O CNE, presidido por David Justino, coloca, finalmente, o dedo na ferida. Há muitos anos que se sabe que, em muitas escolas deste país, se utiliza a estratégia de "inflacionar" as notas internas dos alunos, por forma a compensar os desastres ocorridos nos exames nacionais, a fim de que a média final permita que muitos desses alunos consigam entrar no ensino superior.
Basta analisar as pautas e comparar as notas internas e os resultados nos exames nacionais para perceber que, muitas vezes, não há discrepâncias de resultados por mero acaso ou azar. Mas, o inverso também ocorre em muitas escolas, sobretudo privadas: alunos que vão a exame como externos, por redução forçada da sua nota interna, de forma a não deixarem mal vistas as suas escolas. Enfim, políticas escolares que, muitas vezes, são assumidas internamente por todos (ou quase todos), mas que, na prática, constituem um fenómeno de manipulação dos resultados escolares, favorecendo uns alunos e prejudicando outros.
Em dezasseis anos de serviço, muitos dos quais, em escolas secundárias e com a disciplina de Geografia A do 11º ano a meu cargo (e, portanto, em ano sujeito a exame nacional), felizmente nunca fui "pressionado" por ninguém com vista a facilitar os alunos, com receio daquilo que pudessem fazer no exame nacional. Bem sei que o exame de Geografia A não é dos mais complicados e que, portanto, não se trata de uma disciplina onde haja grande receio de haver discrepâncias entre as notas internas e externas. Quem dá aulas ao secundário sabe que as disciplinas onde este tipo de manipulação das notas mais costuma ocorrer são, por exemplo, as de História (muitas vezes de forma flagrante), mas também as de Matemática, Física e Química ou Biologia.
Mas, se o CNE avança, no seu relatório, com o aviso (que não é novidade para quem lecciona), porque não vai mais além, limitando-se a remeter para a tutela a análise e resolução deste problema? Todos os anos são publicados os rankings das escolas, pelo que basta pegar nos últimos cinco rankings para ver que há escolas onde, sistematicamente, existem enormes discrepâncias entre as notas internas e os resultados externos. O que tem sido feito? A tutela tem fechado os olhos...
E, nas privadas, todos sabemos como funcionam muitas delas, por forma a conseguirem chegar aos primeiros lugares dos rankings nacionais.
Bem sei que muitas das escolas onde as notas internas são inflacionadas se situam em regiões desfavorecidas e com graves problemas sociais, e que o argumento utilizado para a inflação das notas é a de que os exames não devem servir de "barreira" à conclusão dos estudos ou à entrada no ensino superior. Mas, também não nos esqueçamos que os exames nacionais valem 30% da nota final e que, portanto, não determinam assim tanto e de forma tão decisiva a conclusão dos estudos. Há mínimos que devem ser cumpridos, por forma a evitar termos na Universidade alunos medíocres que têm 5 valores num exame nacional, mas conseguem passar à disciplina porque levam 13 valores de nota interna... Tem de haver um mínimo de exigência!!!








