quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Nova mudança de regras na contratação de professores...

O jornal Público de hoje destaca em primeira página a proposta que o Governo apresentou aos sindicatos da educação com vista à introdução de alterações nos "concursos" de colocação dos professores. A acreditar no teor da notícia, da qual não desconfio, o Ministério pouco ligará à posição tomada pelos sindicatos, por duas razões principais: a falta de credibilidade que os ditos "representantes" dos docentes apresentam aos olhos da opinião pública e a forma inflexível e determinada (ou será determinista?) com que Valter Lemos e a Ministra da Educação têm conduzido as suas políticas...
Quanto às alterações previstas na colocação de professores, parece ficar claro que o que se pretende é "impor" uma maior estabilidade no corpo docente de muitas escolas, independentemente das condições em que os docentes terão que leccionar. Deste modo, o que poderá resultar da política de reconduções e de obrigatoriedade de estar 3/4 anos na mesma escola é uma amálgama de situações díspares: casos de docentes que ficarão agradados com o que lhes "calhar" em sorte, mas também situações de professores contrariados e cuja dedicação à causa docente não será a melhor!
Entretanto, duas medidas avançadas pelo Ministério da Educação parecem ir no caminho da procura do facilitismo e do sucesso escolar nivelado por baixo: o despacho-normativo 50/2005 e a redução do número de exames nacionais. Voltarei a este assunto...

3 comentários:

Isabel disse...

olá Pedro
Não concordo muito com a duração de 3!4 anos os concursos. Poderá ser bom para os quadros de escola...mas acho que muitos professores irão se acomodar ( já falei no comentario anterior), para além disso, imagina que alguem vai para muito longe...ou então não encontra um corpo docente em que se sinta integrado.

bjs

Patricia disse...

Esta proposta de alteração ao concurso que mantém colocações por vários anos vai provavelmente beneficiar muitos docentes, mas também prejudicar outros.
É uma das alterações mais contestada pelos sindicatos, que recusam a possibilidade de um docente não poder concorrer todos os anos. Pois, deste modo, condidatos menos graduados são colocados em vagas desejadas pelos mais habilitados, entretanto impossibilitados de ir a concurso.
O que se pretende com estas alterações é garantir a estabilidade dos corpos docentes nas escolas e evitar que, anualmente, milhares de professores mudem de estabelecimento de ensino.
Assim um professor pode acompanhar os seus alunos ao longo de um ciclo de ensino, o que traz vantagens...
Boa semana!

Anónimo disse...

Não tem a ver com o tema postado, mas parece-me interessante ler e reflectir sobre o assunto.
Este texto escrito por um professor de filosofia que
escreve semanalmente para o jornal O Torrejano.
Está fantástico.E tristemente verdadeiro...
O atestado médico


Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter e fazer uma vigilância.
Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la? Passemos então à parte divertida.
A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame.
Vai ao médico. E, a partir deste momento, a stuação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso e Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a
felicidade o padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em
Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não
está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação
sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca,do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.
Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um
país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser
racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo
que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.
Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma
mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal. Sabemos bem,depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões.
O problema é que em Portugal a ficção se confundecom a realidade.
Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe.
A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente
mentirosos.
Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade.(...)
Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos
derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais
felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos
ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros.
Fazemosmalabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a
seu lado,entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.
Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.
Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.