sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Por uma Ordem dos Professores credível e eficaz

Escrevi há uns tempos atrás que sou totalmente a favor da constituição de uma Ordem dos Professores, por forma a unir os docentes e servir de estímulo ao regresso da credibilidade à nossa classe profissional.
Agora que vivemos um período em que os sindicatos dos professores resolveram unir-se de forma a protestarem contra algumas das medidas que este Governo tem vindo a implementar, penso ser o momento ideal para aqui apresentar o meu pensamento acerca do estado actual em que se encontra a classe docente.
Ora, um dos principais problemas que afecta a classe dos professores é a sua divisão e segmentação ao nível dos diferentes níveis de ensino existentes. Todos sabemos (embora custe a aceitar a muita gente) que ser educador de infância ou professor do 1º ciclo não é o mesmo que ser professor do 3º ciclo ou do ensino secundário, mas isso não é razão para que uns se queiram reformar antes que outros... Não importa aqui reflectir sobre qual o grau de importância social de cada um destes níveis de ensino, mas tendo âmbitos de intervenção e exigência diferentes, a verdade é que aglutinar docentes com diferentes formas de "ver" o ensino num mesmo sindicato só leva a que as divisões se agudizem. Por isso, mais do que termos diversos sindicatos (uns controlados por docentes do 1º ciclo, como a FENPROF e a FNE, e outros mais afectos aos professores do ensino secundário, como o SNPL), seria mais equilibrado termos apenas uma Ordem de Professores que, de forma democrática, fosse a voz de todos os professores, independentemente, do nível de ensino leccionado.
Finalmente, a terceira razão prende-se com a legitimidade e capacidade de influência junto das entidades governamentais. Uma Ordem dos Professores que fosse exigente para com os seus associados, como acontece nas outras Ordens profissionais, faria com que a generalidade da opinião pública portuguesa tivesse um maior respeito pelos professores, visto que, a própria Ordem teria a incumbência de avaliar a prestação dos docentes, para além de orientar a sua formação contínua. Ao contrário do que se passa actualmente onde para se ser professor basta ter uma licenciatura em ensino com média suficiente e onde a formação contínua apenas serve para que sindicatos ganhem dinheiro com cursos que de científico nada têm, uma Ordem dos Professores elevaria o nível de exigência dentro da própria classe docente, trazendo de novo a credibilidade necessária e a real capacidade de intervenção junto do Governo.

13 comentários:

Paula disse...

Querido amigo,
com a tua visã0, claridade de ideias e forte sensatez, por que não te candidatas a um posto que te permita fazer algo?
Terias o meu voto, certamente!
Concordo com o que dizes nos teus blogs e seria bom semais pessoas pensassem como tu.
Um beijinho.

Isabel disse...

É verdade "gatixa", o Pedro deveria candidatar-se a um posto que o permitisse ajudar a nossa classe. Quem sabe na Ordem que ele fala no blog?!
Concordo em tudo o que dizes Pedro e penso que mais cedo ou mais tarde surgirá essa Ordem, porque da maneira como os Professores andam descontentes...alguma mudança tem de haver.
Uma grande verdade que disseste e sempre acreditei...foi a de que nunca devereia haver diferenciação nos diferentes graus de ensino, pois somos todos docentes e haver uma divisão só fará com com haja "divorcios" dentro da nossa classe.

Concordo sim com uma Ordem dos Professores e discordo com a integração de partidos pois esses só verão os seus interesses e nunca aquilo que é realmente necessário para garantirmos um ensino de qualidade.

fica bem...
bjs Pedro

SaltaPocinhas disse...

a principal diferença entre os professores do 1.º ciclo e os "outros" é que os do 1.º ciclo LECCIONAM 25 horas por semana sempre até ao final da carreira...E são também e SEMPRE directores de turma e todos os cargos que possas imaginar! Daí a diferença na idade de aposentação!

fr disse...

Quer queiram quer não, há diferenças entre a profissão docente dos diferentes níveis de ensino.
E essas diferenças têm que se manifestar de várias formas.
COncordo que os professores do Ensino Básico se possam reformar mais cedo. Eles acompanham de muito perto os seus alunos e não têm reduções de horas lectivas ao longo dos anos.
Não faz sentido colocá-los à frente de uma turma aos 60 ou 65 anos.
Pelo facto de a profissão docente ser muito desgastante é que os professores dos outros níveis de ensino vêem reduzidas as horas lectivas ao longo da carreira.
De igual forma, não posso concordar com a forma como foram feitas as equiparações de habilitações dos professores do 1.º Ciclo, muito por força dos sindicatos.
Foi lamentável, e eu vi algumas situações escabrosas.
Se a formação inicial exigida era inferior a uma licenciatura, não havia o direito de um momento para outro ofecer-lhes o título.
Quanto à Ordem, apesar de ser muito crítico dos sindicatos, também o sou das Ordens. Transformam-se em órgãos pesados e corporativos, que impõem muitas regras e tentam controlar coisas que devem ser do livre arbítrio do educador/professor.
Tenho muitas dúvidas sobre a utilidade prática das Ordens, mas continuo aberto a debate.

Miguel Pinto disse...

Creio que será necessário avançar para a criação de uma comissão deontológica que pode ser constituída por representantes das associações de professores, sindicatos e representantes das instituições responsáveis pela formação de professores. Para quê? Para a clarificação do que é e para que serve a profissão educativa. Para promover a criação de um código deontológico que sirva de base e de orientação comum aos educadores face às ambiguidades e confusões reinantes. Impõe-se uma demarcação dos educadores ao poder político e administrativo que procura monopolizar a educação a seu favor, tendo em vista a formação de sujeitos conformes à sua ideologia.
A Ordem é, a meu ver, dispensável.

PJ disse...

O tema desta entrada é muito pertinente e daria, seguramente, lugar a um longo comentário se tivesse um pouco mais de tempo livre. Mesmo assim duas ou três achegas. O tom que perpassa no texto é claramente discriminatório contra os professores do 1º ciclo. Atente-se na frase: “Todos sabemos (embora custe a aceitar a muita gente) que ser educador de infância ou professor do 1º ciclo não é o mesmo que ser professor do 3º ciclo ou do ensino secundário, mas isso não é razão para que uns se queiram reformar antes que outros... Não importa aqui reflectir sobre qual o grau de importância social de cada um destes níveis de ensino, mas tendo âmbitos de intervenção e exigência diferentes, a verdade é que aglutinar docentes com diferentes formas de "ver" o ensino num mesmo sindicato só leva a que as divisões se agudizem.”
Como a Saltapocinhas lembrou, e muito bem, as diferenças ao nível da idade da reforma, que agora se pretendem abolir, prendiam-se simplesmente com a inexistência de uma diminuição da carga horária ao nível dos docentes do 1º ciclo, contrariamente às dos professores dos restantes ciclos. Era uma compensação razoável no quadro das condições do estatuto da carreira docente.
Por outro lado, quando se escreve que o âmbito de intervenção e exigência dos diferentes professores dos vários ciclos são diferentes, compreendo a primeira a parte respeitante ao âmbito de intervenção mas não quanto à exigência. Porventura será mais menos exigente ensinar crianças do 1º ciclo que no segundo? Mais exigente ensinar alunos do ensino secundário do que do 3º ciclo? A exigência e a excelência nada têm a ver com os alunos ou o nível de ensino.
A acusação de que os sindicatos ganham dinheiro com a formação de professores que nada têm de científico não faz sentido. A maior parte da formação contínua de professores é assegurada por centros de formação de professores que não são da responsabilidade de sindicatos. Mais: há alguns meses atrás o Expresso denunciou um conjunto de acções de formação de professores da responsabilidade da Associação Pró-Ordem de Professores que era uma verdadeira anedota e que provocou um pequeno escândalo devidamente denunciado pelo Nuno Crato (ver http://online.expresso.clix.pt/cronica/artigo.asp?id=24751116&wcomm=true#comentarios).
Por fim, um argumento de fundo contra a criação da Ordem dos Professores. A criação de uma ordem, com base nos argumentos apresentados, parece basear-se numa crise de representação sindical. Ora, a criação de uma Ordem não vai resolver nenhum dos problemas dos professores e, pelo contrário, vai agravar outros. As Ordens profissionais não têm competência para negociar questões de carácter sindical como aquelas que têm vindo a suscitar grande polémica nos últimos meses. Todavia, o argumento de fundo contra a criação de uma Ordem de Professores prende-se com o grau de autonomia das funções docentes. Com efeito, este não é, com a excepção dos docentes do ensino superior, minimamente equiparável ao de outras profissões liberais. Ninguém diz a um médico, engenheiro ou farmacêutico como devem intervir no âmbito das suas competências. O mesmo não se passa com os professores que têm que ensinar um programa que não é da sua responsabilidade, só para citar este exemplo. O seu grau de autonomia profissional está muito longe do exercido pelos verdadeiros profissionais liberais que, tradicionalmente, podem constituir Ordens Profissionais. É certo que em Portugal existem Ordens cuja existência tenho dificuldade em perceber, como acontece com os Biólogos ou Economistas. Porém, os maus exemplos não devem ser invocados para se reproduzir outros tantos erros. Por fim, tendo em conta o funcionamento francamente corporativo de uma parte significativa das nossas Ordens Profissionais (veja-se o conflito entre a Alta Autoridade da Concorrência e as Ordens dos Médicos Veterinários e dos Revisores Oficiais de Contas relativamente à fixação de preços mínimos) valerá a pena ter mais uma Ordem? Não me parece.

AnaCristina disse...

Já fui completamente a favor da Ordem... Agora acho que seria uma excrescência. Tornar-se-ia num outro sindicato!
Contudo o objectivo de unir os professores acho que é de louvar... apesar de ser irrealizável... para tristeza minha e de mais uns milhares!

Fernando_Vilarinho disse...

considero que existe uma tal multiplicidade de tipos de professores que seria na prática impossível implementar tal Ordem.
Os sindicatos passam por uma fase de transição em que quase tudo é/pode ser questionado.

tb dei aulas de Geo 5 anos pelo Norte interior e Lisbo. Agora mudei de ramo (o Estado coagiu-me a mudar).

boas aulas e bom ano.

vou estar atento ao que escreves. até breve

Patrícia disse...

Concordo com a criação de uma Ordem dos Professores, uma vez que os sindicatos na maior parte das vezes, só servem para fazer barulho e estão quase sempre contra qualquer medida do Governo. Já fui sindicalizada, mas há pouco tempo anulei a minha inscrição, porque não tinha nenhuma regalia ao pertencer ao sindicato: o atendimento deixava muito a desejar e o valor dscontado ao vencimento ainda era bastante. Quando tenho alguma dúvida, prefiro ir ao CAE.
No que diz respeito às diferenças ao nível da idade da reforma, não aceito que os professores do 1ºciclo se reformem antes dos outros professores, pois quanto a mim isso não se justifica. Sou professora do 1º ciclo, mas também já leccionei ao 2ºciclo e, neste caso, gosto de avaliar as situações com lógica e coerência. É verdade que até aqui, os professores que leccionavam aos 2ºe 3ºciclos de ensino básico e ao secundário tinham redução de horas lectivas, mas agora isso mudou e têm de estar na escola, no mínimo, as 22 horas semanais. De qualquer forma, não é razão para nos querermos reformar antes e passo a referir uma das razões dessa minha opinião. Por exemplo, enquanto que no 1º ciclo o horário de entrada não é tão rígido, sendo que muitas vezes o horário das 8h passava a ser às 8.15h ou 8.20h, nos outros ciclos isso já não pode acontecer, pois há o dito "toque" de entrada, que permite um controlo mais rígido, uma vez que aos professores que se atrasem nem que sejam 3 min. já têm a sua falta marcada. Aconteceu-me isso algumas vezes, atrasar-me com o trânsito, e dei a aula, mas com a falta marcada, tendo que meter um artigo 102º, o que é aborrecido.
Outra situação cariacata é aquela em que nas escolas do 1º ciclo os intervalos de 30 min. ao meio da manhã ou da tarde se prolongam por 40 ou 45 min. Chego a ver colegas a irem resolver assuntos pessoais, enquanto as funcionárias de acção educativa ficam a tomar conta dos alunos, em pleno horário lectivo. As tais 25 horas semanais não chegam às vezes a 20 horas por semana.
Finalmente, a preparação das aulas no 1º ciclo nada tem que ver com o que se passa nos outros ciclos. O mesmo digo do nível de exigência. Muito mais poderia dizer, mas acho que não vale a pena.
Talvez com uma Ordem de Professores, a credibilidade da nossa classe pudesse ressurgir, elevando o nível de responsabilização dos docentes...

Anónimo disse...

Pensa, então, que uma Ordem de Professores colocá-los-á a TODOS em igualdade de circunstâncias, certo?
Se...
TODOS trabalharem efectivamente 35 horas semanais;
TODOS tiverem 25 horas lectivas por semana;
TODOS deixarem de ter reduções do horário lectivo (tipo idade, direcção de turma, coordenador de departamento, etc etc etc...);
TODOS tiverem, pelo menos, 4 níveis diferentes na sala de aula;
TODOS leccionarem 10 disciplinas diferentes;
TODOS deixarem de pensar que 1 semana de trabalho são 4 dias+1 dia livre (se possível à 2ª ou 6ª feira...);
TODOS se reformarem aos 65 anos;
TODOS os professores forem professores;
... então, também sou a favor!!!
Vamos lutar por isso, já hoje!... embora ache preocupante esta massificação da profissão.
E, caros colegas, não será uma Ordem a unir e a dar prestígio e respeitabilidade à classe! Se nós não gostarmos de nós, quem gostará? Esta crise de identidade profissional entristece-me profundamente.
E está visto que professores contra professores, colegas que não se respeitam e se prendem com problemas como a idade de reforma de alguns deles (pecado feio, esse da inveja...) não demonstra muito respeito pela profissão.

Os professores não respeitam a profissão.
Os professores não respeitam os professores.

Quanto a flexibilização do horário da entrada da escola de um participante deste blog, é uma opção de todos os OUTROS... apenas NÓS próprios somos os cumpridores de serviço, verdade? Haja paciência!

Pedro disse...

Caro(a) anónimo(a), eu não disse, nem penso, que uma Ordem dos Professores nos colocará a todos em igualdade de circunstâncias. Apenas afirmo que, na actual conjuntura de falta de credibilização da nossa classe profissiional, em parte devido à ineficácia da missão dos sindicatos, uma Ordem que fosse credível e exigente junto dos seus poderia funcionar como um impulso importante no sentido da valorização da nossa classe...

Anónimo disse...

As profissões são o que os profissionais fazem delas. Ser professor não é algo que se institua por decreto.
A respeitabilidade, a credibilidade, a valorização, a união, etc. tem que ser uma acção emergente da actuação dos professores.
Nem sindicatos, nem ministério, nem ordem, nem instituição alguma pode promover e impulsionar aquilo que nós próprios não nos conseguimos dar. O processo tem que ter uma dinâmica endógena. Para isso, penso ser necessário, em primeiro lugar, que os professores comecem a gostar deles próprios; em segundo, que comecem a gostar dos seus pares; em terceiro, que comecem a ter prazer em trabalhar colaborativamente; por fim (ou será antes para começar?) que comecem a saborear essa paixão quase inexplicável pela educação e pelo ensino/aprendizagem.
Continuo a acreditar que é possível... E, se calhar, é por isso que não gosto de ver professores contra professores (contratados contra QE contra QZP, secundário contra 1º ciclo contra 3º contra 2º ciclo etc etc etc)... da mesma forma que não gosto de ver polícias contra polícias ou bombeiros contra bombeiros.

Já reflecti muito sobre esta questão da Ordem de Professores. E, sinceramente, não penso que tal organização servisse os interesses dos professores. É o que eu penso, embora possa estar enganada. E admito muitas outras opiniões.
Agora... no que eu acredito mesmo, é que são os professores que têm que lutar pela dignificação da classe e não uma entidade mais ou menos abstracta que sabemos que existe algures por aí.

SaltaPocinhas disse...

gostava de responder à Patrícia: não sei em que escola do 1.º ciclo ela leccionou. Não foi em nenhuma que eu conheça pois em todas as que conheço os horários são escrupulosamente cumpridos. Ou melhor, às vezes não são: o meu horário de saída é às 18:15 e raramente chego a casa antes das 19. Há sempre alguém que quer falar connosco, ou nós que mandamos chamar alguém e no 1.º ciclo os "directores de turma" são-no a tempo inteiro, sem horas previamente marcadas. Quanto aos intervalos é verdade que às vezes duram 40 minutos ou até mais, mas para os alunos. Eu fico na minha sala a acompanhar algum que precise de maior ajuda, às vezes até como o meu pão na sala... E não podemos faltar por horas. Se alguém vai tratar de algum assunto na hora do intervalo e só se demora esse tempo, não vejo mal nenhum nisso, embora na minha escola ninguém se ausente durante todo o tempo lectivo. É que se calhar há escolas e escolas e a Patricia leccionou numa escola muito original!