sábado, 20 de Setembro de 2014

Notas de alunos manipuladas? Toda a gente sabe em que escolas e disciplinas. E porque é que nada acontece?

O CNE, presidido por David Justino, coloca, finalmente, o dedo na ferida. Há muitos anos que se sabe que, em muitas escolas deste país, se utiliza a estratégia de "inflacionar" as notas internas dos alunos, por forma a compensar os desastres ocorridos nos exames nacionais, a fim de que a média final permita que muitos desses alunos consigam entrar no ensino superior. 
Basta analisar as pautas e comparar as notas internas e os resultados nos exames nacionais para perceber que, muitas vezes, não há discrepâncias de resultados por mero acaso ou azar. Mas, o inverso também ocorre em muitas escolas, sobretudo privadas: alunos que vão a exame como externos, por redução forçada da sua nota interna, de forma a não deixarem mal vistas as suas escolas. Enfim, políticas escolares que, muitas vezes, são assumidas internamente por todos (ou quase todos), mas que, na prática, constituem um fenómeno de manipulação dos resultados escolares, favorecendo uns alunos e prejudicando outros. 
Em dezasseis anos de serviço, muitos dos quais, em escolas secundárias e com a disciplina de Geografia A do 11º ano a meu cargo (e, portanto, em ano sujeito a exame nacional), felizmente nunca fui "pressionado" por ninguém com vista a facilitar os alunos, com receio daquilo que pudessem fazer no exame nacional. Bem sei que o exame de Geografia A não é dos mais complicados e que, portanto, não se trata de uma disciplina onde haja grande receio de haver discrepâncias entre as notas internas e externas. Quem dá aulas ao secundário sabe que as disciplinas onde este tipo de manipulação das notas mais costuma ocorrer são, por exemplo, as de História (muitas vezes de forma flagrante), mas também as de Matemática, Física e Química ou Biologia.
Mas, se o CNE avança, no seu relatório, com o aviso (que não é novidade para quem lecciona), porque não vai mais além, limitando-se a remeter para a tutela a análise e resolução deste problema? Todos os anos são publicados os rankings das escolas, pelo que basta pegar nos últimos cinco rankings para ver que há escolas onde, sistematicamente, existem enormes discrepâncias entre as notas internas e os resultados externos. O que tem sido feito? A tutela tem fechado os olhos...
E, nas privadas, todos sabemos como funcionam muitas delas, por forma a conseguirem chegar aos primeiros lugares dos rankings nacionais. 
Bem sei que muitas das escolas onde as notas internas são inflacionadas se situam em regiões desfavorecidas e com graves problemas sociais, e que o argumento utilizado para a inflação das notas é a de que os exames não devem servir de "barreira" à conclusão dos estudos ou à entrada no ensino superior. Mas, também não nos esqueçamos que os exames nacionais valem 30% da nota final e que, portanto, não determinam assim tanto e de forma tão decisiva a conclusão dos estudos. Há mínimos que devem ser cumpridos, por forma a evitar termos na Universidade alunos medíocres que têm 5 valores num exame nacional, mas conseguem passar à disciplina porque levam 13 valores de nota interna... Tem de haver um mínimo de exigência!!!

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Professor, esse caixeiro-viajante... Triste, muito triste...

Como toda a gente neste país já reparou, à excepção do ministro Nuno Crato, o início deste ano lectivo foi tudo menos normal. Houve atrasos e erros nos concursos, assistimos ao fecho de escolas novas e bem equipadas, voltou a haver falta de assistentes operacionais e de técnicos do ensino especial em muitas escolas, continuaram a haver alunos a terem aulas em contentores (alguns já há quatro anos consecutivos), enfim, mau demais para ser verdade num país que se diz desenvolvido e que deveria ter a Educação como uma das suas prioridades... 
Este ano, na escola onde estou a dar aulas, o caso que mais me surpreendeu foi o de uma colega efectiva, mãe de dois filhos menores, que ficou colocada a cerca de 2 horas de casa, por estradas secundárias, sinuosas e com clima severo no inverno (tendo mesmo que atravessar uma serra com mais de 1200 metros de altitude). Esta colega terá todos os dias que fazer 250 kms por estradas do norte do país, o que a obrigará a, caso não tenha boleias para fazer com outros colegas, a gastar uma boa parte do seu ordenado em deslocações para ir trabalhar. E, como este caso (ou até piores) há centenas ou milhares de situações de colegas nossos um pouco por todo o país.
Deixo aqui a reportagem, emitida pela SIC, que dá a conhecer a situação de um professor que, ao fim de mais de 10 anos de serviço, foi colocado a 350 kms de distância, longe da mulher e filhos, e que deveria servir, ao menos, para que a opinião pública menos informada mas, sobretudo, o senhor ministro tivessem um pouco mais de consideração e de respeito pela classe docente. É que, não tenhamos dúvidas, que alguns dos factores que mais contribuem para um bom desempenho docente são a motivação e a valorização. Ora, neste início de ano lectivo, o que mais vimos por parte da tutela em relação aos professores foi mesmo desrespeito, desprezo e desvalorização. Triste, muito triste... 

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sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

"Colocações correram dentro da normalidade", afirmou Passos Coelho. Vê-se mesmo que não sabe do que fala...

Passos Coelho deslocou-se hoje a Sernancelhe para assinalar formalmente o arranque do ano lectivo. Questionado pelos jornalistas sobre o processo de colocação dos professores, Passos Coelho afirmou que o deste ano ainda correu melhor que em anos anteriores, destacando a redução do número dos "horários zero". Chegou a referir estar-se na presença de um resultado satisfatório por parte dos docentes. 
Enfim, a prova provada de um Primeiro-Ministro completamente a leste da realidade e que não sabe do que fala. Das duas, uma: ou foi enganado por Nuno Crato, acreditando que tudo correu bem (talvez o que tenha realmente acontecido) ou mentiu deliberadamente (o que me custa acreditar)... 
Mas, ironia das ironias foi vermos Passos Coelho em direto nas televisões, numa cerimónia dedicada à Educação, falar das trapalhadas ocorridas com a plataforma informática Citius dos tribunais, quando também no processo de colocação de professores, foram as trapalhadas da plataforma informática que levaram à ocorrência de tantos erros na colocação de professores, com casos de duplas colocações, excesso de colocações para as vagas existentes ou a existência de ultrapassagens. Fez-me recordar a treta do "choque tecnológico" que Sócrates inventou para o país e que, pelos vistos, dá no que dá: erros e mais erros... 
Autêntica balbúrdia quando, na realidade, estamos a falar de casos que implicam transtornos na vida de milhares de famílias.    

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Colocações: chegaram tarde e com erros... Como é possível tanta trapalhada!!!

Será assim tão difícil colocar de forma correta os professores, tendo em conta as necessidades das escolas e as vagas a que os professores concorrem? Como é possível que numas escolas haja mais professores colocados do que os realmente necessários e noutras continuemos a ter vagas que não foram preenchidas? 
Como é possível que haja lugar a ultrapassagens de professores mais graduados e do quadro (impossibilitados de concorrerem a DAR) por colegas menos graduados? 
Como é possível que professores sejam colocados numa escola e depois, de um dia para o outro, sejam retirados e "recambiados" para outra? 
Confusão, trapalhada e, uma vez mais, falta de respeito pela classe docente!!!
Depois das colocações terem saído no final de terça-feira, foi ontem que, logo pela manhã, muitos professores e diretores de escolas se aperceberam dos erros nas colocações. E, havendo erros, quer dizer que houve colegas prejudicados (a maioria), mas também outros beneficiados. Se os beneficiados pelos erros correram a aceitar a colocação (dado que não têm culpa dos erros do sistema), aos prejudicados não restou outra hipótese que passarem o dia a telefonar para a DGAE, tentando uma explicação. A verdade é que no dia de ontem telefonar para a DGAE tornou-se missão impossível e nem as escolas conseguiam ligação.
Entretanto, o Público foi o primeiro órgão de comunicação social a relatar a situação anómala. Seguiu-se a FENPROF com um comunicado escrito, mas afunilando as injustiças sobretudo para a questão da PACC. A FNE, uma vez mais, remeteu-se ao silêncio. E, o que dizer do MEC? Pois, o óbvio: "está tudo a decorrer na normalidade e de forma correta".
A ver vamos no que isto vai dar, mas está mais que provado que o MEC, independentemente do governo PSD ou PS que esteja no poder, não sabe (ou não quer) organizar de forma correcta e expedita o processo de colocação de professores... Uma vergonha!!!  

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Colocações a 9 de Setembro. Um novo recorde difícil de superar...

Nuno Crato falou, finalmente, nas listas de colocação de professores. Afirmou que o dia D será terça-feira, 9 de Setembro. Imagine-se, a dois dias de se iniciar o prazo dado às escolas para abertura do ano lectivo! Claro está que a grande maioria das escolas se decidiu por efectivar a abertura do ano lectivo no final do prazo concedido pelo MEC, ou seja, a 15 de Setembro. Agora, resta saber se as listas sairão intactas ou com erros. É que com tanto atraso, é de desconfiar...
Mas, se a trapalhada foi algo que não faltou neste processo de divulgação das listas da mobilidade interna e de contratação (e já nem vale a pena falarmos na confusão que foram as candidaturas à BCE), ainda poderemos vir a ter "trocas e baldrocas" por causa das rescisões amigáveis e da retirada, à última da hora, das IACL`s. A ver vamos no que isto tudo vai dar.
Uma coisa é certa. Desde o início de Setembro que muitas escolas têm andado a funcionar a meio gás, com professores a terem serviço numa escola que poderá não vir a ser a sua daqui a uns dias, já para não falarmos dois tais 5% de professores (ou seja, à volta de 6 mil docentes), a que o Ministro se referiu, que daqui a dois dias terão que se apresentar na sua nova escola para no dia a seguir darem aulas sem terem tido tempo de prepararem convenientemente as actividades lectivas. São situações que poderiam ter sido evitadas pelo MEC e que deveriam merecer do Ministro Crato uma palavra de reconsideração do erro. E até um pedido de desculpas aos lesados...
Agora resta esperar pela hora em que as listas serão dadas a conhecer. Por mais quantas horas irá durar o stresse e a ansiedade? E, claro, esperar que não haja erros, nem injustiças. A ver vamos...

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Será que as listas saem mesmo na segunda-feira? Pior do que isto seria quase impossível...

Finalizado o prazo concedido aos professores contratados para apresentarem a sua candidatura à BCE, uma nova modalidade de concurso de professores que deixa qualquer um completamente de rastos (tal é a sua complexidade e subjectividade), eis que milhares de professores dos quadros anseiam pelo dia e hora em que as listas da mobilidade interna possam ser dadas a conhecer. Falamos de largos milhares de professores que durante esta semana estiveram numa escola (muitos deles participando em reuniões de departamento e de grupo e até em conselhos de turma), sem saberem se para a semana aí continuarão ou se, de um dia para o outro, terão que se apresentar noutra escola para, sem terem tido a oportunidade de prepararem convenientemente o seu início de ano escolar, lhes ser entregue um horário e começarem a dar aulas "às escuras", ou seja, sem qualquer informação sobre as turmas que terão a seu cargo. 
Tudo isto devido à incompetência dos serviços do MEC que, uma vez mais, não conseguiram concretizar de forma correcta e planeada o processo de colocação de professores. E este ano, a incompetência ultrapassou todos os limites do admissível. Esta semana tivemos escolas a funcionar a meio gás (ou mesmo a menos de meio gás), sendo que para a semana será o corrupio total, com a chegada de milhares de professores às escolas que, em poucas horas, terão de fazer todo o trabalho de preparação do ano escolar que lhes devia ter ocupado o tempo da semana anterior. E então aqueles a quem for atribuída a função de Diretor de Turma é que andarão mesmo às apalpadelas, dado lhes ter sido coartada a possibilidade de, atempadamente, executarem as tarefas de início do ano escolar. 
E o que dizer da forma como os sindicatos de professores actuaram nesta primeira semana de Setembro? Uma desilusão. No início da semana teve que ser a Associação de Professores Contratados a conseguir algum tempo de antena por parte das televisões, rádios e jornais, aquando da ida de milhares de colegas nossos aos centros de emprego. Depois, foi o deserto total. A Fenprof e a FNE evaporaram-se. Alguém viu o Mário Nogueira ou o Dias da Silva nos telejornais? Nada. A opinião pública passou a semana inteira apenas a ouvir falar da bagunça tida com a abertura do ano judicial, mas quanto à vergonha que se passa com o atraso nas listas de colocação dos professores (e falamos de milhares de professores dos quadros, a acrescentar a muitos outros milhares de contratados) nada de nada... Nem fóruns, nem debates, nem opiniões nas nossas televisões...
E informação do MEC sobre a saída das listas? Nada. Será que vamos ter milhares de professores pregados, durante o fim-de-semana, aos portáteis e telemóveis, para saberem se as listas já saíram? Falta de consideração, falta de respeito e falta de vergonha. Eis o que se pode dizer deste Ministério da Educação em relação aos professores. Pura incompetência... De Crato nem uma palavra de assunção do erro. Já os sindicatos parecem estar de férias. E os professores, dirão MEC e sindicatos, que se amanhem...

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Por onde anda o ministro Nuno Crato?

Estamos em Setembro e, ao contrário do que seria razoável, ainda há largos milhares de professores que (des)esperam pela publicação das listas de colocação de professores. Tirando um episódio ocorrido durante o curto mandato da ex-ministra da Educação Maria do Carmo Seabra, nunca antes se tinha assistido a tamanha incompetência e falta de consideração do MEC pelos professores, dado que o que seria normal é que, nesta altura, as escolas já soubessem com que professores é que podem contar para um novo ano lectivo que se aproxima.
Mas, se já estamos habituados a que o atraso seja palavra de ordem no MEC, o que dizer da forma como ontem, primeiro dia de Setembro, o MEC reagiu às notícias dadas pela comunicação social de que milhares de professores encheram os Centros de Emprego de norte a sul do país, para muitos deles daqui a uns dias serem chamados para irem para as escolas (porque as escolas precisam deles)? Pois, a resposta é simples: não houve reação por parte do MEC! Ou melhor, houve desprezo...
Poderíamos aqui fazer um interessante exercício de comparação sobre as atitudes tidas ontem pela Ministra da Justiça e pelo Ministro da Educação. Ontem, ambos os Ministérios foram protagonistas pelos mesmos motivos: atraso e desorganização na abertura dos anos judicial e lectivo. Mas, enquanto que a Ministra da Justiça deu a cara e se desdobrou em inúmeras presenças televisivas, dando explicações e respondendo as questões dos jornalistas, de Nuno Crato nada... Nem sequer um secretário de Estado deu uma palavra sobre o facto de já estarmos em Setembro e ainda estarem por publicar as listas de colocação, fazendo com que as escolas tenham de funcionar a meio gás...
É claro que quando as listas de colocação forem divulgadas veremos Nuno Crato nas televisões a afirmar que tudo decorreu de forma normal, sem sobressaltos, que os professores estão nas escolas antes das aulas começarem e que não houve problemas na abertura do ano lectivo. Nada mais falso... E como os jornalistas que lhe vão fazer as perguntas não percebem nada do sistema de colocação de professores, não sabem o que é a mobilidade interna, desconhecem o funcionamento das escolas e não percebem que há muito trabalho que precede as aulas, vamos, uma vez mais, assistir à abertura oficial do ano lectivo com a ida de Nuno Crato e das câmaras de televisão a uma qualquer escola deste país como se tudo tivesse ocorrido de forma normal. E ocorreu, dentro da (a)normalidade habitual...

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

A fraude dos cursos profissionais...


No seu livro "A Sala de Aula", Maria Filomena Mónica dedica um capítulo aos cursos profissionais. Depois de discorrer, a partir de vários depoimentos de professores que dão aulas nestes cursos, sobre a forma errónea como este tipo de ensino foi pensado, desde a estrutura curricular dos mesmos até ao tipo de alunos a que se destinam e à forma como as aulas (não) funcionam, Maria Filomena Mónica termina o capítulo dedicado aos cursos profissionais com uma frase que sintetiza muito bem aquilo que, em termos gerais, os professores que leccionam este tipo de ensino pensam sobre o assunto: cursos mal concebidos e alunos mal-educados.
Efectivamente, a experiência de seis anos consecutivos com turmas do ensino profissional, a acrescentar a tudo aquilo que vou ouvindo de colegas que também leccionam a turmas do profissional, levam-me a concordar, por inteiro, com a síntese apresentada por Filomena Mónica. Quem pensou este tipo de ensino não deve fazer a mínima ideia do tipo de alunos que, regra geral, é "metido" nos cursos profissionais. Sim, digo "metido", porque o primeiro erro tem que ver com a forma como se "guetizou" o ensino profissional, quase que predestinando-o para os alunos que no ensino regular apresentam várias retenções e não aos alunos que, independentemente, dos seus resultados escolares têm maior apetência para o ensino profissional. A forma como muitos alunos problemáticos são conduzidos para o ensino profissional, prometendo-se-lhes o sucesso, independentemente do seu esforço e dedicação, constitui uma autêntica fraude. 
Neste tipo de ensino deveriam estar os alunos que realmente pretendem aprender uma profissão específica e enveredar no mercado de trabalho mais cedo do que aqueles que têm como objectivo o ensino superior. Os outros, aqueles que a escola nada lhes diz, teriam direito ao que sempre tiveram os alunos cheios de retenções até ao momento que os políticos cometeram o maior erro no sistema de Educação deste país (o alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos de idade): aos 15 anos deixariam a escola e passariam a fazer parte da mão-de-obra disponível neste país. Mais tarde, quando e caso se apercebessem da falta que lhes faria ter maiores qualificações, voltariam à escola para a modalidade de ensino que sempre houve para este tipo de alunos (o ensino recorrente nocturno).
Mas, os problemas do ensino profissional não têm só que ver com o tipo de alunos que, geralmente, frequenta este tipo de ensino. Já não bastava os alunos serem, regra geral, muito fracos e sem vontade de estudar (e, por isso, também sem vontade de trabalhar), como a organização curricular destes cursos é completamente contraproducente a um bom desempenho escolar: com uma carga lectiva extremamente elevada, de oito horas de aulas por dia, sem folgas e com aulas que terminam mais tarde que as dos alunos do ensino regular, os alunos do ensino profissional vêem as aulas como um autêntico martírio, uma espécie de prisão, dado não terem tardes livres, nem furos no horário, ainda com a agravante das matérias (caso fossem levadas à risca pelos professores) serem de uma exigência que supera, muitas vezes, aquela que é exigida aos alunos do ensino regular. Basta analisar o programa da disciplina de Geografia do ensino regular para os 10º e 11º anos e o da mesma disciplina para o curso profissional de Técnico de Turismo para constatar que quem os concebeu não faz a mínima ideia do tipo de alunos que frequenta o ensino profissional, tal é a complexidade e a exigência que os programas das disciplinas do ensino profissional apresentam. Claro que depois a conversa que os professores ouvem é sempre a mesma: "não compliques", "manda os alunos fazerem uns trabalhinhos", "faz os testes com consulta". Enfim, entra-se na onda do "faz de conta que se ensina", mas na verdade o que interessa é "tomar conta dos alunos".
Claro que pode haver excepções e, por exemplo, nestes últimos seis anos, as turmas que tive do ensino profissional não foram todas iguais. Das quatro turmas que tive, uma quase que se poderia equiparar a uma turma do ensino regular, com alunos que admitiam ter dificuldades de aprendizagem, mas que "davam o litro" na hora de trabalharem. Mas, as outras três turmas eram, efectivamente, compostas por uma larga maioria de alunos sem qualquer vontade de trabalhar, quer fosse em aulas teóricas, como na componente mais prática. E a ideia que se vai generalizando em muitas escolas é muito simples: "temos que manter cá esses alunos e não os podemos deixar ir embora, para termos horários e professores ao serviço". Ou seja, prespassa a clara ideia de que os fins justificam os meios e que, portanto, a exigência e o rigor podem ser esquecidos, porque o que interessa é ter cursos do ensino profissional para ter alunos, pois ter alunos significa ter professores, numa clara concorrência entre escolas do ensino profissional e escolas públicas com ensino profissional.

sábado, 21 de Junho de 2014

Sobre o facilitismo patente nos exames. O caso da Geografia...

As aulas terminaram e, depois das reuniões de avaliação, alunos e professores encontram-se em plena fase de exames. Este ano letivo não tive turmas do 11º ano, pelo que não tive a preocupação acrescida de ter de "preparar" os alunos para o exame de Geografia A. No entanto, tive uma turma do 10º ano que daqui a um ano terá de fazer o exame de Geografia A, com matéria dos 10º e 11º anos de escolaridade. E, felizmente, muitos alunos desta turma já pensam nos exames, com um ano de antecedência... Daí que tenha tido a curiosidade de ver até que ponto é que o exame de Geografia A deste ano continuava a ter o mesmo grau de dificuldade (reduzida) dos anos anteriores. Ainda por cima, durante a última semana, as notícias vindas a público sobre os exames já realizados (Português, Filosofia, entre outros) tinham tido algo em comum: o facilitismo. 
Pois bem, o exame de Geografia A deste ano lectivo teve uma novidade em relação ao do ano anterior: o número de questões de escolha múltipla aumentou de 20 para 24 e o seu peso na cotação total (de 200 pontos) passou de 100 para 120 pontos. Ou seja, num exame do ensino secundário de uma disciplina que pertence às ciências sociais e humanas, mais de metade das questões são respondidas com uma cruz!!! E, ainda por cima, se dão quatro hipóteses de resposta e uma delas está correta, a probabilidade de responder corretamente é de 25%, o que na verdade aumenta para 50% se tivermos em linha de conta que duas das hipóteses apresentadas são "descaradamente" erradas.
Assim, temos que, uma vez mais o IAVE (provavelmente a mando do MEC) continua a desprezar a capacidade que os alunos devem ter para responderem de forma descritiva às questões, preferindo a lógica das questões de escolha múltipla. Cada vez mais se ignoram as questões de desenvolvimento (descreva, explique, caraterize, justifique...) e se insiste nas questões de resposta curta (indique, identifique). É inadmissível que numa disciplina das ciências sociais e humanas o MEC continue a permitir que o IAVE elabore exames deste género. E nos grupos de desenvolvimento (em seis grupos apenas dois têm questões de desenvolvimento) o grau de dificuldade também não é considerável. Deixo apenas aqui o exemplo de um dos grupos de desenvolvimento do exame de Geografia A deste ano em que qualquer aluno razoável do 9º ano se consegue safar. Repare-se que das três questões formuladas neste grupo duas respondem-se com meia dúzia de palavras e apenas a terceira questão implica uma resposta mais extensa, mas sem ter de apresentar qualquer justificação ou enumerar conclusões com base na análise de um mapa ou gráfico. 
Enfim, andam os professores de Geografia a "debitar" matéria desde o 7º ao 11º ano de escolaridade para depois termos exames deste calibre. Os testes que os meus alunos fazem são bem mais difíceis e exigentes do que esta espécie de exame. E depois temos os professores das universidades a queixarem-se de muitos dos alunos que têm. Pudera! Com o nível de exigência e dificuldade que os exames do IAVE apresentam não admira que um aluno medíocre consiga, com algumas aulas de apoio, ter 10 valores neste exame...    

quarta-feira, 7 de Maio de 2014

A propósito da existência ou não de um conflito de gerações na classe docente...

Numa recente entrevista concedida por Nuno Crato à TVI24 foi utilizada, pelo Ministro, a expressão "nova geração de professores" que parece ter deixado muitos colegas incomodados e perturbados pela forma como Crato fez passar a ideia de que é seu anseio que, do ponto de vista científico, "a nova geração de professores seja tão boa ou melhor do que a actual" (palavras de Crato), numa lógica de qualidade crescente.
Ora, a ideia que passou de que, nas nossas escolas, estão em confronto duas gerações de professores deixou muita gente incomodada, pelo que gostaria, uma vez mais, de dar a minha opinião sobre este assunto.
Convém desde já olhar para os números e constatar que, por exemplo, no ensino secundário a grande maioria dos professores portugueses tinha, em 2011 (dados mais recentes), menos de 50 anos de idade, o que reflecte a relativa juventude da nossa classe docente, ao contrário do que acontece na generalidade dos países europeus.
Mas, façamos uma reflexão sobre o mal-estar instalado nas nossas escolas entre aqueles que têm mais e menos idade. Por um lado, temos os professores mais novos que se sentem injustiçados (na minha opinião com razão) por nunca poderem almejar a ter direito às regalias e benesses que os seus colegas mais velhos puderam alcançar, nomeadamente em termos salariais e de redução da carga lectiva. Claro que, muitas vezes, a resposta de alguns dos colegas mais velhos é a de que os docentes mais novos são uns invejosos por terem salários mais baixos do que os seus colegas mais velhos. Não creio que a questão seja de inveja, mas sim de injustiça...
Já os colegas mais velhos dizem-se, muitas vezes, desiludidos por terem perdido alguns dos direitos que consideravam como adquiridos para sempre: a redução da componente lectiva nos termos em que existiu durante muitos anos (em que na componente não lectiva não tinham de estar na escola - lembram-se desses tempos?), a possibilidade de se poderem reformar ainda antes dos 65 anos de idade nos termos em que vigorou durante muitos anos (lembram-se de quando muitos docentes do 1º ciclo se reformavam com cinquenta e poucos anos?) e, claro, algo que atingiu tanto os professores mais novos como os menos novos: o fim das progressões automáticas na carreira e o congelamento salarial...
Lembro-me de há uns meses atrás ter escrito um post em que defendia que Portugal deveria ter um regime salarial docente semelhante ao do Reino Unido ou da Dinamarca (onde a diferenciação salarial entre os docentes mais novos e mais velhos é muito reduzida e onde um docente com 15 anos de serviço e um seu colega com 30 anos de serviço auferem o mesmo salário) e o que mais surgiu na caixa de comentários desse post foram críticas de colegas mais velhos a apelidarem-me de invejoso por defender uma ideia que já existe noutros países da UE. Aliás, os piores dos argumentos que se podem utilizar para contrariar esta posição de maior homogeneidade salarial é a boçalidade do "tu tens é inveja", "cresce e aparece", "sabes lá tu o que é a vida"! Muitos destes colegas em final de carreira esquecem-se que também eles já tiveram 15 ou 20 anos de serviço e que não gostariam de ser tratados de forma prepotente pelos colegas mais velhos. Tal como deveriam parar para pensar que os seus colegas mais novos quando chegarem aos 30 ou 40 anos de serviço não terão direito às regalias e benesses que agora os colegas mais velhos ainda podem usufruir...
Felizmente que há colegas que estão perto da reforma e que sabem ouvir e respeitar as opiniões dos mais novos. Até há colegas que compreendem os limites que a idade lhes impõe e que pedem ajuda aos mais novos naquilo que consideram necessário. Tal como há colegas mais novos que vêem a experiência de alguns dos seus colegas mais velhos como uma mais-valia que deve ser aproveitada, para bem da escola, da melhor maneira possível. Enfim, como se costuma dizer, há de tudo...
Enfim, a idade constitui, sem dúvida, sinal de experiência, mas também deveria ser prova de bom-senso e de maturidade. Ora, muitas vezes parece que a idade se traduz num sinal de despotismo, intransigência, arrogância e prepotência que deitam por terra tudo aquilo de bom em que a idade se deveria traduzir. É pena que ainda existam colegas que apresentam estes tiques de sobranceria, mas, felizmente que há excepções. Mas não tenhamos dúvida que o mal-estar intergeracional tende a agravar-se e é nos tempos de austeridade, como o que actualmente atravessamos, que esta realidade mais se nota...