Vi a entrevista de Nuno Crato à TVI e, sinceramente, pareceu-me que o Ministro tentou demonstrar até que ponto se pode tentar não prejudicar o sistema educativo, ou mesmo melhorá-lo, apesar de se ter que avançar com cortes na Educação (como sabemos, provocados pelos constragimentos financeiros que o país atravessa). Sintetizo a entrevista em duas palavras: realismo e exigência...
Vamos aos pontos essenciais da entrevista:
Tema 1: o desemprego entre a classe docente. Crato esclareceu que, apesar de todas as mudanças ocorridas em termos da adopção de novas regras na organização do novo ano lectivo, não se verificou a hecatombe anunciada pelos sindicatos. Não houve uma redução de 25000 docentes contratados, mas sim de cerca de 5000 comparando com o ano anterior. Não referiu que estas mudanças tinham a "mão" da troika, mas poderia tê-lo feito, visto que todos sabemos que o memorando assinado pelo PS tinha incluído uma forte redução nas despesas com a educação. E talvez tenha sido demasiado forte (eu diria que foi frontal e directo) quando afirmou que o Ministério não pode contratar todos os candidatos a professores. É verdade que há milhares de candidatos a professores (falou em 40000), mas também há alguns milhares que são professores com horário completo há mais de dez anos. Para estes referiu-se mais tarde a propósito da possibilidade de vinculação, mas também poderia ter criticado os seus antecessores (os governos de Sócrates nada fizeram em relação a estes docentes!), coisa que não o fez. Ficou-lhe bem...
Tema 2: a redução do número de professores necessários. Crato chamou a atenção de que não temos professores a mais. Disse que na entrevista ao Sol não o tinha dito e isso é verdade. Por outro lado, afirmou que conta com todos os professores do quadro, o que inviabiliza o risco da mobilidade especial para os colegas de horário zero. Mas, os que o criticam fazem "orelhas moucas" a esta questão. Referiu que nos últimos três anos houve uma quebra de 200000 alunos (14%). Os dados publicados apenas vão até 2010/11, mas consultando os dados do GEPE ficamos a saber que entre 2008/09 e 2010/11 a descida foi de quase 83000 alunos. Crato terá os dados do ano lectivo 2011/12 que, certamente, continuam a apresentar uma redução no número de alunos, muito por via do "apagão" verificado no programa das "Novas Oportunidades", pelo que poderá não estar longe da verdade. Contudo, Crato não explicou a verdade toda, dando a entender que a redução de alunos se verificou nos jovens, omitindo que grande parte dessa redução se verificou nos adultos (das Novas Oportunidades e do Recorrente). Contudo, dada a quebra na natalidade, o aumento da emigração e as alterações provocadas nas Novas Oportunidades, parece-me claro que o número de alunos será uma certeza nos próximos anos. Só não vê isso quem não quer.
Tema 3: as contratações de professores no futuro. Crato não enganou ninguém e foi bastante claro. Dada a reduação do número de alunos e as alterações na distribuição de serviço docente, as contratações nos próximos anos serão escassas. "Apenas serão contratados os professores estritamente necessário". Em tempos de crise quem não concorda com isto?
Tema 4: as trapalhadas nos concursos, com casos de possíveis "amiguismos" e cunhas. Crato referiu que nos casos em que isso aconteceu, cabe ao professor prejudicado reclamar. Ora, pareceu-me que a sua resposta foi demasiado simplista e até algo ofensiva para os docentes prejudicados. Omitiu que muitas destas injustiças se devem ao excesso de autonomia que foi dada às escolas, tanto ao nível das reconduções, como das ofertas de escolas, para além de que a burocracia, nestes últimos casos, são uma vergonha. Deveria ter dito que têm ocorrido casos, no mínimo estranhos, que merecem investigação e punição. A incompetência não pode morrer solteira e todos os anos ocorrem irresponsabilidades sem culpados. O mesmo acontece com os concursos nacionais. Ora, estas situações não podem ocorrer e têm de ser solucionados, com responsbilização dos culpados...
Tema 5: o número de alunos por turma. Neste ponto só não ficou esclarecido quem tem a visão curta das coisas. Crato explicou-se bem (afinal é matemático!), tendo demonstrado que o limite máxico de alunos passou para 30, mas que a média até está nos 20 alunos. Abordou a questão das assimetrias regionais e a lógica da rentabilização dos recursos, em tempo de crise, para provar que esta alteração não é assim tão gravosa como se quis passar. Veja-se o caso de Espanha que alterou para um máximo de 36 alunos por turma.
Tema 6: a vinculação extraordinária de professores. Crato esfriou aqueles que já estavam com grandes expectativas em relação a este ponto (por incúria da FNE) e deu a entender que esta vinculação será excepcional e que apenas se aplicará a casos estritamente necessários. E, claro, tudo será resolvido aquando do concurso geral de professores.
Tema 7: o sucesso escolar. Crato esboçou um grande sorriso quando se deixou de falar em professores e se passou a falar de alunos. Pareceu ficar aliviado, mas não lhe ficou muito bem... Mas acredito que foi um alívio sentido e não propositado, até porque a questão das contratações de docentes deve estar mais do lado do seu colega Gaspar (apesar de ser Crato a dar a cara), mas também acredito no Ministro quando este afirmou que aceitou o convite de Passos Coelho para este cargo pensando nos alunos e no que poderia fazer com vista a melhorar os índices do sucesso escolar. Desmultiplou-se em explicações acerca das metas curriculares, da avaliação externa mais frequente, do aumento da exigência, da aposta em mais apoios e do reforço da autoridade do professor, por forma a que o sucesso escolar não se atinja através do facilitismo. Aqui não há novidade: é o enterro do eduquês...
Tema 8: os ensinos vocacional e profissional. Crato focou um aspecto importante que tem sido omitido: este tipo de ensino não é obrigatório, ao contrário do que muita gente fez crer. Explicou-se bem, enunciando as vantagens dos alunos com maiores dificuldades em terem uma via alternativa no final do 2º ciclo que lhes permita o contacto com três profissões.
Tema 9: o ensino superior. Não resvalou e apelou à responsabilização dos alunos (aquando da escoha de um curso superior) e das próprias instituições (a propósito do financiamento e do reforço da empregabilidade).
Em termos gerais, e adoptando a antiga técnica de Marcelo Rebelo de Sousa, daria 16 valores à prestação de Nuno Crato. As suas falhas prendem-se com a omissão de alguns dados mais concretos (sobretudo os respeitantes à redução do número de alunos), a incapacidade para assumir as trapalhadas que houve em relação aos "horários zero" e aos concursos e o facto de não ter assegurado que os responsáveis pelos erros que têm ocorrido nas contratações de professores seriam devidamente responsabilizados. Os pontos fortes prendem-se com o realismo da situação que vivemos e a preocupação que teve em demonstrar que nos esperam tempos difíceis, mas que é importante que a exigência na escola seja recuperada depois dos desastres ocorridos durante a vigência da política do eduquês...




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