quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Facilitismos para combater o insucesso escolar? Não, obrigado...

O Governo publicou recentemente o Despacho Normativo n.º 50/2005, do Ministério da Educação, que vem definir um conjunto de medidas que visam combater o insucesso e o abandono escolares no ensino básico. Até aqui tudo bem: intenções, preocupações, estratégias e prioridades... O problema surge quando analisamos o teor de tais medidas: no seu artigo 4º do Despacho vem indicado que os alunos do ensino básico que se encontrem em situação de reprovar de ano (três ou mais negativas), e que já tenham ficado retidos pelo menos uma vez ao longo do seu percurso escolar, terão uma última oportunidade, através de uma "avaliação extraordinária", a cargo dos conselhos pedagógicos das escolas, que ponderarão "as vantagens de nova retenção". Por outras palavras, quando se poderia supor que a prioridade seria envidar todos os esforços para que os alunos com maiores dificuldades ou aqueles que estão desinteressados da escola fossem apoiados activa e seriamente para melhorar o seu processo de ensino-aprendizagem, opta-se, mais uma vez, na lógica de enfiar a cabeça debaixo da areia e tentar a transição administrativa de ano dos alunos... Na realidade, trata-se de insistir numa medida que já é aplicada por muitas escolas. Por exemplo, no ano passado, na minha Direcção de Turma tive quatro alunos que foram sujeitos a este tipo mecanismo e que só não transitaram de ano (de facto não o mereciam) sobretudo porque tive que elaborar os respectivos relatórios de retenção repetida, cada um deles com cerca de 8 páginas e, assim, convencer o Conselho Pedagógico a não permitir a transição daqueles alunos que, durante o ano lectivo, andaram a "brincar" às escolinhas, com a conivência dos encarregados de educação...
Todos os anos, entre 15 e 17 mil alunos deixem a escola sem terminarem o 9.º ano, o que é elucidativo da incapacidade que o sistema de ensino português demonstra para "apoiar" os alunos que apresentam maiores dificuldades. A solução não pode ser nivelar por baixo, por forma a contrariar as estatísticas da UE, mas sim investir noutro tipo de currículos para estes alunos, mas também de exigências para com os encarregados de educação.
Mas, com esta equipa ministerial já nada é de admirar. Em pouco mais de meio ano de "trabalho", Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos apenas têm (des)investido em matéria de alterações introduzidas ao estatuto da carreira docente, prolongamento das horas lectivas e não lectivas para alunos e professores nas escolas e aplicação de medidas que visem a transição facilitada de ano dos alunos. Quanto a medidas que, realmente, são necessárias e urgentes, nada...

5 comentários:

Patricia disse...

Tens razão, para diminuir a taxa de retenções no final de cada ano a Ministra de Educação implementa uma medida que visa criar o facilitismo para os alunos que na maior parte do tempo não demonstram interesse pelo ensino. Será esta uma boa medida? Transitar alunos que não possuem os conhecimentos suficientes... é por isso que o nosso sistema de ensino se encontra cada vez pior comparado com o de outros países europeus.
Até breve!

PJ disse...

Um comentário e uma pergunta. Afirmas que "seria (de) envidar todos os esforços para que os alunos com maiores dificuldades ou aqueles que estão desinteressados da escola fossem apoiados activa e seriamente para melhorar o seu processo de ensino-aprendizagem." Não podia estar mais de acordo. Mas contas logo a seguir que tiveste quatro alunos "que só não transitaram de ano (de facto não o mereciam) sobretudo porque tive que elaborar os respectivos relatórios de retenção repetida, cada um deles com cerca de 8 páginas e, assim, convencer o Conselho Pedagógico a não permitir a transição daqueles alunos". A minha pergunta, que não esconde nenhuma intenção crítica subjacente, diga-se desde já, é a seguinte: o que é que na prática se tentou fazer com estes alunos de forma a tentar que eles concluíssem com sucesso o seu ano de escolaridade? Pessoalmente acho louvável essa tua atitude de justificar a retenção repetida desses alunos. Infelizmente, muitos directores de turma teriam pura e simplesmente "chutado para canto". A questão que me assalta sempre nestes casos é a seguinte: pode a escola dormir descansada relativamente a estes alunos e às suas famílias e dizer que se tentou o possível para garantir o sucessos destes alunos?

Miguel disse...

Caro PJ, agradeço a tua questão que, de facto, é bastante pertinente.
Relativamente aos quatro alunos em questão, todos já com pelo menos uma retenção no mesmo ciclo de escolaridade, o Conselho de Turma aplicou a dois deles diversas estratégias inerentes ao estatuto de aluno com necessidades educativas especiais, nomeadamente adaptações curriculares, enquanto que aos outros dois foi dado um apoio mais individualizado na sala de aula, para além de terem sido aceites para aulas apoio pedagógico acrescido.
O problema da falta de sucesso destas estratégias tomadas pelos professores centrou-se na insuficiente e confrangedora falta de empenho desses alunos, para além da falta de interesse dos próprios pais.
De referir que no final do ano esses alunos foram retidos e propostos para frequentarem um curso de cariz profissional na escola secundária local, embora só dois tenham de facto seguido tal orientação. Penso que os outros dois abandonaram a escola...
Culpa de quem? Do sistema, dos alunos e/ou dos pais?

Isabel disse...

Insucesso escolar...são imensas as causas.
Mas quanto a nova medida de reprovação ou aprovação dos alunos não concordo.
Se um aluno não tem conhecimentos ...não tem aquisições aptidão para passar de ano...tem que repeti-lo..e não passar o aluno de ano. Ele tem de ter bases para os anos posteriores. só é bom para ele repetir..porque irá esforçar-se e vai pensar em passar.
Eu perdi a 4 classe mas hoje sou Educadora...não fiquei penalizada, apenas melhorei as minhas bases.
Na minha opinião são muitas as causas do insucesso escolar.Vivemos numa sociedade cada vez mais exigente a nivel profissional onde os pais não tem tempo para os filhos...os filhos passam a maior parte do seu tempo na escola, quando chegam a casa , já de noite, mal tem tempo para reflectirem . Cada vez menos os filhos estão com os pais.
e os Professores muitas vezes não tem condiçoes materiais para realizar o seu trabalho.E então com tanta politica desnorteada...enfim...

Melhores dias virão.

Anónimo disse...

Eu perdi a 4 classe mas hoje sou Educadora.

1º Admiro a sinceridade, especialmente quando nada a obrigava a ...

2º Sou educadora. De infância? ou professora?

3º Quanto ao resto, concordo no essencial.