terça-feira, 11 de setembro de 2012

A entrevista de Nuno Crato à TVI

Vi a entrevista de Nuno Crato à TVI e, sinceramente, pareceu-me que o Ministro tentou demonstrar até que ponto se pode tentar não prejudicar o sistema educativo, ou mesmo melhorá-lo, apesar de se ter que avançar com cortes na Educação (como sabemos, provocados pelos constragimentos financeiros que o país atravessa). Sintetizo a entrevista em duas palavras: realismo e exigência...
Vamos aos pontos essenciais da entrevista:
Tema 1: o desemprego entre a classe docente. Crato esclareceu que, apesar de todas as mudanças ocorridas em termos da adopção de novas regras na organização do novo ano lectivo, não se verificou a hecatombe anunciada pelos sindicatos. Não houve uma redução de 25000 docentes contratados, mas sim de cerca de 5000 comparando com o ano anterior. Não referiu que estas mudanças tinham a "mão" da troika, mas poderia tê-lo feito, visto que todos sabemos que o memorando assinado pelo PS tinha incluído uma forte redução nas despesas com a educação. E talvez tenha sido demasiado forte (eu diria que foi frontal e directo) quando afirmou que o Ministério não pode contratar todos os candidatos a professores. É verdade que há milhares de candidatos a professores (falou em 40000), mas também há alguns milhares que são professores com horário completo há mais de dez anos. Para estes referiu-se mais tarde a propósito da possibilidade de vinculação, mas também poderia ter criticado os seus antecessores (os governos de Sócrates nada fizeram em relação a estes docentes!), coisa que não o fez. Ficou-lhe bem...
Tema 2: a redução do número de professores necessários. Crato chamou a atenção de que não temos professores a mais. Disse que na entrevista ao Sol não o tinha dito e isso é verdade. Por outro lado, afirmou que conta com todos os professores do quadro, o que inviabiliza o risco da mobilidade especial para os colegas de horário zero. Mas, os que o criticam fazem "orelhas moucas" a esta questão. Referiu que nos últimos três anos houve uma quebra de 200000 alunos (14%). Os dados publicados apenas vão até 2010/11, mas consultando os dados do GEPE ficamos a saber que entre 2008/09 e 2010/11 a descida foi de quase 83000 alunos. Crato terá os dados do ano lectivo 2011/12 que, certamente, continuam a apresentar uma redução no número de alunos, muito por via do "apagão" verificado no programa das "Novas Oportunidades", pelo que poderá não estar longe da verdade. Contudo, Crato não explicou a verdade toda, dando a entender que a redução de alunos se verificou nos jovens, omitindo que grande parte dessa redução se verificou nos adultos (das Novas Oportunidades e do Recorrente). Contudo, dada a quebra na natalidade, o aumento da emigração e as alterações provocadas nas Novas Oportunidades, parece-me claro que o número de alunos será uma certeza nos próximos anos. Só não vê isso quem não quer.
Tema 3: as contratações de professores no futuro. Crato não enganou ninguém e foi bastante claro. Dada a reduação do número de alunos e as alterações na distribuição de serviço docente, as contratações nos próximos anos serão escassas. "Apenas serão contratados os professores estritamente necessário". Em tempos de crise quem não concorda com isto?
Tema 4: as trapalhadas nos concursos, com casos de possíveis "amiguismos" e cunhas. Crato referiu que nos casos em que isso aconteceu, cabe ao professor prejudicado reclamar. Ora, pareceu-me que a sua resposta foi demasiado simplista e até algo ofensiva para os docentes prejudicados. Omitiu que muitas destas injustiças se devem ao excesso de autonomia que foi dada às escolas, tanto ao nível das reconduções, como das ofertas de escolas, para além de que a burocracia, nestes últimos casos, são uma vergonha. Deveria ter dito que têm ocorrido casos, no mínimo estranhos, que merecem investigação e punição. A incompetência não pode morrer solteira e todos os anos ocorrem irresponsabilidades sem culpados. O mesmo acontece com os concursos nacionais. Ora, estas situações não podem ocorrer e têm de ser solucionados, com responsbilização dos culpados...
Tema 5: o número de alunos por turma. Neste ponto só não ficou esclarecido quem tem a visão curta das coisas. Crato explicou-se bem (afinal é matemático!), tendo demonstrado que o limite máxico de alunos passou para 30, mas que a média até está nos 20 alunos. Abordou a questão das assimetrias regionais e a lógica da rentabilização dos recursos, em tempo de crise, para provar que esta alteração não é assim tão gravosa como se quis passar. Veja-se o caso de Espanha que alterou para um máximo de 36 alunos por turma.
Tema 6: a vinculação extraordinária de professores. Crato esfriou aqueles que já estavam com grandes expectativas em relação a este ponto (por incúria da FNE) e deu a entender que esta vinculação será excepcional e que apenas se aplicará a casos estritamente necessários. E, claro, tudo será resolvido aquando do concurso geral de professores.
Tema 7: o sucesso escolar. Crato esboçou um grande sorriso quando se deixou de falar em professores e se passou a falar de alunos. Pareceu ficar aliviado, mas não lhe ficou muito bem... Mas acredito que foi um alívio sentido e não propositado, até porque a questão das contratações de docentes deve estar mais do lado do seu colega Gaspar (apesar de ser Crato a dar a cara), mas também acredito no Ministro quando este afirmou que aceitou o convite de Passos Coelho para este cargo pensando nos alunos e no que poderia fazer com vista a melhorar os índices do sucesso escolar. Desmultiplou-se em explicações acerca das metas curriculares, da avaliação externa mais frequente, do aumento da exigência, da aposta em mais apoios e do reforço da autoridade do professor, por forma a que o sucesso escolar não se atinja através do facilitismo. Aqui não há novidade: é o enterro do eduquês...
Tema 8: os ensinos vocacional e profissional. Crato focou um aspecto importante que tem sido omitido: este tipo de ensino não é obrigatório, ao contrário do que muita gente fez crer. Explicou-se bem, enunciando as vantagens dos alunos com maiores dificuldades em terem uma via alternativa no final do 2º ciclo que lhes permita o contacto com três profissões.
Tema 9: o ensino superior. Não resvalou e apelou à responsabilização dos alunos (aquando da escoha de um curso superior) e das próprias instituições (a propósito do financiamento e do reforço da empregabilidade).
Em termos gerais, e adoptando a antiga técnica de Marcelo Rebelo de Sousa, daria 16 valores à prestação de Nuno Crato. As suas falhas prendem-se com a omissão de alguns dados mais concretos (sobretudo os respeitantes à redução do número de alunos), a incapacidade para assumir as trapalhadas que houve em relação aos "horários zero" e aos concursos e o facto de não ter assegurado que os responsáveis pelos erros que têm ocorrido nas contratações de professores seriam devidamente responsabilizados. Os pontos fortes prendem-se com o realismo da situação que vivemos e a preocupação que teve em demonstrar que nos esperam tempos difíceis, mas que é importante que a exigência na escola seja recuperada depois dos desastres ocorridos durante a vigência da política do eduquês...     

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Post para esclarecer o Paulo Guinote

Ontem iniciei um debate interessante com o Guinote sobre a questão demográfica apontada por Nuno Crato na entrevista que este concedeu ao semanário Sol. Afirmava Crato que a redução da população escolar era uma das justificações para as alterações ocorridas na educação e até avançava com dados numéricos: menos 200000 alunos (14%). Ora, Crato ficou-se pela verdade que lhe convinha, omitindo os anos a que se referiu para fazer esta comparação. Nada de muito grave, quando o entrevistador não tenta ser mais curioso e não tenta aprofundar os dados numéricos apresentados pelo Ministro.
Ora, na minha boa fé tentei esclarecer o Paulo Guinote que o Ministro até poderia ter razão e que, portanto, não tinha muito sentido esta crítica avançada pelo Guinote no seu blogue. Ele bem sabe que é lido todos os dias por milhares de professores e que, portanto, tem ou deve ter algum cuidado quando escreve um post. Induzir em erro milhares de leitores não é coisa bonita que se faça...
Ora, depois do debate com Guinote e não conseguindo a sua adesão à minha perspectiva dos números dei-me ao trabalho de pesquisar um pouco sobre o assunto e fui aos dados do GEPE tentar saber então qual o número de alunos matriculados que temos vindo a ter nos últimos anos.
Pois bem, apresento o quadro que se segue, cuja evolução reflete os dados públicos mais recentes sobre o tema.
Pois bem, em 1997/98 havia 1934438 alunos matriculados. Em 2007/08 havia menos 131619 alunos inscritos. Mas em 2007/08 já tinhamos aqui contabilizados os "alunos faz de conta" das Novas Oportunidades. Portanto, vamos pegar no número de alunos no ano anterior à criação desta farsa, ou seja, 2005.
1997/98 = 1934438 alunos
2005/06 = 1754636 alunos
Diferença = 179802 alunos (próximo dos 200 mil alunos)
Não quero ser dado como defensor de Nuno Crato. Bem pelo contrário. Quando tenho que criticar Crato faço-o, mas quando penso que o devo elogiar (tem acontecido poucas vezes) também o faço. Não quero é ser dado a radicalismo; prefiro o realismo.
Aliás, se tivermos atenção aos dados do quadro anterior, há outra questão que suscita algum interesse. Repare-se que entre 1997/98 e 2007/08 o número de alunos diminuiu em cerca de 130000, mas o número de professores aumentou de 168249 para 175919. Ou seja, durante os anos em análise (a maioria de governos PS) o número de docentes aumentou em quase 8000.
Agora começamos a ter as consequências disto tudo: o aumento sucessivo do número de professores do quadro com horário-zero e dos professores, também do quadro, com carga lectiva incompleta. Ao mesmo tempo e com o aumento das reformas antecipadas, aumenta o peso dos colegas contratados. Objectivo: poupar dinheiro na educação. Era isto que Nuno Crato deveria ter a coragem de dizer, mas não diz. Ainda por cima, temos que levar com os erros que governos anteriores fizeram quando abriram vagas para quadros de determinados grupos disciplinares em vários QZP´s  que sabiam não ter capacidade de absorver... 
Ora, sabendo-se da diminuição da natalidade e com o recente aumento explosivo da emigração (a acrescentar às mudanças implementadas por Crato, com anuência da troika) não nos espera nada de bom para os próximos anos. Tentar fugir a esta realidade é não querer ver as coisas como elas (infelizmente) são...

Adenda:
No seu blogue, o Paulo Guinote responde ao meu post e afirma não compreender o facto de não apresentar dados sobre o número de alunos para além do ano lectivo 2007/08. A justificação é simples: porque estes dados são inflacionados pelo número de "alunos" que foram para o programa "Novas Oportunidades". Ora, com tantas centenas de milhares de pessoas que frequentaram esta programa é normal que o número de alunos tenha aumentado. Ora, sabendo-se o que este Governo fez com as Novas Oportunidades, importa não incluir este tipo de alunos na análise que se faz na questão demográfica.
Assim, vou dar-lhe a conhecer os dados só do ensino público, a partir das estatísitcas do GEPE presentes em:
http://www.gepe.min-edu.pt/np4/?newsId=672&fileName=EEF2011.pdf
http://w3.gepe.min-edu.pt/series/xls/A_0_1_1.xls
Aqui vão dos dados do número de alunos matriculados no ensino público:
Ano 1995 - 1775960 alunos
Ano 2000 - 1588177 alunos
Ano 2005 - 1471074 alunos
Ano 2011 - 1447924 alunos
Agora é só fazer-se as subtrações que se entender para perceber que o número de alunos tem vindo, de facto, a diminuir sucessivamente, ao contrário do que o Paulo sugeriu quando falou numa diminuição de 0,5% entre 2000 e 2010 ou até de um ligeiro aumento entre 2005 e 2010.
Pode ser que agora o Paulo compreenda a lógica da diminuição de alunos (que tenderá a agudizar-se com a baixa da natalidade e o aumento da emigração) ou será que vai arranjar outra argumentação???

Uma nova adenda (mais actualizada):
Na entrevista de Crato à TVI, o ministro deu-nos a conhecer um pouco mais sobre a redução de 200000 alunos. Disse que se referi aos últimos três anos. Pois bem, vamos novamente aos dados do GEPE e consultar as últimas publicações relativas aos três últimos anos lectivos:
Aqui estão os números do GEPE:
Ano 2008/091614596 alunos
Ano 2009/10 – 1581049 alunos
Ano 2010/11 – 1528197 alunos
Uma redução que se aproxima dos 87000 alunos, sendo certo que no ano lectivo 2011/12 ainda se assistiu a uma maior redução do número de alunos, dada a quase desactivação do programa “Novas Oportunidades”. Com os dados de 2011/12 não me admiro que a redução se aproxime dos 200000 alunos. Os dados de 2011/12 não estão publicados, pelo que não posso dar um número certo. Certo é que a tendência será para uma maior redução de alunos, devido a três factores: redução da natalidade, aumento da emigração e cortes no programa "Novas Oportunidades" e até nos EFA`s de adultos e recorrente.
Conclusão: a redução do número de alunos é óbvia. Direi que Nuno Crato omitiu propositadamente a parte do apagão das "Novas Oportunidades". Ficou-lhe mal, enquanto Ministro, mas a Judite de Sousa também não tentou esclarecer melhor esta questão...
Mas, também ficou mal ao Guinote ter tentado demonstrar o contrário: que nos últimos cinco anos até se verificou um ligeiro aumento do número de alunos. Estava a referir-se ao programa das "Novas Oportunidades", mas preferiu omitir essa parte. Ora, nos próximos anos a tendência será para que o número de alunos continue a baixar… Essa é a verdade que o Guinote tentou, desde o início, secundarizar...
Fico-me por aqui para que o Guinote não se exalte mais de tanto ser contrariado. Mal habituado, não???

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O essencial da entrevista de Nuno Crato

Nuno Crato concedeu uma entrevista ao semanário Sol poucos dias depois da FNE ter vindo armar-se em vitoriosa com o anúncio de que havia garantido o compromisso do Ministério para a abertura de uma vinculação extraordinária de professores contratados.
Chegou-se a falar em cerca de 12000 docentes que poderiam conseguir a vinculação nos quadros. Nuno Crato veio agora colocar os "pontos nos is" ao afirmar que essa possibilidade não passa disso mesmo: de uma possibilidade...
Nuno Crato aborda vários temas, com destaque para a que diz respeito às contratações de docentes. A este respeito, fiquei surpreendido com a análise que os principais "bloguistas" da praça fizeram da entrevista. O Guinote, o Arlindo e o Ricardo perdem demasiado tempo com questões de forma, criticam o que lhes convém e até ignoram o que lhes interessa. Há que saber criticar: elogiar o que há para elogiar e atacar quando há que atacar. Estou particularmente surpreendido com o Guinote: esperava uma análise mais ponderada e menos radical. Faz lembrar Louçã. Enfim...
Nas quatro páginas da entrevista do Ministro da Educação ao semanário Sol destaco dois excertos, aqueles que considero importantes e que abordam a questão das colocações sem rodeios.
Por um lado, Crato volta a insistir no facto de todos os professores do quadro serem necessários ao sistema educativo, o que deixa de lado qualquer risco de mobilidade especial para os colegas que não têm componente lectiva. Caso contrário, Crato não dizia isto de forma perentória as vezes que já o disse. Poucos têm sido os que destacam este aspecto!
Por outro lado, Crato é directo e frontal ao referir que nos próximos tempos será muito difícil que haja mais vinculações (estas serão escassas e muito excepcionais). Com a redução da população estudantil, a implementação de novas regras na distribuição de serviço, a agregação de escolas e outras medidas (número de alunos por turma, alterações nas disciplinas, etc.), parece claro que a lógica dos "horários zero" não será rapidamente afastada, pelo que ainda não será no próximo concurso geral (nem provavelmente no seguinte, quatro anos mais tarde) que haverá uma considerável vinculação de colegas contratados nos quadros.
Na entrevista, Crato avisa: mais de metade das despesas com salários da Administração Pública Central provém do Ministério da Educação. Ora, o erro de Crato é que se fica por aqui e não diz a verdade toda. De facto, poderia e deveria ser um pouco mais frontal e referir que as medidas que tomou têm como grande objectivo diminuir a despesa com os salários dos professores. Essa é a grande omissão de Crato. Fica-lhe mal falar apenas na questão demográfica e não dizer toda a verdade.
A mim, parece-me claro: a troika manda, o Gaspar diz que sim e o Crato corta...  E as novidades de hoje continuam a mostrar isso mesmo. O empobrecimento está para ficar, a troika faz o que quer de nós, Passos Coelho dá a cara e o outro continua lá por Paris na boa vida, longe dos cortes, da pobreza e do descontentamento que por cá grassa!

PS - Hoje, sábado, o jornal Público sintetiza em poucos palavras a verdade sobre as intenções de Nuno Crato: puro desinvestimento com vista à redução das despesas com os professores.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Presente envenenado

A FNE veio a público vangloriar-se de ter conseguido, em reunião tida com Nuno Crato, o compromisso assumido pelo Ministério da Educação deste proceder à vinculação extraordinária de professores contratados até ao final deste ano. Não se sabe ainda as condições necessárias para que estes professores possam ser do quadro (número de anos a contrato, número de anos com horário completo, grupos disciplinares, etc.), mas sabe-se que, como diz o povo, "a bota não bate com a perdigota".
Digo isto porquê? Ora, sabendo-se que ainda há poucos dias milhares de professores do quadro ficaram sem componente lectiva e que muitos outros milhares apenas não ficaram com "horário zero" dado que as escolas lhes arranjaram seis horas lectivas, não tem lógica pensar-se na vinculação extraordinária de professores. A isto há que acrescentar o facto de se saber que daqui a uns meses se inicia um novo concurso geral de colocação de professores, este sim com carácter de vinculação, pelo que o mais sensato seria esperar por esse concurso para aí, sim, com regras bem claras em termos de colocação a concurso das necessidades reais das escolas e de respeito pelas listas de graduação profissional, se proceder à vinculação dos docentes necessários ao sistema de educação. Deste modo, evitar-se-ia o aumento dos "horários zero" e a colocação nos quadros de professores num tempo fora do normal (agora só de quatro em quatro anos).
1º - Esta novidade irá certamente criar divisões entre a classe docente (já criou entre sindicatos), dadas as injustiças criadas;
2º - Em tempos de "vacas magras", não se percebe como é que o Ministério da Educação irá poupar dinheiro com a vinculação de professores que não sabemos se irão ser necessários num próximo ano lectivo (lembremo-nos dos milhares de "horários zeros" existentes);
Assim, o que me parece que vai acontecer é algo parecido com o velho ditado popular "o elefante pariu um rato". Vamos chegar a 2013 e serão poucos ou nenhuns aqueles contratados que ficarão vinculados... Até lá, distrai-se a comunidade docente de outros assuntos e evitam-se greves, manifestações e contestações.

PS - A última prestação do Paulo Guinote no "Opinião Pública" da SIC foi de autêntico serviço público gratuito no sentido de esclarecer os menos bem informados (muitos deles também professores!) sobre o difícil ano lectivo que vamos ter pela frente, por via das injustiças e trapalhadas provocadas pelas novas regras de distribuição de serviço docente (uns cheios de turmas e alunos e outros com "pseudo-apoios) e pelo conturbado concurso de professores (recorrentes erros nas colocações e possibilidade de uma vinculação extraordinária de contratados) . Por isso, deixo o vídeo para quem quiser saber mais sobre o assunto.

domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre a colocação de professores

Apenas algumas considerações sobre os números que se conhecem a propósito do concurso de colocação de professores:
 - o Ministério da Educação não é um centro de emprego daqueles que querem ser professores, nem tem a obrigação de dar colocação a todos aqueles que pretendem ser docentes;
- os dados da OCDE demonstram que continuamos a ter um número médio de alunos por professor abaixo da média da OCDE (muito por via do número reduzido de turmas que os colegas com mais anos de serviço têm, dada a redução de componente lectiva existente para estes colegas);
- não é novidade a intenção clara da Troika e do Governo em reduzir as despesas inscritas no Orçamento do Ministério da Educação, sobretudo ao nível das despesas com salários, obtida através da redução do número de professores necessários ao sistema.
Sendo assim, não é de admirar que dos mais de 50000 candidatos ao concurso de colocação de professores para necessidades transitórias (ou seja para não efectivação) apenas tivessem sido colocados pouco mais de 7500 professores, muitos deles com horário incompleto.
Agora, o que é de admirar é que como é que com este panorama negro em termos de colocação de professores continuem a existir quase 2000 professores sem horário e que se arriscam a virem a ter um ano de "descanso", ou seja, sem turmas atribuídas, nem direcção de turma. Muitos deles irão para as bibliotecas e para as salas de apoio a fazer de conta que trabalham. A estes há ainda que acrescentar milhares de colegas dos quadros que foram colocados com seis horas de componente lectiva e que, portanto, também não irão ter um ano complicado. Estas situações de injustiça (sim porque uns terão dez ou mais turmas a seu cargo e outros ficarão a "olhar para o boneco") poderiam ter sido evitadas se o Ministério da Educação tivesse organizado o início de ano lectivo de forma responsável e sem olhar apenas aos cortes...
Só não percebo como é que ainda há quem acredite na possibilidade de ainda este ano se poderem vir a efectivar os colegas com mais de dez anos de serviço, quando foram tão poucos aqueles que obtiveram colocação e ainda há tantos professores sem horário.
Para o próximo ano teremos um concurso geral de efectivação (são de 4 em 4 anos) e, aí sim, será o tempo ideal para pôr tudo em pratos limpos: obrigar as escolas a lançarem as vagas reais (sem guardarem lugares nas gavetas para os amigos) e alterar as regras de concurso para evitar horários-zero e colegas QZP`s. 
Por outro lado, continuo a achar que se o Governo queria poupar dinheiro com a Educação deveria fazê-lo não por via dos cortes cegos no número de professores necessários ao sistema, mas sim alterando o regime de remunerações dos professores, através da diminuição do número de escalões e aproximando os vencimentos dos colegas do quadro (não se justifica que um colega com 30 anos de serviço receba quase mais mil euros que um colega do quadro do 1º escalão, quando ambos têm as mesmas funções docentes e, ainda por cima, o que tem 30 anos de serviço tem muito menos turmas e alunos que o outro "desgraçado" em início de carreira e que, muitas vezes, até fica com as turmas mais difíceis)...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Algumas verdades sobre o ensino profissional

Muitos são aqueles que falam do ensino profissional sem saberem realmente como funciona o ensino profissional em Portugal. Para já há que distinguir o ensino profissional privado (tanto existe o bom como o péssimo) do ensino profissional público que ainda está, regra geral, muito aquém do melhor que há no privado...
De facto, existem escolas profissionais de ensino privado que já têm muitos anos de experiência e que, de facto, são exigentes tanto ao nível da requisição de professores, como no que concerne à aplicação requerida aos alunos. Muitas destas escolas têm uma forte ligação ao mundo empresarial e os alunos rapidamente encontram lugar no mundo do trabalho. Depois temos as escolas profissionais privadas que apenas têm em vista a obtenção de fundos comunitários para atrair futuros alunos (à custa dos subsídios de alojamento, de refeição e de estudo) e cujo nível de exigência está muito abaixo do mínimo.
Este ensino profissional enferma dos seguintes problemas:
- a maior parte dos alunos são incluídos neste tipo de ensino não por vocação e interesse, mas porque são alunos menos interessados e com maiores dificuldades de aprendizagem, ou seja, já com algumas retenções no seu historial;
- a maior parte dos professores que dão aulas a estas turmas são escolhidos não porque têm maiores competências para ensinar a este tipo de alunos, mas porque não estão no topo da carreira e, portanto, não podem escolher as turmas aquando da distribuição de serviço; aliás, muitos dos professores contratados chegam às escolas e ficam com estas turmas (os do quadro preferem as turmas do ensino regular);
- o nível de exigência requerido a estes alunos não é o mesmo em relação aos alunos do ensino regular: basta referir que quando um aluno não termina com aprovação um módulo a uma qualquer disciplina tem à sua disposição pelo menos mais três momentos de avaliação (o 2º momento, a época de Junho/Julho e a época de Setenbro) para conseguir aprovação ao respectivo módulo;
a forma como a maior parte do mundo empresarial olha para os alunos provenientes do ensino profissional é ainda de muita desconfiança: o objectivo de muitas empresas é ainda a questão do emprego a baixos custos (ou mesmo de borla) e não tanto a competência dos alunos com vista a contratarem um futuro empregado pós-estágio;
Enfim, muito haveria a dizer sobre o ensino profissional em Portugal, mas fico-me por aqui na certeza de que muitos daqueles que falam deste assunto estão a milhas de saber o que realmente é ter uma turma do ensino profissional, seja um CEF do ensino básico, seja um profissional do secundário.
Fica aqui o registo do último artigo de Santana Castlho sobre este assunto:

 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sobre a dimensão das turmas. Vale a pena ler...

No Público do passado dia 23 de Agosto li um artigo de Laura dos Santos sobre a questão do número de alunos por turma. Vale a pena ler, até porque falamos de alguém que, efectivamente, leccionou na escola pública (no 2º ciclo) antes de se tornar professora universitária. É que um dos problemas de muitos daqueles que estão à frente do Ministério da Educação é que não sabem o que é a escola pública, pois nunca deram aulas a alunos do ensino não universitário. Aliás, também há muita gente nos sindicatos de professores que vão pelo mesmo caminho: há quantos anos é que o Mário Nogueira não dá aulas???

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mais uma de Santana Castilho para registar

Santana Castilho volta a escrever no Público sobre as possíveis consequências que a política craticista poderá ter na escola pública portuguesa. Para ler e reler mais tarde...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Dizer o que muitos pensam...

No passado dia 1 de Agosto, na sua habitual crónica do Público, Santana Castilho apelidou Nuno Crato de "tirano" e escreveu o que muitos professores teriam vontade de dizer na cara do Ministro da Educação. Palavras duras, mas acertadas...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ainda os exames nacionais...

O jornal Público de hoje apresenta uma pequena notícia sobre os exames nacionais, abordando algumas das causas que justificam os parcos resultados alcançados pelos alunos do ensino secundário à generalidade das disciplinas com exames nacionais.
São apresentadas como principais causas os programas muito extensos, a falta de formação inicial dos professores e as turmas extensas. E é uma investigadora do Instituto Superior Técnico que indica estes factores. Esquece-se a investigadora que existem outras causas tão ou mais importantes do que as apresentadas...
A que mais me incomoda é a de que os professores não têm formação suficiente e de que este é um dos factores que contribuiu para os maus resultados dos alunos. Estará a brincar ou quê??? Então os professores, devidamente formados em Universidades e, muitos deles com pós-graduações e mestrados, pagos do seu bolso, não têm competência para leccionar no secundário??? Poderá havê-los, mas os Directores das escolas é que escolhem os docentes que leccional ao secundário!!! E então o que dizer dos que dão aulas ao 1º ciclo, formados em ESE`s de credibilidade duvidosa? Outras causas ignoradas pela professora universitária deveriam ser estudadas, tais como a falta de pré-requisitos de muitos alunos que chegam ao secundário com bases pouco sólidas (dado facilitismo patente no ensino básico) ou a insuficiente carga horária de muitas disciplinas (não é o programa que é extenso, mas sim o número de horas de algumas disciplinas que são escassas). Há ainda que destacar o elevado número de disciplinas que os alunos têm ao longo do seu percurso escolar, espartilhando o conhecimento, o que dificulta a consolidação de conhecimentos.
O que a Associação devia dizer é que os exames deviam valer metade da nota final e se deviam pautar pela exigência e rigor, em vez de enveredar pela conversa do facilitismo. Com associações de professores deste nível, estamos conversados!!!
Já agora, seria interessante que se ouvissem os alunos sobre a matéria. É que, regra geral, aqueles que têm más notas são os primeiros a afirmar que não estudaram o suficiente para o exame. E, os bons alunos até costumam dizer que o exame foi demasiado fácil e que esperavam um exame mais exigente. Uma das principais causas não estará na falta de estudo de muitos alunos que chegam ao secundário sem saber interpretar um texto ou um gráfico???