alunos e o número de professores existentes no sistema.
Repare-se que, dos três anos lectivos apresentados, o de 2005/06 foi o que registou o menor número de alunos (ainda não existiam as Novas Oportunidades!); contudo foi aquele que apresentou um maior número de professores no sistema. Veja-se agora o último ano lectivo com dados publicados (ainda sob a tutela do Governo de Sócrates): em 2010/11, com o registo do maior número de alunos, dado o peso dos alunos adultos das Novas Oportunidades, o número de professores foi o mais baixo...
Ainda sem dados publicados para o ano lectivo 2011/12 é de perspectivar que a redução do número de alunos das Novas Oportunidades tenha levado a uma redução do número de professores necessários. Como sabemos, a quebra do número de docentes necessários voltou a ocorrer no presente ano lectivo 2012/13, por via das medidas implementadas e que tão bem conhecemos:
- o fim do programa Novas Oportunidades;
- a redução nas turmas EFA´s;
- a agregação de escolas;
- o aumento da componente lectiva dos professores;
- o aumento do número mínimo de alunos para abertura de turmas;
- a diminuição do número de docentes em cargos de direção.
Os sindicatos de professores insurgiram-se contra estas medidas com o argumento de que o sucesso escolar estaria a ser posto em causa. Contudo, sabemos que a principal razão que está por trás da contestação é o da diminuição do número de professores contratados registados no último concurso.
As mudanças levadas a cabo por Nuno Crato, envoltas em trapalhadas sucessivas, tiveram uma consequência insensata e injusta (o aumento do número de professores com horário zero) e que prova que no próximo concurso geral é imprescindível que se alterem as regras de colocação de professores, por forma a evitar que, no mesmo grupo disciplinar e na mesma escola, haja professores com nove ou mais turmas e outros sem qualquer turma... Uns estão cheios de trabalho e outros não!!! É um disparate autêntico...
Contudo, é preciso não esquecer o que foi assinado com a troika para não entrarmos em bancarrota: reduzir as despesas do Ministério da Educação, o que obrigou a inevitáveis cortes nas despesas com o funcionalismo público existente na área da Educação.  Ora, quando foi assinado o acordo com a troika só os mais distraídos é que poderiam pensar que não se perspectivava uma redução drástica no número de professores a contratar.  Ora,  ao acabar-se com as Novas Oportunidades, a necessidade de professores teria que ser, forçosamente, menor...
Mas, não sejamos ingénuos! As mudanças a ocorrer no funcionalismo público (o economista Camilo Lourenço afirma que Portugal tem 100000 funcionários públicos a mais para as nossas necessidades!) não pode ir contra uma medida que é de inteira justiça de ser tomada: com o aumento do peso dos professores contratados no total de professores existentes, importa que no próximo concurso de colocação de professores seja libertado o número real de lugares do quadro. É inadmissível que o Ministério da Educação tenha professores a fazer o lugar de necessidades permanentes (e não transitórias), por forma a poupar dinheiro nos salários destes docentes. Nuno Crato já afirmou que haverá novidades no próximo concurso. Esperemos que duas delas sejam:
- o fim da possibilidade das escolas contratarem professores com base em critérios mais que duvidosos e parciais (ofertas de escola, reconduções, TEIP`s) - mais vale um centralismo burocrático do que uma autonomia baseada nas cunhas;
- a abertura do número real de vagas postas a concurso para efectivar com base nas reais necessidades do sistema;
A propósito disto, o Diário de Notícias de segunda-feira abordou a questão de uma forma que ainda não tinha visto ser colocada por ninguém: "Nuno Crato tornou obrigatórios os horários completos para professores do quadro para ganhar margem para reduzir no pessoal". Por outras palavras, cumpriu o memorando da troika... 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Breve reflexão sobre os temas do encontro das Caldas

Como referi no post anterior, considero que o encontro das Caldas da Rainha, organizado pelos autores de alguns dos blogues de educação mais conhecidos do país, vai ser demasiado dado a unanimismos (o rol de convidados é bem elucidativo disso!), correndo-se o risco de, prevendo-se uma ausência de verdadeiro debate (refiro-me ao confronto de ideias muito diferentes sobre as actuais políticas educativas), desta reunião não sair nada que não seja uma espécie de manifesto anti-Crato.
Dado que não vou ao referido encontro, deixo aqui, muito sucintamente, o meu ponto de vista sobre alguns dos temas que irão ser debatidos.

1. A Vinculação Extraordinária de Contratados - Este é um assunto que, na minha opinião, irá "morrer na praia". De facto, sabendo nós do número de professores do quadro que, neste momento, têm "horário zero", a acrescentar aos que não têm a totalidade de componente lectiva que lhes seria devida (muitos foram retirados do DACL por terem apenas seis horas lectivas, não me parece razoável, nem tão pouco concretizável que se possam vincular professores de forma extraordinária, mesmo sabendo que há colegas contratados com mais de 10 anos de serviço completo. Este argumento é apoiado ainda no facto de muito proximamente ter lugar um novo concurso geral, este sim, a necessitar de reajustamentos importantes em termos de concretização (prioridades, âmbito geográfico do concurso, eficiência, etc.)

2. O Modelo de Gestão Escolar - Como sabemos foi durante o anterior governo que se registaram as maiores alterações em termos de gestão escolar, com a inclusão da figura do Director  de escola e do Conselho Geral, ao passo que o Conselho Pedagógico perdeu grande parte da sua notoriedade e capacidade de intervenção. O actual Governo parece estar satisfeito com a figura do Director e não me parece que venha a recuar nessa matéria. Contudo, seria importante reavaliar as competências e composição do Conselho Geral e do Conselho Pedagógico, por forma a devolver aos professores a sua capacidade de intervenção no destino que se quer dar às escolas. Digo isto porque tenho a ideia que o aparecimento dos Conselhos Gerais trouxe para as escolas muitos dos maus vícios da política, situação que é sobretudo visível nos meios mais pequenos. Por outro lado, importa que os Directores estejam mais dependentes das directrizes emanadas dos Conselhos Pedagógicos (reformulando a composição e competências destes) e menos dos Conselhos Gerais. Ao nível da gestão escolar, importa também aqui abordar a questão relacionada com as agregações de escolas, matéria muito envolta em polémica, constitui uma consequência óbvia das alterações demográficas e geográficas que têm acompanhado o desenvolvimento do país. De facto, com a melhoria das condições de mobilidade (redução das distâncias-tempo) é evidente que não faz sentido continuarmos a ter um número tão elevado de escolas, cada uma delas com a sua própria gestão. Por outro lado, torna-se necessário maximizar recursos e não desperdiçar meios, pelo que considero como natural que escolas de um mesmo concelho se agreguem, sem prejuízo das condições em que estudam os alunos. Assim, não vejo qual a razão que possa impedir que duas ou três escolas de um mesmo concelho se possam agregar, compartilhando espaços e professores, ao mesmo tempo que se unifica uma só gestão, evitando desperdícios de meios financeiros. O mesmo está a ocorrer com os hospitais, os centros de saúde, os tribunais e espera-se que com as freguesias e até concelhos...

3. A Hiper-Burocracia - Esta é já uma velha questão que "mata" as escolas. O problema incide no facto de todos os dias as escolas receberem papelada emanada dos serviços centrais e regionais do Ministério da Educação que obrigam a que se perca muito tempo com a análise de documentos, muitos deles, dispensáveis. Por outro lado, o conjunto interminável de documentos que os professores têm de preencher e elaborar são autênticos castradores do tempo gasto na preparação das aulas. Este é um problema que está directamente relacionado com o tema a seguir abordado e que poderia ter a sua resolução caso as escolas tivessem verdadeiros poderes de autonomia organizacional e pedagógica (situação que muitos esperam, mas que quando é concretizada é alvo de críticas de falta de imparcialidade e de justiça). Não creio que tão cedo nos livremos dos papéis. Temos é de ter a capacidade de não complicarmos as situações mas, infelizmente, é isso que se passa com muitos dos nossos colegas que são mais papistas (complicados) que o Papa. Basta ver como decorrem alguns conselhos de turma para percebermos que ainda há muita gente complicada nesta profissão...

4. A Gestão de Expectativas na Classe Docente - Em tempos de crise severa e sabendo-se que ainda há pouco mais de um ano estávamos à beira da bancarrota, parece-me que este é um tema delicadamente escolhido para, como dizia o outro, "malhar" naqueles que nos governam. Ora, não contem comigo para isso, por uma razão muito simples e que tem que ver um conceito histórico muito fácil de perceber: contextualização. Uma verdadeira gestão de expectativas deve ter em conta o tempo que vivemos. Ora, sabendo nós  das condições lastimáveis em que o país foi deixado há pouco mais de um ano atrás, só faltava que os de sempre viessem falar em "direitos adquiridos", "inexistência de cortes" ou "defesa do Estado Social tal e qual como o conhecemos". Quem queira ver a realidade tal e qual como ela é tem de perceber que a escola pública pode ser preservada, sem prejudicar o sucesso dos alunos, numa lógica de eficiência dos recursos humanos e materiais existentes. Em termos de recursos humanos, creio sinceramente que os professores do quadro não serão colocados em regime de mobilidade especial, mas devem ter a perfeita noção que os tempos do "deixa andar" acabaram. Nada pode ficar na mesma em termos de (des)aproveitamento dos professores do quadro, pelo que é normal que os professores a contratar sejam em menor número e apenas os estritamente necessários ao sistema. Por outro lado, com o número total de alunos a decrescer (em parte devido à baixa natalidade, mas também por via das novas regras da formação de adultos) e o número de escolas a agregar, parece-me claro que a tendência será da procura pelo real ajustamento do número de professores essenciais ao sistema, o que levará, nos próximos anos a que sejam contratados menos professores. E, depois não sejamos dados a ilusões: temos um patrão que esteve à beira da falência, pelo que não me acredito que, nos próximos tempos, haja grandes novidades em termos de ganhos salariais ou descongelamentos salariais. Quando a troika sair, aí sim, poderemos voltar as tempos dos aumentos salariais e das progressões nas carreiras... Já estou como uma colega minha que lecciona numa escola privada: "Dá-te por contente por saberes que não tens o teu emprego em causa". Sim, a grande vantagem de se trabalhar para o Estado (apesar de quase falido) é que, sendo do quadro, não corremos o risco de ficar no desemprego. 

5. A Autonomia e o Centralismo - Outra questão que é demonstrativa do facto da maioria dos professores serem uns eternos insatisfeitos: se impera o centralismo há quem se queixe do Estado quer mandar em tudo; se se opta pela autonomia "Ái que vêm aí as cunhas e os amiguismos". Bem sei que falar é fácil e que o melhor era termos uma autonomia regulada e fiscalizada pelo poder central, mas sejamos claros: a autonomia facilmente se transforma em caciquismo, pelo que entre a autonomia e o centralismo prefiro, sem sombra de dúvida, a assumpção de um centralismo equilibrado e imparcial que não favoreça ninguém.

6. A Gestão do Currículo - Penso que é importante rever os currículos e esta equipa ministerial tem tomado algumas iniciativas no sentido de proporcionar uma gestão mais flexível do currículo, porventura ainda longe da desejada. Mas, também sabemos que, sobretudo no 3º ciclo, continuamos a ter uma dose excessiva de disciplinas, a necessitar de uma profunda reforma. Esta é uma questão em que não se consegue agradar a todos, mas a prioridade devem ser os alunos, pelo que se espera que até final da legislatura se proceda a uma reforma da gestão do currículo que beneficie os alunos em termos, não do quanto se aprenda, mas mais da qualidade e pertinência daquilo que se aprende e realmente é necessário.

Outros temas poderiam ser abordados (a necessidade de mais rigor e exigência na escola, tanto para alunos, como também para professores, os exames nacionais, o ensino vocacional/profissional, a escola inclusiva, o estatuto da carreira docente, a avaliação docente, as formas de representatividade docente). Pena é que na maioria dos blogues de educação que leio apenas seja veiculada a "espuma dos dias", num estilo anti-Crato e que me pareça que muitos dos seus autores ainda não tenham percebido dos tempos difíceis que ainda estão para ficar durante muito tempo (parece que é preciso relembrar muitas vezes que ficámos à beira da falência e que o Estado social, dadas as mudanças demográficas em curso, não pode ficar tal e qual como o conhecemos)...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A propósito do encontro de bloggers nas Caldas da Rainha

Considero de louvar que alguns bloggers da nossa praça tenham tido a iniciativa de organizar um encontro aberto a professores e bloggers no próximo dia 6 de Outubro para debater (espero que haja mesmo debate!)  o tema "A Blogosfera e a Discussão das Políticas Educativas em Portugal".
Contudo, o facto deste encontro se realizar nas Caldas da Rainha inviabiliza que muitos bloggers de regiões mais distantes possam deslocar-se às Caldas, pelo que certamente que a maioria dos participantes serão da região de Lisboa. Bem sei que qualquer outra cidade escolhida para o encontro seria alvo de críticas e que é impossível agradar a todos. Contudo, poderia ter-se permitido que quem não fosse assumisse as suas posições e as facultasse (mesmo sem estar presente no encontro) para que os organizadores as colocassem em suporte digital nos seus blogues, a fim de suscitar o verdadeiro debate e permitir a troca de argumentos...
1. Nos dias de hoje, ver-me forçado a percorrer num dia quase 500 Kms e gastar cerca de 100 euros para me deslocar a um encontro de bloggers às Caldas da Rainha não me parece minimamente sensato;
2. Correr o risco de ouvir críticas baixas e impropérios como aquelas em que o Paulo Guinote é mestre (até porque é o que acontece na caixa de comentários do seu blogue!) quando não gosta de ouvir opiniões diferentes da sua também não faz o meu feitio. Aprecio a forma como o Ricardo, o Arlindo e o Prudêncio respeitam as opiniões diferentes e até respondem a alguns comentários (sempre de forma educada), mas o mesmo não poderei dizer do Paulo Guinote. Aliás, penso que este encontro pode ficar a ganhar em termos de unanimismos pela presença do Guinote, mas ficará, certamente, a perder pela falta de diversidade e de incapacidade para se respeitar as opiniões diferentes das dos organizadores. Aliás, os organizadores correm o risco de não verem presentes no encontro aqueles que têm uma visão das actuais políticas educativas muito diferente da assumida por estes quatro bloggers, o que inviabiliza a questão do confronto de pontos de vista diferentes. A única excepção poderá ser acerca da vinculação extraordinária de contratados, onde a troca de argumentos entre os docentes do quadro e os contratados será, logicamente, assumida. De resto, acredito que os unanimismos serão quase ponto de ordem, num género de manifesto anti-Crato...
Por isso, e com vista a não ignorar as boas intenções do encontro, irei tentar arranjar tempo para escrever uns posts sobre os temas a debater (A Vinculação Extraordinária de Contratados, O Modelo de Gestão Escolar, A Hiper-Burocracia, A Gestão de Expectativas na Classe Docente, Autonomia e Centralismo, Gestão do Currículo) e, assim, dar a conhecer perspectivas que, em parte, poderão ser algo diferentes das assumidas pelos organizadores deste encontro.
Votos de um bom debate (com civismo, respeito e seriedade), embora tenha receio que, dada a presença do Guinote e, tendo em conta as personalidades que se convidaram, se correrá o risco de se assistir mais a um género de encontro sindical do que a uma verdadeira troca de argumentos e pontos de vista diferentes.

PS - Não tem que ver directamente com o assunto atrás tratado, mas deixo aqui a notícia do Público de hoje (para memória futura) onde se diz que, segundo declarações de Casanova, a mobilidade especial não vai avançar para os professores do quadro. O que dirão alguns bloggers da praça sobre esta notícia?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

As manifestações de sábado

O último sábado foi palco de um conjunto de manifestações realizadas um pouco por todo o país intituladas "Que se lixe a troika, queremos as nossas vidas" e que tiveram o seu embrião nas redes sociais. Importa reflectir um pouco sobre as motivações e o alcance destas manifestações.
1. A expressão que deu o mote às manifestações não me pareceu a melhor. Dá a entender que os seus patrocinadores querem o FMI, o BCE e a UE fora de Portugal, mas sem nunca referir o que fazer com o dinheiro que estas organizações já emprestaram a Portugal (os quase 90 mil milhões de euros já chegaram quase na sua totalidade). O que defendem estas pessoas? Devolvemos o dinheiro emprestado para não termos cá a troika? Não devolvemos, mas também não pagamos o que nos emprestaram? Rasgamos o memorando da troika e saímos do euro? Muito se fala sobre os problemas, mas de soluções quase nada...
2. Apesar de, implicitamente, a expressão utilizada nas manifestações não referir o Governo fiquei com a ideia de que muitos dos que se manifestavam o faziam contra o Governo, o que sugere que as motivações que estiveram por trás destas manifestações vão muito para além das inicialmente propagandeadas...
3. As manifestações tiveram, na generalidade das cidades onde se realizaram, uma forte adesão por parte das pessoas, com destaque para Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro. Há que respeitar essa situação e constatar que, de facto, há muita gente desiludida com o actual estado de coisas e que, não tendo outra forma de manifestar o seu mal-estar (caso houvesse agora eleições, certamente que Passos Coelho as perdia), se manifesta através deste tipo de acções;
4. Ao contrário das manifestações organizadas por partidos (caso do PCP) ou por sindicatos (CGTP à cabeça), esta forma de manifestação liberta as pessoas das ideologias ligadas a partidos ou sindicatos, pelo que motiva a que qualquer pessoa cuja vida foi afectada pelas medidas de austeridade (e não há ninguém que não tivesse sido afectado pela austeridade!) se sinta impulsionado a entrar neste tipo de manifestações que se dizem apartidárias e sem interesses ideológicos.
5. É importante que quem não foi à manifestação e que o poder político (sobretudo Passos Coelho) respeitem este tipo de acção e compreendam a diversidade de motivações que levam a que tante gente tenha ido, pela primeira vez, a uma manifestação: desde o reformado que teve um corte na sua reforma até ao professor contratado que não ficou colocado; desde o jovem que está a recibos verdes ao taxista que tem menos clientes; desde o puro militante do PCP ou do BE sempre pronto para manifestações até ao militante do PSD ou CDS que ficou sem os dois subsídios; desde os jovens que gostam desde tipo de manifestações ao pai de família preocupado com o futuro dos seus filhos. Enfim, cada um tem as suas motivações e elas são muito diversas...
6. Estas manifestações podem ter várias consequências. Desde logo, obrigar o Governo a explicar-se melhor quanto ao alcance e objectivos das medidas de austeridade a tomar (a da TSU parece-me importante voltar a explicá-la), apesar de acreditar que o povo não quer explicações, mas sim que não haja mais medidas de austeridade, situação que não acredito que aconteça, pois ainda estamos muito longe da nossa independência financeira. Por outro lado, já estou como Selassie: qualquer outra medida de austeridade, que para ter verdadeira dimensão precisa de também ser aplicada à classe média, levará sempre a protestos. Mas, para além de uma melhor explicação, penso que é importante levar a sério a discriminação e modelação das medidas, como Passos Coelho referiu na entrevista à RTP1, e saber explicar muito bem essa modelação para que as pessoas percebam, de uma vez por todas (claro que as que não querem perceber nunca irão perceber!) que as medidas não têm igual aplicabilidade para todos e que, portanto, os que possuem menores rendimentos são realmente protegidos...
Numa frase: penso que estas manifestações devem ser respeitadas e que as motivações de muitos dos que nelas participaram devem ser compreendidas, mas que tal situação não deve levar o Governo a desistir, mas sim a explicar-se melhor e a fazer todos os esforços por modelar a aplicação das medidas de austeridade que, quer queiramos, quer não, estão para ficar mais alguns anos!
1. O semanário Expresso refere, na sua página online, que em Viseu estiveram presentes na manifestação entre 15000 e 20000 pessoas. Posso assegurar-vos que, certamente, não estiveram mais de mil pessoas na manifestação (alguns continuarão a pensar que Viseu ainda é o cavaquistão). 
2. O que se passou em frente à Assembleia da República na noite de sábado demonstrou duas coisas: a procura de violência por parte de alguns vândalos da noite lisboeta e o sangue frio dos agentes policiais que fizeram o seu serviço de forma irrepreensível.  

sábado, 15 de setembro de 2012

A Fenprof quer respostas? Aqui tem as minhas...

Ontem, o Rossio de Viseu foi, uma vez mais, local de animação sindicalista com a Fenprof a animar os transeuntes com frases feitas e músicas de intervenção (foi bom ouvir Zeca Afonso!). Ao passar, uma das sindicalistas chegou-se perto de mim e, muito educadamente, saudou-me e entregou-me um panfleto (este aqui ao lado). Reparei que muitos dos que passavam e recebiam os ditos panfletos os colocavam no lixo sem sequer os lerem.
Fui para umas das esplanadas alí existentes e, enquanto o meu filhote se distraía com as pombas, dei-me ao trabalho de ler o panfleto de fio a pavio.
Pois bem, resolvi gastar 15 minutos do meu tempo a responder às questões que a Fenprof coloca no panfleto. Aqui vão as questões da Fenprof e as minhas respostas: 
- Haverá alguém de bom senso que acredite que para um professor é o mesmo trabalhar com poucos ou com muitos alunos na sala de aula? Não, não é a mesma coisa. Mas, se em Portugal se aumentou o limite máximo de alunos por turma para 30 alunos, convém não esquecer que a actual média é de 20 alunos/turma. E, já agora recorde-se que em Espanha o limite máximo passou para 36 alunos. E, contextualizemos a situação: a troika obriga-nos a cortes e uma das formas encontradas para cortar nas despesas é o de aumentar o limite máximo de alunos...
- Será que, para os alunos, é o mesmo trabalhar só com disciplinas consideradas essenciais – como gosta de dizer Nuno Crato – ou terem outras disciplinas que lhes alarguem a formação e abram horizontes para um futuro cada vez mais incerto? Flagrante!!! Esta questão é enganadora. Dá a ideia de que agora passa a haver só disciplinas essenciais, o que é falso. Houve sim uma alteração curricular, com ganhos de horas para a Geografia, História e outras disciplinas e perda de horas para as disciplinas de cariz artístico. São opções, que podem ser criticadas ou não, mas não se verificou o fim das disciplinas mais práticas (como a Fenprof dá a entender).
- É defensável que se volte a apostar numa escola que privilegie as elites precisamente quando a escolaridade obrigatória passa a ser de 12 anos? Questão que faz lembrar a luta de classes (inspiração comunista?). A escola de agora não privilegia as elites. Bem pelo contrário, a escola pública continua a receber todo o tipo de alunos e alarga as alternativas e opções de escolha quanto às vias de ensino possíveis (não obriga nenhum aluno a ir para um CEF ou um profissional).
- Deve defender-se que a uns (poucos) se estenda a passadeira para obterem formações mais qualificadas, enquanto a outros (a maioria) se empurra para percursos socialmente desvalorizados, apenas pensando em acentuar e legitimar as diferenças sociais que os alunos transportam para as escolas? Mais uma questão enganadora. O Governo tem como objectivo que 50% dos alunos do secundário enveredam por uma via profissionalizante, indo de encontro às necessidades laborais do país. Mas, esse objectivo não passa disso mesmo, de um objectivo, o que não implica que os alunos sejam obrigados a escolher a via profissionalizante. Aliás, continua a haver a possibilidade destes alunos prosseguirem estudos no ensino superior.
- Alguém de bom senso comprenderá que em vez de escolas entendidas como espaços humanizados, em que todos tenham condições para se conhecerem e cooperarem no sentido do sucesso escolar de todos os alunos, se tenha optado por criar o que é conhecido já por mega-agrupamentos que encaixotam mais de 3 mil alunos e centenas de professores que chegam ao final do ano sem saberem o nome uns dos outros? Mais uma questão que tem a intenção de enganar os menos bem informados. A forma como a questão é formulada dá a entender que as agregações de escola levaram a que tenhamos três ou quatro mil alunos encafoados num mesmo edifício, o que é falso. A maioria das agregações de escola fizeram-se a nível organizacional (e não ao nível dos edifícios), pelo que as escolas continuam a funcionar nos seus espaços próprios, mas agora dotadas de apenas um corpo dirigente. Poderá haver casos em que esta situação correu mal (acredito), mas na maioria dos casos não passou de algo meramente organizacional. O mesmo se passou com os hospitais, os centros de saúde ou os tribunais. Mais uma vez, esta mudança tem em vista cortar nas despesas, procurando a eficiência, sem prejudicar o sucesso escolar.
- Como pode uma escola que se quer apontada ao futuro, desempregar tantos milhares de professores como aconteceu agora? Mais uma questão enganadora. Sabemos dos cortes e da necessidade de reduzir o número de professores contratados (exigência da troika). Por outro lado, o que se poderá criticar é o facto das medidas de austeridade na educação terem levado a um elevado número de "horários zero", provocando enormes injustiças (professores com dez turmas, enquanto que outros não têm qualquer componente lectiva e arriscam um ano de "descanso"), mas a verdade é que o Ministro já veio assegurar que nenhum professor do quadro irá para a mobilidade especial (curioso que ninguém fala nisto!). Quanto aos professores contratados, a situação do país obriga a que se contratem apenas os estritamente necessários. A crítica que eu faria é a que diz respeito às ofertas de escola, essas sim, de justiça e igualdade de oportunidades entre docentes mais que duvidosas.
Enfim, gastei 15 minutos a responder às perguntas da Fenprof (a maioria enganadoras), mas há quem prefira dizer mal de tudo o que vem deste Governo, desinformando e até caluniando. Mas, cada um tem os seus pontos de vista. Urge debater, sem pensamento únicos, nem visões deturpadas ou enganadoras da realidade que vivemos...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A OCDE e o número de alunos (para encerrar de vez este assunto)

Depois da "ligeira polémica" tida com o Paulo Guinote sobre a questão da redução do número de alunos verificados em Portugal, surgiram muitas notícias e posts de alguns bloguistas da nossa praça com referência à indicação pela OCDE de que o número de alunos entre os 15 e os 19 anos irá aumentar 10% até 2015 em comparação com o ano 2005. Muitos falaram que os números contrariavam as declarações do Ministro, dando a entender que, portanto, até serão necessários mais professores no futuro para as necessidades que se avizinham.
Pois bem, não nos podemos ficar com verdades parcelares, pois estar a segmentar alunos de acordo com as conveniências de alguns é algo profundamente errado de se fazer. É o mesmo que induzir em erro os mais distraídos. E isso foi conseguido com a notícia do Público e com alguns dos blogues mais (re)conhecidos de Portugal.
Deixo aqui um excerto da notícia do Público de ontem para se perceber que, de facto, se prevê uma redução do número total de alunos. Isto porque não devemos contar só com os alunos do secundário (claro que estes irão aumentar, dado o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos). Mas, entre os 5 e os 19 anos, na sua globalidade, irá verificar-se uma diminuição. Transcrevo o parágrafo 8 da notícia que está no site do Público:
 "Relativamente ao número de alunos no sistema educativo entre os 5 e os 19 anos, o relatório estima que haja uma redução entre 2010 e 2015, uma tendência que o ministério afirma já ter apontado em relação aos últimos anos."

As razões para esta situação já as apontei num post anterior e são claras para aqueles que estão minimamente informados (baixa natalidade e aumento da emigração). Por outro lado, e tendo em conta que este Governo se decidiu pelo fim do programa "Novas Oportunidades" (isto, sim, poderá ser alvo de crítica ou elogio!), parece-me claro que também o número de alunos adultos irá diminuir. É que só em 2008/09 estavam inscritos mais de 130000 adultos nos programas de RCVV (reconhecimento de validade e certificação de competências), aquilo a que eu chamo de "pseudo-alunos". 
Finalmente, e correndo o risco de me virem chamar de defensor do Ministro, deixo outro excerto da notícia do Público para que, finalmente, os que ainda não perceberam fiquem a perceber a lógica da redução de 200000 alunos nos últimos três anos. É que há quem prefira a omissão à verdade e insista em dizer que essa diminuição não existiu... E esta foi, para além das medidas tomadas quanto à organização do novo ano lectivo, um dos factores que levou à menor contratação de professores este ano. Infelizmente...
Penso que este assunto fica definitivamente encerrado. Agora há que começar a preparar as aulas para o novo ano lectivo, pelo que o tempo livre para aqui vir será novamente reduzido. Um alívio para alguns...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um post sobre o carácter (e a censura?) de Paulo Guinote

Este post vai ser curtinho, porque vou ter uma reunião de DT`s daqui pouco. Logo aprofundo um pouco mais.
Enfim, a história resume-se a poucas palavras. Depois da "ligeira polémica" (como lhe chamou Guinote) a propósito de um post por ele escrito e que eu resolvi contrariar (sobre a redução do número de alunos invocada por Crato), o Guinote pareceu ficar muito aborrecido com o facto dos meus pontos de vista (neste assunto do número de alunos) não serem iguais aos dele. Daí a chamar-me nomes feios (qual miúdo do ensino básico!) foi um instante.

"O Guinote esqueceu-se ou não quis referir este dado do Público:
"Relativamente ao número de alunos no sistema educativo entre os 5 e os 19 anos, o relatório estima que haja uma redução entre 2010 e 2015, uma tendência que o ministério afirma já ter apontado em relação aos últimos anos".
http://www.publico.pt/Educação/dados-da-ocde-serao-tidos-em-conta-na-definicao-da-politica-educativa-diz-ministerio_1562625".

Ora, o comentário não ficou visível e depois de tentar mais vezes é que me dei conta que o Guinote me censurou. A partir daqui, cada um que retire as suas conclusões. As minhas são muito claras. Eu até apreciava a forma de estar do Guinote (antes desta sua atitude de género ditatorial), até já tinha escrito isso aqui no meu blogue e elogiava as aparições do Guinote no "Opinião Pública" da SIC, nos jornais e noutros meios de comunicação social.
Agora está visto que o Guinote sofre de um grave problema: a incapacidade para aceitar opiniões diferentes da sua. E quando recorre à censura está tudo dito sobre o seu carácter. Só aceita aqueles que pensem como ele. Aliás, não é por acaso que aqueles que tentaram debater com ele diferentes pontos de vista dizem todos o mesmo: Guinote não respeita as opiniões diferentes. É apologista do pensamento único. Isso tem um nome: arrogância. Ainda por cima serve-se da censura. Imagine-se: um professor com estes tiques...
Curioso: não será por acaso que o blogue dele tem o nome que tem. Está visto que o homem só olha para o seu umbigo. Confronto de ideias diferentes não é mesmo com ele...
Vou à reunião.

Adenda:
Só agora, quase à uma hora da manhã, posso actualizar o post (uma reunião de DT´s de manhã, duas de EE`s à tarde e a feira de São Mateus à noite).
Pois bem, depois da reunião de DT`s recebi um mail do Paulo Guinote em resposta a um mail que lhe tinha enviado a insurgir-me contra a facto de não me ter dado autorização para continuar a deixar comentários no seu blogue. Explicou-me que o Wordpress colocou o meu comentário em regime de "pendente de aprovação" e que, portanto, não poderia estar visível. Estranho, no mínimo...
Depois do que escreveu sobre mim não posso deixar de colocar dúvidas a esta explicação do Guinote. Enfim, agora parece que já posso voltar a deixar comentários no seu blogue. Mas, será interessante colocar aqui um excerto das palavras que o Guinote deixou no meu mail para vermos o carácter da dita pessoa. Passo a transcrever:
"Agradeço ainda que se dirija a mim com um mínimo de civilidade porque, e agora terá de ler o que vou escrever e assumo, estou farto de doutorzinhos de aviário na órbita deste Governo, gente sem currículo, sem conhecimentos e apenas com a função de amesquinhar quem até tem trabalho de investigação premiado, publicações há mais de 20 anos e, embora a antiguidade e o passado não sejam um posto, nenhum receio de debater e se confrontar com os melhores e não apenas com quem manipula os dados." Para quem exige civilidade é, no mínimo, desconcertante e pouco ético que utilize os impropérios proferidos relativamente aos que não comungam sempre da sua opinião e ousam retorquir...
Eu não vou em amuos e lá continuarei a ir ao blogue do Guinote para dar a minha opinião acerca do que por lá se escrever, umas vezes a elogiar, outras a criticar...