quinta-feira, 7 de março de 2013

A especificidade de leccionar nos cursos profissionais

Há uns dias atrás,  um blogger da comunidade blogosférica educativa portuguesa, conhecido pela sua tendência excessivamente umbiguista e prepotente, resolveu amuar e escreveu um artigo a vitimizar-se e a armar-se em coitadinho por num dos comentários que fiz no seu blogue lhe ter dito, em tom irónico, que imaginava o número de horas que o dito umbiguista deveria gastar a preparar materiais para os seus alunos do 2º ciclo. O homem amuou com o que lhe disse e "foi aos arames"...
Este episódio permitiu-me constatar, uma vez mais, que ainda há muitos colegas nossos que não imaginam o que é leccionar aos cursos profissionais. Dizia o umbiguista-mor que tem duas turmas PCA do 2º ciclo e que, portanto, até tem muito trabalho com os seus alunos. Não duvido desse trabalho, mas o problema é que o dito umbiguista tentou equiparar o trabalho que se tem com as turmas do 2º ciclo com o que se tem com as turmas do CEF e do profissional. Esta ideia de que todos os níveis de ensino comportam o mesmo tipo de trabalho é prova de que ainda há muita ignorância na comunidade docente sobre o trabalho específico inerente às disciplinas dos cursos profissionais, nomeadamente às disciplinas técnicas.
Já várias vezes defendi que quem lecciona a turmas CEF e profissionais deveria ter uma redução da sua componente lectiva, dada a especificidade deste tipo de ensino. Esta situação é ainda mais premente em relação aos professores que leccionam disciplinas técnicas, dado que, nestes casos, todos os materiais e recursos pedagógicos têm de ser elaborados pelos próprios docentes, dada a inexistência de manual e o facto dos conteúdos dos programas destas disciplinas implicarem uma componente muito mais prática e contextualizada às regiões onde as escolas se inserem.
Ora, convém esclarecer os mais ignorantes nesta matéria que a docência de disciplinas técnicas dos cursos profissionais implica que o professor prepare, minuciosamente, cada uma das aulas. Nestas disciplinas não se pode "improvisar" na hora da aula recorrendo-se ao manual. Nestas disciplinas o trabalho prático é ponto de ordem e o professor, mais do que debitar conteúdos teóricos, tem de se esforçar por tornar as aulas em espaços de trabalho prático, como se fosse um maestro de uma orquestra, onde os alunos têm de desenvolver competências que lhes permitam entrar mais facilmente no mercado de trabalho.
Nestas disciplinas o professor é obrigado a elaborar um conjunto diversificado de materiais contextualizados à área geográfica onde a escola se insere, o que perfaz muitas dezenas de horas de trabalho apenas para uma turma. Agora, se a isto acrescentarmos o facto destes professores ainda terem turmas do ensino regular, torna-se evidente que estes docentes têm mais trabalho do que aqueles que não têm a seu cargo a docência destas disciplinas.
Vou dar um exemplo concreto. No curso profissional de Técnico de Turismo Ambiental e Rural, há uma conjunto de disciplinas, como Geografia, Turismo e Técnicas de Gestão, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Técnicas de Animação e Acolhimento, História da Cultura e das Artes que obrigam os professores que leccionam estas disciplinas a prepararem um conjunto muito diverso de materiais de apoio às aulas, dado não existirem manuais. Por outro lado, estas disciplinas têm de ser contextualizadas às regiões onde são leccionadas, pelo que o professor que lecciona Geografia a alunos de uma escola de Leiria não elabora os mesmos materiais que um colega seu que lecciona essa disciplina numa escola da Guarda.
Eu falo por mim. Desde que apareceram os cursos profissionais (e já nem falo dos antigos cursos tecnológicos) que já leccionei um conjunto de disciplinas em escolas diferentes que me obrigaram sempre a gastar centenas de horas a preparar materiais para os alunos. Quando leccionei Turismo e Técnicas de Gestão tive de preparar materiais ligados à fiscalidade. Quando leccionei Ambiente e Desenvolvimento Rural tive de preparar materiais ligados ao Direito do Ambiente. E já nem falo de muitos outros módulos, onde a especificidade daquilo que se ensina é tão grande que não se compreende que os colegas que têm estas disciplinas não tenham direito a uma redução da sua componente lectiva.
O umbiguista-mor ficou amuado por pensar que o considero professor de segunda por leccionar ao 2º ciclo. Engana-se! Não considero nenhum colega do 2º ou do 1º ciclo como docentes de segunda, mas não gosto da lógica de colocar todos os professores no mesmo saco, como se todos leccionassem com a mesma dose de esforço, quer sejam do 1º ciclo ou do secundário. Convém perceber que aquilo que é diferente não pode ser dado como igual, pelo que há que saber diferenciar aquilo que é diferente, mesmo que haja o risco de se dividir a classe docente...

20 comentários:

prof ramiro marques disse...

Muito bem; ando a dizer o mesmo há muitos anos.

Agnelo Figueiredo disse...

Quem se mete com o Guinote leva.
Eu deixei de lhe ligar.

Anónimo disse...

Aqui há coisa de 20 anos, e durante uns seis ou sete, dei aulas no Ensino Recorrente, onde, no início, nem programa concreto havia - muito menos manuais. Cheguei a leccionar num mesmo ano as 21 unidades do programa - quando passou a haver programa - e nunca tive menos de 5 unidades diferentes dentro da sala. Pois muitos dos colegas acusavam-me de «não trabalhar» ou de ter «pouco trabalho». Na minha experiência, todos tendemos a achar mais fácil o trabalho que não fazemos.
Já aqui chamei a atenção do Pedro para as dificuldades do trabalho no 1º ciclo, entre elas a responsabilidade acrescida pela pouca idade dos alunos e pela influência decisiva que um professor pode ter nessas idades.
Mas quer-me parecer que o Pedro acha sempre superior em importância, merecimento e utilidade o seu próprio trabalho e faz parte daquelas pessoas que «podem bem com o mal dos outros». É tiste, mas é tão comum que já nem choca.
Francisco

Francisco Calado disse...

1.º) O Agnelo, um gajo que não sabe o que é dar uma aula há séculos, vem apoiar a noção de trabalho dos outros. Enxerga-te! Ainda bates nos alunos? Ainda hoje estive a falar com uma ex-aluna a quem fazias isso no 7.º ano).

2.º) O Ramiro Mamadeiro, outro trabalhador profundo (onde é que tiraste o menstruado) vem bater palmas.

3.º) Qual é o problema destes três? Dor de cotovelo.

4.º) O Pedro na Escola deixou uma belíssima imagem aqui no interior profundo. Ó se deixou! Ainda hoje se recordam as suas proezas do(c)entes!

5.º) Rennie resolve o vosso problema, pelo menos dois dois que conheço: o sublime geógrafo e o excelso direktor.

Anónimo disse...

Este gajo pensa que por dar aulas ao secundário é melhor que os outros. É por causa de tipos como este que quando chegamos à sala de profs parece haver uma parede invisivel que não deixa que se aproximem de nós. São só peneiras.

Prof. sem vergonha de ser do 2º ciclo

Anónimo disse...

Coitadinho, estou cheia de pena de si por ter tanto trabalhinho. Mas tenho ainda mais pena dos seus alunos.
Prepotente é você.

Anónimo disse...

EStes que ficam com cefs e profissionais passam a vida a queixar-se. Na minha escola aos intervalos, é sempre a mesma história de lamentos e lamúrias.

Pedro disse...

Caro Francisco (o primeiro, pois o calado apenas desconversa - mais valia estar mesmo calado), está enganado.
Não desprezo o 1º ciclo, nem tão pouco o 2º ciclo, mas o nível de exigência para preparar materiais e recursos pedagógicos para o 1º e 2º ciclos é muito diferente em relação ao que é exigido para o 3º ciclo, secundário e, sobretudo, para os cursos profissionais. Não tentemos igualar aquilo que é diferente.
De resto, também leccionei ao recorrente e, apesar de também não existir manual, o público-alvo era muito diferente. Ter pela frente adultos do recorrente ou miúdos do profissional (muitos deles com fracos pré-requisitos) é muito diferente...
Aos anónimos do costume, até aposto que são umbiguistas, pois surgem depois de ter ido comentar ao blogue umbiguista. Apenas revelam a sua postura prepotente.

Anónimo disse...

Nem todos os alunos do recorrente eram adultos, e quanto a falta de pré requisitos, estamos conversados. Leccionava, nessa altura, na periferia de Lisboa e garanto-lhe que o público não era fácil. De resto, os meus alunos de agora, adolescentes dos doze aos quinze anos, de cursos ditos «normais» são mais difíceis do que, e têm tanta falta de pré requisitos como os jovens do CEF que tive há três anos. Ser professor é ser professor.
Francisco

Pedro disse...

Caro Francisco, ter turmas difíceis pode calhar a qualquer um, em qualquer nível de ensino. Já ter disciplinas para as quais não há manual, nem materiais disponíveis não calha a todos e muito menos aos colegas do 1º e 2º ciclo.
É disso que fala o meu artigo: da especificidade de ensinar às turmas do profissional, sobretudo quando se leccionam disciplinas da componente técnica.
E a minha proposta, fundamentada, é a de que quem lecciona estas disciplinas deveria ter direito a uma redução da sua componente lectiva, dado o muito tempo que o professor tem de gastar, caso não queira prejudicar os alunos, a preparar materias e recursos específicos para estas disciplinas.
Não divaguemos...

Gorgi disse...

Como te compreendo. E olha que a Português temos manual.
Só quem nunca teve profissionais é que pode achar que é fácil dar aulas a estas turmas.
Um abraço

Anónimo disse...

Até posso concordar com o Pedro quanto ao trabalho que tem na preparação das suas aulas para o Ens. Profissional, mas tb. sei de profs SÓ a lecionar Profissionais que têm uma vida de reis. Vejamos: na minha escola há colegas com apenas duas turmas atribuídas, sendo uma do 2.º e outra do 3.º. Agora, uma vez que os alunos do 3.º ano vão para estágio, ficam apenas com uma turma até ao final do ano letivo. Isto é uma vergonha... Então quem tem Profissionais e Prosseguimento de estudos vê-se numa autêntica fona porque a par das reuniões de avaliação, sínteses, atas, etc, ainda têm de estar a elaborar exames de módulos para 4 épocas diferentes.... Posso afirmar que há sim uma divisão da classe: os que trabalham desde o início do ano até ao final e a dos profs dos profissionais que fazem o bem querem a partir de março. Alguns deles passam a ter dois dias livres...
Professor Ramiro, sabia disto? Pois... pena que o MEC ainda não tenha enxergado isto...

Prof. Secundário, 3.º Ciclo e Profissional

Pedro disse...

Caro último anónimo (porque razão não refere o nome?), concordo consigo.
Nos últimos cinco anos, só por um ano não tive que leccionar ao profissional. Há dois anos cheguei a leccionar duas disciplinas técnicas de um curso profissional e ainda tive um CEF, um 11º ano (com exame nacional) e mais algumas turmas do 9º ano. Foram quatro níveis diferentes! Ora, para situações destas (que deveriam ser de evitar aquando na distribuição de serviço para não sobrecarregar um professor) o mais sensato seria ter direito a uma redução da componente lectiva.
Claro que há quem tenha cursos profissionais e até trabalhe menos do que outros colegas que só têm regular. Mas, de certeza que isso não se aplica a quem tenha disciplinas técnicas.
Enfim, é um assunto que dá pano para mangas, mas só quem nunca teve disciplinas técnicas de um profissional é que pode pensar que leccionar estas disciplinas é como ensinar qualquer outra disciplina.
Uma coisa é certa: só a quem lecciona ao 3º ciclo e secundário é que lhe pode calhar a "fava" de ter de leccionar a CEF´s e profissionais! Muitos dos nossos colegas do 1º e 2º ciclo nem sonham o trabalho que se tem com as disciplinas técnicas dos profissionais.
Quanto ao caso concreto que refere, deveria ser "evitado" pelas direcções das escolas, por forma a combater a tal desigualdade a que se refere.

Anónimo disse...

Completamente de acordo:-)
Tenho as minhas razões para o anonimato. Já me basta ter que dar a cara quando contesto ou denuncio o que está mal no ambiente da minha escola. E as represálias, claro...
Continuação do bom trabalho:-)

Anónimo disse...

Concordo.
É preciso já ter dado aulas ao profissional para saber do que é que se trata.
Há quem fale muito sem nunca ter experimentado cefs ou profissionais.
Alberto

Anónimo disse...

Na minha escola a maior parte dos professores que lecionam às turmas do profissional estão em inicio de carreira e alguns até são contratados. Dá que pensar, não dá?

Pelo contrário, as melhores turmas, geralmente das ciências e tecnologias, são asseguradas pelos colegas mais velhos. Muitos deles não sabem sequer o que é ter uma turma do profissional.

Pedro disse...

Caro penúltimo anónimo(?), não percebo tanto dmedo e represálias. A opinião de cada um é livre...

Caro Alberto, concordo consigo. Nada melhor do que dar aulas aos CEF`s e profissionais para saber do que falamos. Mas, mesmo dentro dos profissionais há muitas desigualdades...

Ao último anónimo(?), direi que já aqui escrevi que uma das injustiças se relaciona na forma como a distribuição de serviço é realizada no início de cada ano lectivo em muitas escolas. Muitas vezes, aqueles que se "vangloriam" da sua experiência não a canalizam para as turmas mais difíceis, ficando com as melhores turmas das escolas. Claro que há excepções, mas seria bom que os CEF`s e profissionais não fossem sempre "empurrados" para os professores que estão no final da lista de graduação.

Francisco Santos disse...

«as melhores turmas, geralmente das ciências e tecnologias, são asseguradas pelos colegas mais velhos» - Esta das «melhores turmas» é muito relativa! E não se pode generalizar: na escola onde trabalho, as turmas de CEF e Profissional são sempre atribuídas a professores do quadro, bem como as dos anos de exame. As escola não são todas iguais.

Pedro disse...

Caro Francisco, regra geral, as melhores turmas (e todos sabemos o que significa o termo "melhores" turmas) são destinadas aos professores mais velhos, dado que, na maior parte das vezes, a distribuição de serviço é feita tendo em conta apenas a graduação profissional. Isto é, regra geral. Claro que há excepções. Cada caso é um caso, mas falemos de tendências...
O Francisco refere que na sua escola todas as turmas do CEF e profissional são entregues a docentes do quadro. Concordo. Mas, a maior parte dos docentes das escolas já são do quadro! Cada vez há menos contrados nas escolas! Mesmo dentro dos docentes do quadro há muitas desigualdades: aqueles que têm menos de 15 anos de serviço e os que já vão com 25 ou 30 anos de serviço! Muitos destes "livram-se" dos profissionais...
Mas, olhe que ainda há escolas em que quando é feita a distribuição de serviço, no caso de haver contratados do grupo disciplinar, este fica com as "piores" turmas.
Volto a frisar. Cada caso é um caso. Mas, olhe que, por exemplo, não me esqueço quando há três anos atrás uma colega minha de Físico-Química contratada ficou com o horário dela apenas com CEF`e e profissionais. Nem uma turma do regular teve... Nenhum dos colegas de grupo da colega foi solidário ao ponto de tentar uma distribuição mais equitativa das turmas. E a direção também não quis saber...
É verdade que as escolas não são todas iguais. Mas, seria bom que a distribuição de serviço fosse mais equlibrada dentro de cada grupo disciplinar. E, convenhamos, que ainda há muitas escolas onde os CEF`s e profissionais são canalizados para os professores mais novos...

Cursos profissionais disse...

Não sei como é possível anda existirem dúvidas relativamente à maior dificuldade em leccionar os cursos profissionais Efa. A ignorância é tanta que quando falam até causam calafrios a quem fica a saber que são professores do secundário.